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Quinta-feira, Março 30, 2006

[comédia brasileira]
A DANÇA ENFATUADA DO DESCARO


Desnecessário evocar o teatro cômico de Aristófanes, resultante de suas obras escritas até o século IV a.C e a Dança Macabra, alegoria do século XIV, na qual se representava a morte arrastando consigo pessoas de todas as idades e condições, para que se tente definir a afetação da virtude da alegria no comportamento cínico da impostada parlamentar.

Igualmente, não cabe, mesmo que no sentido restritivo, apesar da presença do enredo gestual, do movimento corporal e da pantomima, chamar o ato espúrio de bailado, ainda que qualificado pelos mais execráveis adjetivos.

O cenário um pouco se aproxima de "Baile Nacional", nas cores tupiniquins, embora, sem qualquer aversão, conceitualmente derivado dos costumes popularescos cabo-verdianos contados por Teobaldo Virgínio, em Arquipélago, nº. 19, pág.15 ["Nhô Roberto passa a alugar a sala grande para os bailes nacionais. De pretos e brancos, ricos e pobres."].

No banzé que se transformaram as CPIs, Conselho de Ética e por que não dizer o próprio parlamento brasileiro - já que aquelas são apêndices deste -, a conduta hostil e arrasadora do decoro da deputada Angela Moraes Guadagnin é, principalmente, um caso exemplar a mais para ser catalogado pela Psicologia, em seu importante capítulo da agressividade como disposição geradora do desencadeamento de condutas destrutivas, fixadas e alimentadas pelo acúmulo de experiências frustrantes.

Na prática, um escândalo que perturba a sensibilidade agredida pelo inteiro desprezo ao convencionalismo exigível no uso da ética parlamentar. O comportamento que produz indignação coletiva (até mesmo em alguns "companheiros" do barco podre), provocando a desordem e o escarcéu, culminando para um sucessivo ato de arrogância de caráter ao tentar se justificar com empáfia no púlpito do plenário, configura a necessidade de enquadramento.

A Deputada cometeu escárnio suficiente para que seja considerada ímpia, erro apto da heresia ["-- Herética! Ímpia! Vá à igreja benzer-se. O diabo vive no seu corpo." - Geraldo França de Lima, Branca Bela, p. 53.]. Se nem leva em conta o "culto externo" do anseio popular e prevarica por interesse ou má fé aos deveres do seu cargo, expõe-se como sócia da corruptela e por tal culpa deve ser ao menos investigada. E para tanto, afastada da sua lida.

Se o indecoro provoca mal estar coletivo por sua clara justaposição ao conceito de agressividade e desrespeito patriótico, sendo acima de tudo atitude considerada como falta de pejo, punível pelos regulamentos da Casa, é preciso elevar a potência da análise da repercussão e considerar, da mesma forma leviana, qualquer falta de autoridade que demande a permanência do estado de impunidade.

"Assim caminha a humanidade". O ato da deputada é discriminado e tem reconhecida embófia, tem o rótulo grotesco e licencioso da "baixa comédia" grega, a cara-seca da sua personagem maior para dizer "que ninguém vai afastá-la da Comissão de Ética (pasmem!)" e a obesa leviandade (que deve crescer com o saboreio de novas fatias da pizza), mas nenhuma providência radical é anunciada ao eleitorado.

Vermes mandantes. Troça ignóbil. Governo inútil. Podres poderes!

Por dança muito menos agressiva o padre amigo dos orixás foi proibido de usar suas batinas alternativas. Virou a escrever livros.

O parlamento precisa se converter. E o eleitorado acordar.



[+] - Leia a coluna de Silvio Alvarez, no bonde.com.br

Por Ery Roberto Corrêa | 6:54 PM - Link deste post


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Quarta-feira, Março 29, 2006

[mal traçadas linhas]
BEIJO E FLOR



"Bird" - Foto de Leslie Cohelan

Bendita beleza vestida de cor
Ganha louvação do flutuar.
A seiva sustento, se for pagar,
Custa apenas um ato beija-flor.

A louvada seiva da beleza
Apela ao flutuar bendito.
O beijo, plena delicadeza,
É preço do sustento rito.

Na úmida flor há evidência
De desafio ao pássaro pequeno:
O rito do sustento pleno
Depende da bendita obediência.

Beija-flor beija a flor!
Louvada seja a criação!
Pequenos gestos de amor
Constroem a maior lição.



pesar de todos os desmandos das autoridades e do crescente desinteresse dos cidadãos em preservar a natureza e os bons costumes que fazem do convívio humano uma racionalidade, Curitiba continua uma das cidades mais cultuadas do mundo. Aqui ainda é possível admirar e usufruir do verdejante dos parques, do ar (por ora) respirável, do céu azul que faz orar e das belezas incontáveis que fazem a natureza permanecer eternamente em festa. O frio é apenas uma estação. Não é fria a linguagem nem o convívio.

Hoje esta cidade comemora 313 anos. Escrever sobre a flor, "uma beleza vestida de cor" e o pequeno pássaro, o "beija-flor", é uma homenagem a esta querida terra que ao me acolher, em 1978, como um dos seus filhos, também me ensinou a amá-la incondicionalmente.

A poesia não teria sentido se não lembrasse de evocar um ilustre conterrâneo: Tatára. Ele escreveu para que se cante, "Que Curitiba seja a grife do planeta Terra..."

Por Ery Roberto Corrêa | 7:18 PM - Link deste post


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