Dedicado especialmente à Leila e todos os meus amigos que
já não podem mais contar com a presença carinhosa das suas mães.
[UPDATE | 09.05.08 - 18:43] - Aos que a tem, perto ou longe, e às que são mães, desejo um domingo
diferente, coroado de felicidades.
O escritor americano Mark Salzman tinha por hobby tocar violoncelo. Prestava um trabalho voluntário lecionando para jovens prisioneiros de alta periculosidade, um programa coordenado pela freira Janet Harris, na Casa de Detenção Juvenil de Los Angeles.
Certa vez, ao saber do hobby do professor, ela o convidou a se apresentar para os detentos. Mark ainda tentou demovê-la da idéia, contando sobre a última vez que tocou para um grupo de crianças, numa comemoração de aniversário. O aniversariante chutara o espigão do violoncelo chamando de coisa ridícula. Para aquelas crianças, só um acordeão conseguia ser pior.
Alegou ainda que a situação poderia ficar insustentável com os presos ao ter que incluir música clássica no programa. Mesmo assim não conseguiu convencer a religiosa, que, confiante, afirmava sobre o comportamento diferente daqueles meninos.
No dia da apresentação, enquanto aguardava na sala do capelão, próxima ao local onde tocaria, Mark se assustou ao espiar por uma porta lateral qual o tipo de show que rolava lá dentro. Era um grupo de hip-hop que divertia os detentos, inclusa na banda uma garota vestida de curtíssimo jens, com uma blusinha que revelava todo poder do seu umbigo naquele ambiente lotado de carências.
Assustou-se e passou a imaginar o que teria de enfrentar após o fim daquela sessão. Enquanto meditava não viu irmã Janet entrar. Imediatamente, ao ser tocado pela presença dela, tentou outra vez argumentar que não seria boa idéia, acrescentando ao sentimento a cena que acabara de presenciar. Recebeu da freira o incentivo traduzido pelo conselho que era preciso ter fé.
Quando o show acabou e Mark adentrou ao palco, estava tão nervoso que tropeçou no tablado. Evitou a queda porque usou o instrumento como um bastão de esqui, batendo com o espigão no tablado e rodopiando na direção da platéia em silêncio. Ato seguinte, ao se recompor, recebeu dos meninos uma sonora gargalhada geral seguida por intensos aplausos.
Depois de instalado, para tentar o domínio da audiência, começou a contar que quase tudo no violoncelo um dia tinha sido parte de um organismo vivo. A parte da cabeça era feita de abeto; a de trás com manchas tipo pêlo de tigre, de bordo; o braço, de ébano; o arco, de pau-cobra com cordas de rabo de cavalo; e que as peças de marfim vinham de um mamute preservado na tundra congelada por dezenas de milhares de anos. Quando alguém toca este instrumento, disse, é como se esses objetos fossem trazidos de volta à vida.
Falou aos garotos que a primeira peça que tocaria seria "O cisne", de Camille Saint-Saens, que sempre que executava o fazia lembrar da sua mãe. Surpreso com a qualidade acústica do lugar, Mark empolgou-se no início, mas certo burburinho vindo da platéia o fez novamente pensar que precisaria criar um fato novo. Quando olhou para a audiência e viu uma sala repleta de garotos com lágrimas caindo rosto abaixo, ele ganhou confiança e tocou o restante da peça como nunca conseguira em toda sua vida. Quando terminou, os aplausos foram efusivos. Confessa que foi o sonho de um violoncelista medíocre transformado em realidade.
Para próxima peça escolheu uma sarabanda de uma das suítes de Bach. Recebeu como prêmio nova saraivada de palmas. Logo em seguida ouviu um grito da platéia: "Toque de novo outra sobre mães." Mark entendeu imediatamente que fora sua menção materna que os havia atingido no âmago.
Voltou a tocar "O cisne", mais um tanto de Bach e "O cisne" pela terceira vez. Quando um homem de peruca, já visto quando chegara, lhe acenou lá da porta para dizer que seu tempo havia acabado, os internos o vaiaram. E brindaram Mark com um aplauso final concedido respeitosamente de pé.
Ao folhear uma revista antiga e ler esta história, no início da semana, considerei-a uma benção, pois na verdade achei este post. Diante do mar de sentimentos que nos aflora por ocasião da data que comemoraremos no próximo domingo, diante do conjunto sagrado de valores que representa a maternidade, nada mais preciso escrever. Quando se trata desta figura insubstituível em nossas vidas, o gesto de agradecê-la pelo que representa em nossa existência é maior que escrever o mais puro e belo poema ditado pelo coração.
Domingo abraçarei minha mãe. Como se minha mão fosse um arco afagarei seus cabelos como se estes fossem as cordas de um violoncelo. Quando beijar seu rosto será como ler uma partitura. E quando disser que a amo mais que tudo, soará como "O cisne". Serei um simbólico violoncelista medíocre, mas farei isto em singela homenagem a todos os meus amigos que sentenciados pelos desígnios foram privados da presença das suas mães. Certamente também haverá uma lágrima, mas senti-la rolar em meu rosto será a certeza da gota de consolo que minha solidariedade é capaz de transmitir.
Quando respondi à chamada na primeira aula de Física no antigo curso Científico (equivalente ao 2º ano do atual segundo grau), em 1970, tive certeza que aquele cidadão alto, magro, calvo, bigodudo e de grossas lentes esverdeadas merecia respeito. Meu avô paterno conhecia bem Dr. Nilo Lázaro Abud, engenheiro de formação e membro de família de comerciantes também envolvida na política. Já havia me dito que era um cidadão inteligente, espirituoso e exigente.
Éramos garotos em época conturbada, sofrendo influências diretas e indiretas dos costumes da ditadura, cujos seis anos já tinham sido suficientes para mudar o nível de exigência e controle exercido pelas instituições mais próximas, como a família e a escola. Por conseqüência, vivíamos a rebeldia em pleno auge.
Dr. Nilo tinha postura militar, embora a ideologia provinda da militância "emedebista" fosse conhecida. Durante dois anos em que fiquei submetido às suas aulas não descobri como era seu sorriso, não o vi conversar com ninguém em tom menos sério e tampouco lembro de alguém despreocupado na classe às vésperas dos dias de provas bimestrais. As aulas mais pareciam a representação de um monólogo escrito por gente difícil de ser entendida, como Einstein, Newton e Maxwell, diante de uma platéia tomada pelo silêncio absoluto.
Aquele homem era inatingível, não passível de questionamentos. Olhava-nos com desconfiança e superioridade por detrás daquelas lentes encarregadas de omitir o conhecimento coletivo da sua alma. Sim, pois é pelos olhos que se consegue penetrar nos recônditos de um ser humano. Assim, foi um personagem distante até completarmos o segundo grau.
No ano em que nos formamos a Lei 5692 já havia mudado o aparato educacional. Dali em diante o magistério, mesmo em caráter suplementar, só poderia ser exercido por profissionais titulados para o mister.
Qual foi a surpresa quando fiz a matrícula no curso de Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras? Eu e outros da turminha do Científico seríamos colegas de turma do Dr. Nilo Abud, naquele tempo acolhido sem prestação de exame vestibular por já ter título superior em área compatível.
A primeira vontade foi mudar de curso, nem que a decisão custasse ficar um ano sem estudar e me preparando para outro vestibular. Se assim tivesse resolvido teria perdido a chance única de convivência por longos anos com uma das pessoas mais interessantes que conheci na vida.
Como colega o agora "professor" Nilo nos proporcionava momentos mágicos de troca de conhecimentos, experiência acadêmica, puro sarcasmo e convivência excelente. Servia-se do nosso saber em disciplinas que compunham o ciclo básico, matérias comuns a todos os cursos da área e lecionadas durante o primeiro semestre. Exigia tratamento equânime dos mestres que já o conheciam de longa data, não faltava às obrigações das presenças nas aulas, inclusive aos sábados, e nos aconselhava nos momentos de "fervos" do Diretório Acadêmico.
Além de tudo era a ponte com a direção da Faculdade, o porta-voz das nossas reivindicações.
Ás vezes desabilitava os óculos para dar a esperada oportunidade de conhecermos os segredos do verdadeiro olhar. Era, no fundo, uma pessoa doce, boníssima e principalmente humilde. Descobrir o íntimo da sua personalidade foi como assistir a queda antecipada do muro de Berlim. Ou, para ser mais coerente com aquele nosso tempo, antecipar a Anistia.
Graças a tal episódio no ensino do Brasil, o doutor Nilo Abud deve ter vivido os melhores anos da sua vida, pois era normal sentí-lo como um jovem igual a nós, participando intensamente dos momentos e aspectos da vida acadêmica. Mesmo extravasando com sua excepcional espiritualidade em ocasiões não formais manteve-se como referência.
A comissão de formatura, em 1974, o escolheu como orador do curso. No dia da cerimônia encerrou o discurso com um pensamento exemplar que todos os demais colegas certamente guardaram. Embora minha inaptidão para repetir com literalidade suas palavras, o sentido ficou absorvido.
Foi algo como "somente a convivência em condições de igualdade proporciona o entendimento das nossas fraquezas e do potencial coletivo. Hoje somos professores, mas continuemos alunos da vida comprometidos em alcançar o certificado maior, qual seja o atingimento pleno da potencialidade cidadã. Para tanto, estejamos convencidos da nossa responsabilidade como arquitetos de um novo tempo, capazes de projetar a felicidade dos filhos desta terra com uso daquilo que aprendermos a fazer através da sagrada missão de ensinar".
A partir daquela noite festiva o Doutor Nilo, hoje de saudosa memória, definitivamente mudou seu título para Professor Nilo Lázaro Abud.
Nas muitas vezes em que o encontrei depois da formatura ele retirava os óculos e estendia um sorriso, para fraternalmente perguntar sobre mim e minha família, contar uma bela piada, relembrar passagens pitorescas, oferecer um abraço carinhoso e seguir. Fazia isto com todos.
O que me levou a contar esta história foi a vontade de dividir uma velha descoberta, a certeza que podemos aprender as teorias com os mestres, mas a prática tem o caráter salutar de ser melhor absorvida com a ajuda das grandes amizades.
robô no evento "Streetwise Robots" em Londres, no Reino Unido
Foto: Andy Rain/EFE
Portal UOL
Nesta versão pós-moderna do paraíso não pode haver condenação do caráter evolutivo da ciência. O pecado ultrajante, não menos original, agora pode estar no subterfúgio do agrotóxico...
O domingo foi de decisões por todo o Brasil. No Rio, um jogaço deu o bi-campeonato ao Flamengo diante do Botafogo. E como se fosse um replay da primeira partida, Obina foi o herói. O Fla perdia por 1 x 0, resultado que levava a decisão para os penais. Ele entrou e decidiu, marcando dois belos gols. Um iluminado. Parabéns Fernando Cals.
Em São Paulo o Palmeiras moeu a Ponte por 5x0 e quebrou um jejum de 12 anos sem ser campeão paulista. Valdívia fez um gol antológico. Comemoremos Valter Ferraz.
Em Porto Alegre o Inter passou da conta. Humilhou o Juventude com direito até a gol de goleiro batendo penalti para selar a contagem incrível. 8 x 1 não é para qualquer um e nem a qualquer hora. Milton Ribeiro deve estar nojento!
Na Bahia o Vitória ganhou no saldo de gols (um golzinho só!), em um campeonato onde quatro tinham chances na última rodada.
E aqui em Curitiba deu COXA. Mesmo perdendo por 2 x 1 para o Atlético Paranaense, na Arena da Baixada (casa do adversário), o glorioso alviverde do Paraná, o mais querido, o eterno campeão, confirmou a nossa mais nova divertida mania: fazer festa no "meio-estádio". Repetimos 2004. A nota triste deste jogo foi novamente a figura do Sr. Petraglia, presidente do "patético paranaense". Este senhor, para que saibam todos, é um resto que ainda sobrevive das idéias e comportamentos repugnantes dos anos de chumbo da ditadura no Brasil. Em afronta ao que determinou a Federação Paranaense de Futebol, ao intervir quanto à sua "determinação" de proibir a comemoração do título no Estádio, inclusive para receber o troféu e medalhas, manteve a "ordenança" e proporcionou um dos gestos mais antidesportivos do ano. [leia aqui a menção de Juca Kfouri ao assunto, em "Não há limites para o ridículo"]
O Coxa abriu o Estádio Couto Pereira, chegou lá em carros dos Bombeiros depois de carreata vitoriosa pela cidade, e recebeu o troféu aclamado por sua torcida que compareceu em peso, como se fosse um novo jogo. Coisa linda.
No fundo Petraglia já sabia que seu time era incompetente para reverter o resultado da partida anterior, quando tinha levado 2x0 no Alto da Glória. Que receba dos seus "Fanáticos" o reconhecimento pelo vice-campeonato. Para segundo lugar não interessa troféu.
Ah, o gol Coxa foi marcado por Henrique Dias. Como Obina, no Fla x Bota, ele entrou no segundo tempo e, da mesma forma que tinha feito em Recife, ao final da Série B no ano passado, marcou o gol salvador que "calou" os falacianos do "patético" rubro-negro de Petraglia. Parabéns à nação Coxa.
Dedicado a Fernando Cals, um flamenguista que respeito.
Há no futebol certas expressões clássicas que têm sua origem no popularesco da várzea. Antes de mais nada é preciso esclarecer aos menos chegados ao rude esporte bretão, que a várzea, justo pelas dificuldades do campo de jogo, é o palco propício ao nascimento de jogadas incrivelmente cômicas. A criatividade dos artistas da bola, ao evitar obstáculos naturais ou não, levou algumas dessas jogadas ao campo normal do futebol, inserindo seu desenho definitivamente não com sua característica primária de um "rascunho", mas como obra acabada e da mais consagrada habilidade.
Foi o que aconteceu com o drible da vaca. Na Copa de 1970, no México, Pelé executou sua mais nobre versão. O Brasil jogava contra o Uruguai na partida semifinal. Ao receber uma bola levantada do centro para a grande área, com a bola quase passando às suas costas, ele dá uma gingada de corpo – e com requinte extra, pois não toca na pelota -, desvia a saída do goleiro Mazurkievicz e alcança a bola mais à frente, para dar o chute cruzado a gol e que a todos parecia certeiro.
Se os deuses do futebol castigam seus anjos, naquele dia e jogada Pelé pagou uma grande dívida. Para os mortais que lotavam o Estádio Jalisco, em Guadalajara e outros milhões de espectadores no mundo inteiro, desenhou-se para sempre, ali, uma das mais admiradas obras-primas do futebol. Mesmo que seu final tenha sido a bola passeando defronte a trave direita do uruguaio, para ganhar sorrateiramente a linha de fundo, como se desviasse do destino ao se distrair lembrando e sorrindo da última vaca do seu verdadeiro "cunhador", lá na várzea fluminense.
O que muita gente não sabe é que aquela pintura de jogada, que se costumou chamar de "drible da vaca", tinha a essência da molecagem dos pés de Garrincha nos tempos da várzea.
Quando era menino foi useiro e vezeiro em driblar vacas de Pau Grande. Espere, não é nada disso que você está pensando. Acontece que Garrincha jogava futebol nas fazendas da sua terra natal, a cidade de Pau Grande, no Rio de Janeiro. No meio da pelada, quando menos se esperava, uma vaca atravessava o terreno. Nosso inesquecível Manoel dos Santos jogava a bola por um lado e saia correndo da vaca pelo outro.
Cada vez que vejo o Flamengo jogar uma decisão imagino Pelé com aquela camisa rubro-negra, afinal foi um sonho do Rei que vi se concretizar apenas uma vez em partida beneficente, se não falha a minha já desgastada memória. E domingo a decisão é contra o meu querido Botafogo, justo onde Garrincha se criou e escreveu tantas alegrias com seus dribles fantásticos e gols maravilhosos.
Dando um drible na ilusão, em decisões assim, ali, no Maracanã, é possível visualizar jogadas imaginárias protagonizadas por adversários inimagináveis. Justo de dois astros fabulosos que, juntos, independente das suas prevaricações na vida, antes, durante ou depois, jamais perderão, estes sim, seus implícitos e inatingíveis rótulos de "fenômenos".
Pena que na realidade que nos demove do hipnótico, jaz a inocência e o protótipo da perfeição é mero espectador.
[fim de jogo]
Ronaldo, mais uma vítima de si próprio
É difícil ter argumentos convincentes para negar que o ex-fenômeno Ronaldo Nazário não teve uma carreira brilhante. Ele foi um craque da bola, um atleta diferenciado. Apesar do fiasco de 1998, na França, por tudo aquilo que aconteceu às vésperas da final contra a seleção anfitriã, cuja verdade até hoje ainda carece de forças para romper o "efeito blindagem" que cobre o pacto do grupo, comissão técnica e CBF, apesar do outro momento ruim de 2006, na Alemanha, é inegável que ele foi fundamental em 2002 na Ásia. O penta tem sua assinatura em lugar destacado.
Ronaldo, porém, não conseguiu escapar da sina que acompanha algumas figuras futebolísticas que ascendem à condição de celebridade. É triste aceitar que se arrole alguém a quem tantos chamaram de "fenômeno" no mesmo time dos que vestiram a camisa do escândalo, provocado por atitudes impensadas e até se tornaram dignos de pena, a exemplo de Edmundo, Adrino Imperador e mais recentemente o centroavante Jardel.
As inconseqüências do temperamento e do caráter fazem hoje da noitada, sexo e drogas um roteiro perigoso para a carreira de atletas, principalmente no futebol. Fica cada vez mais difícil, isto porque o esporte se tornou referência na formação das nossas crianças, dissociar atitudes erradas desses ídolos do empenho da sociedade e governo para transformar a atividade esportiva em mecanismo de resgate social.
Infelizmente, embora tenhamos mais atletas dignos do que desastrados, a ampla exposição no mundo globalizado faz com que ele ocupe uma área muito maior de influência no contexto de formação exemplar. As mídias pouco espaço investem na divulgação de quem merece destaque por atitudes coerentes com o progresso educacional e cidadania.
Ele teve uma vida pessoal tumultuada tanto quanto sua trajetória profissional, onde as pancadas adversárias e o descuido com o físico lhe minaram a forma. Ostentação, casamentos mal sucedidos, envolvimentos negativos com pessoas interesseiras, mentiras e agora o pior que poderia acontecer: Ronaldo amanheceu pendurado na tampa da lata de lixo.
Flamenguista assumido, na noite de domingo saiu para comemorar a vitória do time e acabou se envolvendo com travestis numa boate no Rio de Janeiro e foi parar na delegacia.
Claro que é mais coerente acreditar na versão do jogador e certamente é a que prevalecerá, mas para alguém rodado pelo mundo inteiro, detentor de considerável experiência com mulheres, é inadmissível a desculpa de "ter confundido Cicciolina com Valdemar". Ninguém vai parar em um motel com três “machos” sem consentir a brincadeira. A Folha divulgou ontem que "ao sair da boate, Ronaldo contratou um travesti --André Luís Albertini--, acreditando que fosse uma mulher. Além de tudo sofreu tentativa de extorsão de uma terceira "menina de trombinha", que queria 50 mil reais para não ir à imprensa. Também foi acusado de mandar comprar drogas.
Talvez nem seja dinheiro o maior problema (cinqüentinha é gorjeta perto do que Ronaldo já gastou com extravagâncias), mas o que fica disso tudo, como pior lembrança, é o fato de alguém, que se fez pelas chances que teve na carreira, alcançou a glória de ser o maior artilheiro de todas as Copas - um feito que nem o melhor do mundo conseguiu -, não ter encontrado a serenidade para preservar o caráter e assim “esquecer a técnica da vida” para ser atropelado pela “pior pancada do zagueiro destino” e começar a cair na vala comum. Esta contusão não há cirurgia que cure.
Nos destaques da imprensa internacional estão todos os ingredientes chulos que o caso envolve:
- CORRIERE DELLA SERA "Ronaldo ricattato dopo notte con viados"
- LA REPUBBLICA "Ronaldo, scandalo a luci rosse
Ricattato da tre viados a Rio"
- EL PAIS "El lío sexual de Ronaldo"
- AS (Esportivo)
"Frustrada noche de sexo de Ronaldo con tres travestis"
E por aqui, na rede, as pegações bem ao jeitinho brasileiro:
Poucos conseguem escrever bons textos humorísticos. Até porque o estilo exige aptidões específicas, tal qual a habilidade de desenhar os fatos do cotidiano com requintados traços caricatos.
Quando à comicidade empregada se associam outros elementos da natureza do autor, parece conter um toque de Midas. O regionalismo é um desses elementos. Ao prover a narração do fato com um sotaque característico, aplicando ao texto certas terminologias zombeteiras, capazes de mostrar a alma dos personagens, o autor nos transporta mais rapidamente para dentro de uma cena, sejam aquelas figuras dramáticas reais, conhecidas ou não, ou mesmo criaturas quase materializadas pela criatividade na ficção.
Outro dom é fazer de si próprio o personagem principal. Uma narrativa em primeira pessoa abre-nos a oportunidade de conhecer os dotes da arte de representar. Fica visível a força do lado ator de quem escreve.
Jens, o gaúcho da toca, tem essa veia cômica. Parodiando Kledir Ramil, da dupla Kleiton e Kledir, com a devida licença, se é que é preciso, para usar verbetes da gramática da LPG (Língua Popular Gaúcha), e ainda por cima cometer um pleonasmo pampeiro, diria que ele é um "bagual fora do comum" (em sentido figurado é tudo a mesma coisa).
"No local havia um cinturão de segurança formado pelos homens da mui leal e valorosa Brigada Militar, que impedia o acesso da malta ignara ao templo do Senhor. Apesar dos meus argumentos (“Porra, sou camarada do Lula”, “Conheço a Dilma desde criança”) os ciosos homens da lei barraram o meu acesso. Dominado por um turbilhão de emoções contraditórias (olhos marejados e boca espumando de raiva), vi de longe a passagem dos convidados, entre os quais nove governadores (“Ô Requião, olha eu aqui!“) e nove senadores. Até o Sarney estava lá (“Abaixo a Nova República”, vociferei para o prócer maranhense, lembrando os bons tempos). A ministra Dilma não ouviu os meus berros (“Ô, sua sacana, e eu?!”). O mesmo aconteceu com o presidente Lula (“Esqueceu dos velhos companheiros, seu porra?!”). Senti uma faísca de reconhecimento no olhar terno da primeira-dama Marisa quando uivei como um cão abandonado (“Ajude-me!”). Os seguranças, porém, não permitiram a aproximação redentora.
[...]
Ah sim, parcelei o aluguel do terno (100 pilas, incluindo sapatos e meias) em duas vezes. A primeira parcela vence na segunda-feira. Mandei a conta pra Dilma pagar. Com o cartão corporativo, é claro. (Depois vou telefonar pro Arthur Virgílio, só de sacanagem. Eu sou mau)."
Os trechos acima fazem parte do seu post "Boda", publicado em 24.04.08, onde nos provoca um turbilhão de risos ao contar da esperança em receber um convite para participar do casamento da filha da ministra Dilma, em Porto Alegre. Jens usa a "intimidade" com os convivas do "Festerê no Leopoldina Juvenil, clube chic da city" para divertir com magníficas firulas depois de nos fazer torcer pela chegada do carteiro. Seu mecanismo de inteligência produz um chiste a partir do evento social onde deste não se dissocia a realidade política, por força da ligação da nubente com os figurões da república. Jens torna o humor ainda mais interessante por ser produzido por um admirador do partido que detém o poder.
Vale a pena ler e desopilar no riso. É um texto ao nível dos melhores humoristas do patropi.
Parabéns Jens. Tens agora, bagual, com meu especial aplauso, um merecido "Post de Ouro".