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Sexta-feira, Abril 28, 2006
[a prova do crime]
DEPOIS DA FILA, UM "SERVIÇO QUASE PERFEITO"
Dias atrás, logo depois da Páscoa, o governo fez duas declarações bombásticas que foram amplamente retratadas pela imprensa e que renderam posts em vários blogs (aqui, por exemplo, no post de 21.04).
Uma delas dava conta que o Serviço de Saúde no Brasil "é quase perfeito" (!). A outra, mais bombástica ainda, por se tratar de quem disse, foi que "a fila do SUS é um problema cultural dos usuários" (?). Evitei escrever sobre as duas - ando meio cansado disso tudo -, limitando-me a comentar o que li por aí.
Depois de um registro indignado que deixei lá no Observador, tomei coragem e ontem resolvi "vestir a pele do lobo" (isto lembra Goulart de Andrade, Comando da Madrugada - estou ficando velho!). Fui a um Posto de Saúde. Precisava mesmo de uma consulta oftalmológica. Ainda bem que era só uma troca de lentes, pior se fosse... ora, deixa prá lá. Vejam o que consegui. Agora eu tenho um "comprovante oficial" da minha "cultura de fila". Ainda não decidi, mas penso em fazer duas cópias e mandar pelos Correios. Uma para o "quase perfeito" e a outra para o "douto honoris causa da fila".
Deu vontade de ir já para a porta do colégio onde voto. Abrir a bicha, acampar, guardar a minha vez! Afinal, alguém tem que se preocupar com a manutenção da "cultura".
[A UMS Ouvidor Pardinho é um Serviço da Secretaria Municipal de Saúde que atende em convênio com o SUS e é tida como unidade modelo de atendimento específico ao idoso.
DETALHE: A "cultura da fila" está tão consolidada pelo serviço, que o documento do usuário chama-se "COMPROVANTE DE INCLUSÃO EM FILA DE ESPERA".]
Peço desculpas aos leitores, em especial aos que já haviam comentado (Mônica, Lua Radiante e João) porque alterei o texto original deste post. Foi uma questão de auto-censura. A imagem que utilizei estava inserida no contexto e poderia ser tomada como agressiva contra os recursos humanos que militam na área de atendimento da Saúde.
Diga-se, por oportuno, que estes servidores, apesar de todas as dificuldades e carências que acomete o setor, demonstram denodado esforço e profissionalismo em todos os segmentos do atendimento, desde recepcionistas até médicos, apesar de terem salários indignos. O que revolta é o fato do governo não enxergar a necessidade prioritária de investimentos na estrutura material e no aumento da mão-de-obra, tornando-a melhor compatível com a demanda cada vez maior. Parece que a preocupação principal de um é, como sempre, eleitoreira e, de outro, a transferência da culpa ao usuário numa péssima demonstração de capacidade de comando e caráter. |
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Por Ery Roberto |
4:42 PM
Quarta-feira, Abril 26, 2006
[macro fotografia]
PEQUENO TRATADO SOBRE A CÓPULA
Imagem: Regina Santana
Cópula.
[Do lat. copula.]
S. f.
União, ligação. O ato sexual; coito [Sin. (pouco usado), nessas acepções: copulação.] - Dicionário Aurélio Século XXI (Lexikon Informática Ltda).
 deveras interessante o estudo etimológico da cópula, a nossa tão popular "trepada". Não se assustem com este popularesco, porque afinal de contas se é popular é agradável ao povo, tem as simpatias dele. Ouso dizer, é esta simpatia a alimentadora do imaginário, decorrendo daí uma ampliação de sentidos que pode ir do irônico ao fantástico. Não confundir com o programa televisivo (aliás, programa já passou a ser usado para nominar as garotas que copulam por dinheiro. Depois abandonam a prática e viram best-seller), mas fantástico como aquilo que pode ser incrível, extraordinário, prodigioso.
Esse latim é profundo! A maior parte das derivações etimológicas deste vocábulo mesmo em terreno de significação diversa, tem muito, ou tudo a ver, com o sentido original. Eis alguns exemplos.
Em Música quer dizer o "registro de órgão que une um teclado com outro ou os teclados manuais com a pedaleira". O imaginário já seria capaz de deduzir que a parte final da definição pode ter dado origem para a suruba. E tudo de forma harmônica, já que música foi o que não faltou.
Em Estudos de Linguagem, copular é verbo que liga o atributo ao sujeito. Se eu soubesse disto bem antes, teria processado minha professora de português. Com que autoridade ela me fez permanecer no erro durante tanto tempo? Criei um conceito novo. Mesmo justificando que hoje em dia há quem use "objetos indiretos" para a prática, gramaticalmente, se subentendido, não deveria haver objetos para o "copular", já que, se é verbo que liga nessas condições, o correto seria atribuir um predicativo. A danada me ensinou somente sobre "ser, estar, parecer, permanecer, ficar" como sendo verbos de ligação. A propósito, naquela época não havia esse tal "ficar"; a gente namorava e em seguida pedia em casamento. E mais, nós teríamos feito mais piadas sobre essa coisa de predicados para uma boa trepada. É ou não é?
Em Lógica cópula leva ao verbo "ser" enquanto exprimir a relação entre predicado e sujeito. Viram? Já tem uma "relação". E embora seja entre um sujeito e outro que não é sujeito, não custa derivar para um estudo mais detalhado do que possa ser predicado além de sua significação literal, pois a coisa é ampla. Pode ser "virtude", já vira feminino! Quem não gosta das virtudes femininas? Como elemento da oração que declara algo sobre outro, que no caso é o sujeito, tem até uma historinha interessante. "A terminologia tem origem na identificação da oração com uma proposição que veio a substituir, ainda na Idade Média, a tradicional denominação de aposto". Pronto, aposto: "posto sobre". Uma dedução que nem precisa de tanto imaginário. Certo?
Eu fui um bom aluno de lógica no curso de Matemática. Gostei muito! Depois que aprendi que "não não" significa dizer "sim" eu só respondia desta forma a qualquer insinuação das garotas do curso Normal que funcionava ao lado. Creiam, dava a lógica, "pimba"! Elas ainda não entendiam dessa matéria acadêmica e pensavam que a gente fazia cu doce, e daí, investiam na insistência.
Interessante é que foi na Literatura que o verbo copular passou a ficar mais ligado com a fantasia (a sexual, óbvio!). E sabem por culpa de quem? Chico Buarque. Sim, logo ele foi dar essa idéia em "Fazenda Modelo" com "Um touro vivia copulando à vista de todos, ao ar livre". Como a maioria do que vem do Chico vira logo unanimidade, imaginem o que pode ter passado nessas cabeças que vivem nonstop a serviço do imaginário.
Se a gente quisesse iria longe. Apesar de que após os cinqüenta, dependendo da vida pregressa, o motorzinho do caminhão de muita gente já não é mais assim tão "touro". E certas "garagens" já estão sem telhado, sem pintura e principalmente sem morro. Caramba! Acabamos em looping, olha aí:"dá samba". Barracão de zinco!
Desculpem-me pela brincadeira e ousadia todas, mas eu só escrevi esta sacanagem para dizer ao final que a imagem da Regina Santana é simplesmente "fabulosa". Tenho profunda admiração por fotógrafos de macro, pois em certas situações é necessária a virtude da paciência, considerada a grande dificuldade de acesso visual a um sem número de cenas.
A macro fotografia nos dá oportunidade de contato com um mundo encantado, onde cores e formas não obedecem às regras do nosso mundo gigante. Também nos ajuda a compreender que embora no mundo do minúsculo tudo seja diferente, certos comportamentos não fogem aos padrões do universo. É como canta Ed Motta, com aquela baita "autoridade" de voz: "Tudo bem simples / tudo natural..." Dedico este post a dois mestres queridos: Profa. Thereza Regina de Camargo Vianna Mansur (Português) e Prof. Rui Repka Prado (Fotografia e Vídeo), pela paciência e como reconhecimento do quanto as pessoas se tornam inesquecíveis quando verdadeiramente nos ensinam.
- [26.Abr.2006 - 23:00 h] - O BloggerMan devia estar em férias, desde 28 de março. Voltou hoje e parece que o descanso lhe fez muito bem em termos de "critérios". Está lá no "BLOGS OF NOTE" o meu amigo Jayme Serva, com o seu imperdível Dito Assim Parece À Toa.
Por Ery Roberto |
7:25 PM
Segunda-feira, Abril 24, 2006
[mal traçadas linhas]
 Imagem original: Guilherme Sanches - www.olhares.com
Amar é publicar-me em teus olhos
Para que leiam íntimos dizeres,
Verso nobre que em distinto rumo
Seja palíndromo, mesmo não sendo.
Amar é ter saudade do teu cheiro
Ainda de corpo ressumado, ócio
Do pobre roxo coração arfante,
Que, terno, suplica à nova rima.
Amar é ao querer mais que querer bem,
Virar compositor da nossa canção:
Que faça vista coisa intangível,
Sem precisar que um diverso beijo
Conceba o abstrato que só se vê
No outro verso lido em teu olhar.
Escrevi enquanto ouvia "Amar é..." (Cleberson Horsth - Ricardo Feghali) na versão do CD Roupa Nova Acústico. Nesta música há versos lindos como: ""Amar é quando não dá mais pra disfarçar / Tudo muda de valor / Tudo faz lembrar você / ... / Suspirar sem perceber / Respirar o ar que é você / Acordar sorrindo / Ter o dia todo pra te ver / ... / Amar é envelhecer querendo te abraçar / Dedilhar num violão / A canção pra te ninar"
[AMAR É...] Ery Roberto Corrêa - Abr2006
Por Ery Roberto |
12:45 AM
Quinta-feira, Abril 20, 2006
[música]
COMO NÃO GOSTAR DE UM CARA ASSIM?
Tom Zé (1936) está próximo de completar 70 anos (11 de outubro). Havia pensado em escrever sobre isto em data mais próxima, mas há um desafio particular quando se trata deste magnífico artista brasileiro: a história de Tom não cabe em um post, tamanha sua significação, conteúdo emotivo e notavelmente pelo mérito de uma carreira que, depois de trafegar por preconceitos, para ser reconhecida no Brasil precisou da interferência do americano David Byrne, à época ainda líder dos Talking Heads.
Assim, seja agora ou depois, não importa. Tom Zé merece que se fale dele e da sua obra a qualquer tempo, mesmo que pela limitação já mencionada tenha que se resumir os fatos da lida deste grande sujeito.
Do princípio da vida, passagens magníficas são pinçadas em qualquer biografia que se preze. Exemplos como: ser um menino pobre que nasceu com asma em Irará - interior do interior da Bahia, onde não havia luz elétrica e tudo que se aprendia não estava nos livros; descobrir, aos seis anos, que ele e mais quatro irmãos eram indesejados pelos pais; ver-se refletido na arte pela leitura de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, em substituição aos gibis, que na opinião dos tios, em Salvador, "estragavam a imaginação" e, em pouco tempo, por incentivo dos professores, ter se transformado de um aluno-problema em um CDF inveterado; e ter se entregado de corpo e alma à arte aos 17 anos, são marcas que de imediato compõe um singular referencial.
A tudo isto se soma sua personalidade. Tom sempre foi daquelas figuras, raras, que diz as coisas exatamente da forma como nasce em sua cabeça superdotada. Imagino-o como apresentador de um cristal em sua forma mais bruta tendo a certeza absoluta que disto se trata, quando muitos reconheceriam apenas e somente depois da total lapidação.
Para conhecer Tom Zé é preciso mergulhar um tanto na sua história de vida e em situações da carreira, as mais contundentes ocorridas em momentos de exceção do regime político que, diga-se de passagem, lembramos como das fases mais férteis da MPB. Naquela época, a luta pela liberdade de expressão, em admirável contra-senso, fez surgir os nossos maiores ídolos, justo por plantarem um jardim cujos espécimes, tratados como raridade, produziram as sementes das mais variadas manifestações e vertentes que abriram os olhos do mundo para nossa arte musical.
Neste cenário estava Tom, cuja primeira música um dia foi proibida pelo padre de Irará.
Seu caratér persuasivo de linguagem o fez inventivo, observador, criador. Para cantar na TV, em Salvador (1959), em duas semanas costurou a música a partir das manchetes de três jornais que espalhou no chão do quarto. Deu em "Rampa para o Fracasso". Munido de recortes nos bolsos e os "troncos de assunto" dos Homens da Mala, Tom Zé manteve todos atentos durante seis minutos de cantiga. Levou nota máxima do júri, que o elegeu "personalidade" e "criatividade". A idéia funcionava, estava na razão!
Conviveu com Caetano, Gil, Edu Lobo, Milton, o poeta Capinam, Gal, de quem foi namorado, Rita Lee e outros grandes. Pertenceu ao ambiente de excelência artística da Universidade Federal da Bahia, acampou no Sindicato dos Bancários motivando uma greve com suas canções. Foi um dos "tropicalistas", seu primeiro disco foi produção do pai de Cazuza e no meio do AI-5 fazia o show "Som Livre de Tom Zé e Gal Costa".
Foi preso por hospedar em casa um italiano contrabandista, sem saber.
No teatro, Augusto Boal achava alguns trechos biográficos sem ligação e chamava Tom. Ele dizia "ei, acho que lembro de uma cantiga de roda que encaixa bem aí, vou procurar" - e ia para seu quarto de hotel compor a peça "folclórica". Apresentava no dia seguinte e deixava todos satisfeitos. Já tinha, afinal, dez anos de prática em compor "casualmente".
"São São Paulo", música que lhe deu o primeiro prêmio no Festival da Record de 1968, passou a símbolo de episódio um tanto preconceituoso. Foi criticado por Edu Lobo que achava que a música de Milton Nascimento era música para "todo o mundo" e a de Tom Zé "apenas para São Paulo". Vale a pena ver seu desabafo neste vídeo. [*]
Quando a repressão avançava para o período mais negro Tom Zé fez o impensável: colocou um ânus tapado por uma bola de gude na capa de "Todos os Olhos", seu quarto disco. Por incrível que pareça, em princípio ninguém percebeu. O experimentalismo sonoro se radicalizava e as músicas passaram a seguir em caminhos imprevisíveis. Não por acaso, este foi um disco que Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção ouviram até furar. Também foi uma afirmação de postura: enquanto Caetano lançava "Épico", em seu disco Araçá Azul, Tom Zé na sua irreverência mandava "Complexo de Épico", com os corajosos versos: "Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada, esta preocupação de falar tão sério, parecer tão sério?"
Segue-se um longo período de obscuridade, verdadeiro ostracismo.
No melancólico show que fazia em 1989 no Sindicato dos Bancários da Praia Grande, um cenário onde ninguém lhe dava atenção, todo mundo querendo forró, crianças correndo, Tom voltou para casa disposto a abandonar tudo e retornar para Irará trabalhar num posto de gasolina de um primo. Mal sabia que em outro plano estava sua mulher Neusa lendo no jornal uma entrevista de Matinas Suzuki Jr. com David Byrne, em que o jornalista cita brevemente ter visto em cima da mesa um papel escrito "no Brasil, procurar Tom Zé". Este ligou para Caetano Veloso, que disse "não, deve ser o Tuzé de Abreu, que é amigo dele". Desânimo, pareceu o fim do sonho. Essa controvertida má vontade gerou, depois de confirmado o interesse de Byrne, algumas declarações não muito zens na imprensa. Mas enquanto não teve o contato definitivo, Tom Zé batizou seu Chevette 82 de "Espera Byrne".
No capítulo mais importante, após o encontro com Byrne, que o fez cantar lá fora e a Europa e os EUA se curvaram a "Mr. Zé", depois de tocar no Museu de Arte Moderna de Nova York, o Brasil ainda levou mais sete anos para reconhecer um dos seus mais honrados filhos. Extrema coincidência, mas a relação de Tom com o Brasil parece uma réplica daquele episódio de rejeição com seus pais. Felizmente, para quem ama a arte, a forma direta de expressão, a verdade nua e crua, para quem admira a luta através da humildade, a forma simples de se comunicar construída através da exímia inteligência, da criatividade e da brasilidade, o menino Toimzé, o homem Tom Zé, o corajoso cidadão Antônio José Santana Martins VENCEU.
Artisticamente ele é um símbolo de vanguarda, tem veia, faz experiências, criou instrumentos, é inquieto e se auto-estimula constantemente, sempre esteve "à frente do seu tempo". Meio Zé, meio Raul Seixas. Na vida, como poucos, sabe que a diferença une. É um ser humano consciente das suas limitações de saúde e cultiva o respeito a si próprio. Faz ioga, tai-chi, é vegetariano, acorda cedo, cuida do jardim. É paradoxo constante: um encontro com Kid Vinil, num farol, em São Paulo, foi seu grande lance de sorte para voltar a gravar, produzido por João Marcello Bôscoli; por outro lado, depois de ganhar um processo dos anos 80 contra uma revista que usou versos seus sem autorização, investiu na bolsa e perdeu tudo. "Ainda bem", disse para os jornais da época, "eu seria um rico medíocre".
Tom é desses que a morte vai ter que lhe enfrentar a unha. Nunca abandonou seus sonhos e, se ao surgir para o grande público na época da Tropicália era o patinho feio, ressurgiu sem mágoa de ninguém - embora motivos os tivesse - para nos reencantar como um mágico cisne. Sua trajetória artística contém uma proposição, axioma tal que insiste em nos desafiar a crer que "precisamos sempre que alguém de fora grite para percebermos nossos valores". Passamos da hora de uma bela reflexão neste sentido.
Setentão continua parecendo um moleque, receita que só pode estar na sua forma de ver o mundo, de ser um artesão incessante na criação do inusitado através do argumento essencial da palavra e da ilustração gestual, na recriação da realidade que não é vista pela maioria.
Ainda é tempo de reconhecê-lo, pois Tom é desses que quando pinta um quadro com sua prosa tão peculiar, ou com sua verve ferina nas letras das músicas, ou com sua expressão magistral de ator, "fica feito tatuagem na alma".
Sabem qual o melhor argumento para ouvir Tom Zé? "Nestes tempos em que tudo se parece com tudo e a intolerância e a banalidade são soberanas, provar que é possível ser diferente é tarefa nobre demais e que deve ser admirada".
Além do mais ele mostrou que qualquer ferida tem cura ou se convive, seja preconceito ou seja asma. Como não gostar de um cara assim?
 [+]
- Discografia
- Site Oficial
- Especial sobre Tom
[*] - caso tenha tido problemas para executar o vídeo, clique aqui e escolha o arquivo "Sobre o Festival da Record em 1968 (© Carla Gallo).
Por Ery Roberto |
9:09 PM
Terça-feira, Abril 18, 2006
[cotidiano]
PEQUENAS IDENTIFICAÇÕES
É quase impossível ler Rubem Braga sem sentir um mínimo de identificação com a essência das suas fabulosas crônicas. Hoje reli A Casa, escrita em maio de 1957.
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Outro dia eu estava folheando uma revista de arquitetura. Como são bonitas essas casas modernas; o risco é ousado e às vezes lindo, as salas são claras, parecem jardins com teto, o arquiteto faz escultura em cimento armado e a gente vive dentro da escultura e da paisagem.
Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.
O rapaz disse: "Vamos tirar esta parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? E esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre". E meu amigo tinha um ar feliz.
Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo.
Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão.
Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado em que eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer.
A mocidade pode viver nessas alegres barracas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! -- certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho.
Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil de minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor; onde eu, que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.
Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.
[A Casa - Rubem Braga, em "Ai de ti, Copacabana" - Círculo do Livro - São Paulo]
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Na minha concepção todas essas coisas que ilustram a vontade do cronista são gêneros de primeira necessidade. Elas retratam pertinências básicas do homem que convive com a solitude.
São as pessoas que se alimentam do silêncio as mais violentadas nestas moradias modernas. Chega um tempo que dá vontade de voltar para o meio do mato.
Como terminar de sonhar sendo abruptamente acordado pela algazarra de um bando de adolescentes marmanjos que passam pelo corredor carregando suas mochilas? Incrível como riem, como têm um fantástico humor matinal esses meio-homens, meio-marginais, que pela manhã se fantasiam de escolares, à tarde de executivos amadores com suas gravatas de office-boy e à noite pensam que, como um Drácula, podem se transformar num D. Juan de meia-tijela! São todos "adolescentes abandonados", daqueles que os pais lhes alugam um lugar na cidade, para supostamente estudarem, mas que na verdade é o preço que pagam pela sua (a deles, pais) tranqüilidade. Os outros que se fodam. Que reclamem ao síndico, e este - se puder - que resolva.
Como continuar dormindo, se mesmo antes do mais insone galo cantar o sujeito do apartamento de baixo já está batendo os pés, ao som de um repetitivo brega-pop-gospel (mais ou menos alguma coisa parecida com jovem "dupla sertaneja" cantando música evangélica), preparando-se para sua solitária missa pentecostal que termina perto das onze horas com altos brados de Aleluias, Glórias e Chuvas de Bênçãos Teremos...?! O "deus" do cara é surdo! E ele um fanático que teima em escapar do inferno infernizando a vida alheia.
Talvez eu não deva mesmo me curar da insônia. Quem sabe seja ela a única forma de me fazer sentir, por algumas horas, em meio a uma desejada fortaleza como a de Rubem?! Resta-me a madrugada para refletir, ler, escrever e pensar na vida. Mesmo que seja pensar baixinho nos meus ex-amores, naquele último livro de Saramago e na falta de uma cozinha que me permitisse praticar, uma que fosse, daquelas estripulias de Anthony Bourdain... [+]
Por Ery Roberto |
8:07 PM
Sábado, Abril 15, 2006
[semana santa]
DO FUNDO DO CORAÇÃO

Por Ery Roberto |
10:08 PM
Quarta-feira, Abril 12, 2006
[filhos x pais]
PARA QUE SE PROLONGUEM TEUS DIAS...
Imagem montada a partir das fotos:
Pedro Miguel Vagos Oliveira - "Cor Na Escuridão"
Ian Britton - "Paralelepípedos"
Senti vontade de escrever sobre este assunto não porque tenha objetivos de expor os personagens, diga-se de passagem, reais e a mim chegados, mas sim porque fui movido por grande emoção ao ler o post O que você vai ser, quando você crescer? da Carla, nossa Cacau, do blog No Limite da Razão.
Lá, ancorada na notícia de nova prisão da garota Suzane Richthofen, ré confessa de ter matado os pais, Carla abre seu coração para cunhar duas pérolas dignas de registro por terem o sabor do mais poderoso alimento: o amor.
Primeiro é preciso que se explique certa dificuldade, e isto o faço sem pudor dado à forma aberta com que ela às vezes menciona sobre seu relacionamento com o pai. Todos sabemos que para tratar de uma pessoa idosa é preciso paciência, compreensão e desvelo. Mesmo quando o histórico de convivência contém diferenças marcantes, que só a quem participa diretamente cabe atribuir juízo de valores, é emocionante ler uma confissão desta grandeza, ou seja, independente de qualquer necessidade e de todas as dificuldades por que passou e passa nessa co-existência, "jamais seria capaz de entregá-lo aos cuidados de outrem, de um asilo, por exemplo".
Depois, órfã de mãe, pessoa com a qual construiu maior identificação, ao exaltar sua capacidade de "ensiná-la" para a vida, me fez vazar em lágrimas ao dizer que seria capaz de trocar todo o tempo que lhe resta de vida por mais "um dia apenas" na companhia daquela que lhe foi a pessoa mais querida.
Sob o violento impacto do crime de Suzane, seu namorado e o irmão dele, mais o anestesiamento provocado pela onda de impunidade que assola este país, a sociedade talvez não tenha tido a real percepção do que representou a precoce libertação dessas pessoas. Na exegese do Direito Penal, juízes costumam amparar justificativas para a prisão preventiva exaltando-a como ato de garantias à normalidade do processo, considerado o grau do delito, bem como porque representa uma tranqüilidade para a continuação da convivência da sociedade, até porque a lei enxerga um implícito clamor da mesma no sentido de justiça. Neste episódio, havia ainda claro risco à vida de testemunha do feito, no caso seu irmão Andreas von Richthofen.
Voltando ao início. Convivo bem próximo de uma pessoa jovem, filho único de segundo casamento e orfão de mãe, que recentemente entregou seu pai, vítima de derrame pós-cirúrgico, à uma entidade que cuida de vítimas do gênero, mesmo este tendo, de forma amparada, condições de andar e assim poder tranqüilamente viver sob os cuidados de alguém dentro da sua própria casa. E lá, definitivamente o abandonou.
Mas é uma história que abdico de detalhar porque contém ingredientes ingratos e obsessivos, cultivados na pretensa horta do uso da liberdade em benefício das "paixões" e da "propriedade", ou, como queiram, os bens. O ato soa-me um rogo à morte do pai.
Para Suzane a justiça acaba de corrigir um grave erro que foi conceder-lhe a liberdade provisória, agora perdida no afã de tentar criar novos fatos com a colaboração dos seus defensores - aliás, este um capítulo que cabe a OAB imediatamente resolver - ao se extravasar em entrevistas concedidas à revistas e TV.
Não me cabe julgar se o papel da imprensa decorreu apenas do pleno exercício do jornalismo ou movido por intenções mercantilistas, sensacionalistas ou jogo de poder. A verdade, paradoxal ou não, é que o curativo estancou o sangue.
No caso do jovem amante da "liberdade" e da "despreocupação", igualmente sou desqualificado para prejulgar, mas ninguém me tira o direito de pensar que as conseqüências do ato que pratica, e que sufoca o coração dos demais familiares sem condições de arcar com o amparo requerido, virão pelo cumprimento das "bem-aventuranças".
Carla, esta sim, pela prova de amor e exemplo, merece todo aplauso e admiração. Porque são pessoas assim que nos dão a certeza que há um "infinito positivo".
Parabéns Cacau!
Por Ery Roberto |
4:48 PM
Segunda-feira, Abril 10, 2006
[coisas do brasil]
O DOTÔ DO FUGÃO
Tive até sábado um vizinho seminarista, mineiro de boa hora, um garoto politizado, gente fina que deixa muita saudade pelo comportamento e bom humor. Vai dar um ótimo padre. Seu relacionamento por aqui foi amplo, motivo pelo qual na hora da saída todo mundo veio ajudar na mudança.
Antes de embarcar, e após abraçar um a um, puxou da sacola um livro e, como para ilustrar todos os debates políticos que tivéramos enquanto aqui morou, pediu atenção para que lesse uma poesia de Jota Neris. Não resisti e lhe pedi o livro emprestado, mas diante da sua resposta que "será capaz de doar a batina mas jamais emprestar um livro em tais condições", me fez atrasá-lo para que pudesse ao menos copiar "O Dotô do Fugão".
Nóis vota na inleição
e dispois num sabe mais não
ne quem foi que nóis votô
alembro marromeno da cara do home
mais eu se isquici do nome
que tinha aquele dotô.
Tomem eles aparece
e dispois suverte no mundo
pariceno um vagabundo
fugino das puliça,
num é pro mode burrice
mais ansim fica difice
nóis dá corqué nutiça.
Isturdia eu fui na cidade
e vi na tá televisão
a cara dum cidadão
do mesmo jeitim daquele queu votei,
mais cum certeza foi eu se inganei,
num cuntratio seu ninguém,
desse jeito eu nem temo
acho que é um irmão gemo
que aquele sujeito tem.
No dia caquele home foi leim casa
ele se mostrô tão amigo,
teve tanta tensão cumigo
e cum toda minha famia
disse que se fosse eleito
ia istuciá um jeito
de ir lá quais todo santo dia.
Conde eu deu pro fé
o home tava dento da minha propa casa
pra todo mundo abrino as asa
dizeno que divera tava imocionado,
me dexô todo satisfeito,
queu fui logo veno o jeito
dum home muito bem inducado.
Disse que era fi de gente simpre e pobre
que num tinha nada de nobre
no seu jeito de vivê,
intrô dento de minha cunzinha
preguntano a muié se tinha
arguma coisa pa cumê,
foi logo butecano os ói prum pote,
bebeu inté um lote
da mema água queu tomo,
sento inriba do meu fugão,
e cumeu cum as propa mão
uma farofa do memo prato de barro queu como.
Sua farta de cirimônia
me feiz passá pela vergonha
sem nem sabê o que dizê.
Um dotô chei dos atributo
dento da casa dum pobre matuto
que num tem nada pra oferecê.
Eu falei: É nesse queu voto
pro sinhô eu me boto
inté nas frente das campanha,
vô falá dum home novo
e conde eu falo pro meu povo
todo mundo me cumpanha.
Falei cum Liziaro, Tozim, Maria de Zé Biri,
Zé Preto, Juaquim Abacaxi,
Tonhão da Quelemenã e inté Chico Seresta,
foi tanta gente duma só veiz
que o dotô inté feiz
pra nóis uma grande festa.
Nóis fiquemo agradicido,
todo mundo arreunido,
o home ficô todo inxado
e falemo na mesma voiz:
Se de pendesse só de nóis
o sinhô já era deputado.
Depois que o home foi eleito
nunca mais ninguém daqui viu o sujeito
pra vim cumpri as palavra primetida,
será que ele se esqueceu da sua propa vois
que falô pra todos nóis
que nóis ia dimudá de vida?
ainda assim eu fico pensano
que aquele dotô fulano
num era o memo da tá televisão,
é que aquele que lá represetô,
os reporte tudo falô
que ele era acusado de ladrão.
Ficaro falano o tempo intero
duma tá lavage de dinhero
que aquele dotô faiz,
dinhero foi feito pra gastá
se nóis pega pra lavá
ele rasga e num presta mais.
Isso só pode sê calunha,
eu vô defendê de unha
aquele dotô queu tem istima
e conde tivé bem pertim das inleição
vô omentá o tamãe do meu fugão
pra ele de novo sentá im cima.
Abusei e ainda o atrasei mais um tanto para poder copiar umas notas escritas por Rubens Mascarenhas sobre o professor e poeta baiano Jota Neris. Ele o define como um melancólico frente à perspectiva modernista de transformação do campo em cidade, com a penetração do capitalismo naquele. Mas o poeta resiste. A urbanidade não conseguiu corromper-lhe a alma sertaneja e catingueira. Por isto ainda consegue se expressar fugindo do uso de elementos estético-formais na sua poesia, numa visível batalha que busca desalienar a concepção caipira da modernidade urbana, no objetivo de preservar o campônio de uma possível desagregação social. Talvez em sua simplicidade não tenha lembrado que nem mesmo o urbano não está imune a este fenômeno.
A essa perspectiva citada podemos atribuir, do outro lado, uma resistência à extinção da vida sertaneja e, por óbvio, do homem do campo. A tentativa de lhe tirar um legado, afastando-o do seu conforto e da riqueza que ele mesmo produz, é vista pelo poeta como uma forma de injustiça social.
E cá pra nós: tudo começa com as promessas políticas, a moeda podre da compra de votos.
Vai com Deus padre! Talvez um dia ainda lhe confesse meus pecados cometidos em Belo Horizonte...
Por Ery Roberto |
6:38 PM
Sexta-feira, Abril 07, 2006
[poesia oriental]
ALMA E SORRISO
Por não saber sorrir
lança nuvens o céu azul
Por não saber sorrir
tremula no vento uma árvore
Por não saber sorrir
abana o rabo o cão - mas o homem
mesmo que saiba sorrir,
esquece de sorrir às vezes e
por saber sorrir
ludibria com o sorriso.
["Sorriso" - Shuntaro Tanikawa]
Poesias deste formidável Shuntaro (um dos maiores poetas do Japão, roteirista, teatrólogo e tradutor) foram reunidas em coletâneas intituladas "A Parte Mais Saborosa da Alma" (Tamashii no ichiban oishii tokoro) e "O dia em que os pássaros sumiram do céu" (Sora ni kotori ga inakunatta hi).
Em "Sobre a alma" ele confessa:
"Fui me familiarizando com o viver.
Sempre confiei só na aparência.
Nada sabia da alma,
o que até fez bem para iluminar minha solidão.
Mas quem sabe eu estivesse exausto da alma.
Uma imensidão firme feita por diversas aparências
que bem mais decididas que a alma
vivem o tempo e ocupam o espaço.
Agora estou sem canto.
Sou do mesmo berço que as estrelas.
Sou filho do ser isento de alma.
Mas aí, de repente, volta a mim a alma.
Porque minha aparência é feia?
Não, pelo contrário, porque é demasiado bela a aparência do mundo".
Os pássaros também não sabem sorrir, por isto cantam. E, talvez, no dia em que eles sumirem do céu não será porque este os tenha enganado com o sorriso, pois o sorriso do céu quando se transforma em lágrimas muda de cor.
Quanto à alma goza da consciência de si mesma, uma vez que se lhe atribui a alegria ou o sofrimento. De outra maneira seria inerte e o mesmo valeria para nós não tê-la. Isto equivale dizer que sem alma não há sentimento. Que talvez a parte mais saborosa da alma seja o seu sorriso, a nós tão visível através da poesia.
Nada mais justo que citar Pablo Neruda para associar o sorriso à simplicidade e assim também entender que esta tem o caráter básico do pão e é tão bela como a mais pura arte: "O que mais se parece com a poesia é um pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada, ainda que por mãos rudes!" [As poesias de Shuntaro foram traduzidas por Chika Takeda, tradutora da literatura brasileira para o japonês, professora de Língua Portuguesa da Tokyo University of Foreign Studies]
Por Ery Roberto |
6:07 PM
Terça-feira, Abril 04, 2006
[devaneios]
VITRINES
Reflito diante dessas vitrines de mulheres privadas de sentimentos, imobilizadas, com seus acessórios disfarçando a nudez iluminada por clarões coloridos, perfumadas por fumaças de incensos que queimam lá dentro e vejo o tempo escorrer nos ponteiros dos relógios de famigeradas grifes. E então me vem na lembrança como é exagerada a tua vaidade, sem compreender porque teus sonhos consumistas são antíteses das minhas prioridades...
Teu imoderado desejo de fingimento só é comparável aqueles bicudos pares de sapatos despojados de verdadeiros pés capazes de lhes dar sentido e equilíbrio.
Postiças, essas vitrines são tão iguais a ti! No vidro, a diáfana imagem é reflexo da manifestação sensível do meu abstrato.
Décima badalada. Apresso-me em direção à transversal antes que feche o último restaurante chinês...
Por Ery Roberto |
3:25 PM
Sábado, Abril 01, 2006
[comportamento]
CATÁLISE HUMANA
Imagem do Blog Amizade
Na linguagem da ciência a palavra catálise designa a ação através da qual uma substância acelera uma reação química em virtude de sua presença, embora ela mesma permaneça quimicamente intacta. Catalisador é, portanto, o nome da substância que provoca a catálise.
Ao reler esta definição, citada por Laymert Garcia dos Santos quando apresentou entrevista com Nolan Bushnell, o fundador da Atari, no Livro de Depoimentos América [Companhia das Letras, 1989], saí do objetivo empresarial da matéria e a transportei para o terreno da amizade.
Já sentiram, por exemplo, como certos amigos são capazes de provocar essa tal catálise em certos momentos da vida, quando não há uma mistura eficiente que produza a reação necessária entre nossa vontade e a iniciativa?
Eles têm o dom de transmitir uma energia que impele à realização de algo que não faríamos sós ou sem a força que nos restitui o brio. Doam-se por minutos, horas ou períodos, contribuindo para que analisemos as possibilidades e em seguida sintamos que o incentivo pode se transformar em concretude. Pouco demora e lá estamos, renovados, cheios de vontade, a executar um trabalho ou qualquer atividade, em cujo resultado fica sempre implícito o efeito da reação química responsável por um estado de iniciativa que nos faltava até então.
Depois, quando do resultado da ação recebemos os retornos, eles fazem questão de recusar qualquer crédito que tentemos aduzir às suas participações em tal processo realizador. Como verdadeiros elementos catalisadores, preferem ficar à margem de qualquer alteração, ou seja, transferem-nos integralmente os méritos por mais que insistamos em dividir.
A mesma virtude aparece em situações de relacionamento pessoal, nos casos em que entra em campo um sentimento, como na vontade de aproximação de alguém do sexo oposto. Ressalte-se que em tais circunstâncias o problema pode não se resumir à iniciativa, mas também pode se agregar à falta de oportunidade. Aqui, eles se transformam no elo faltante para que ocorra o ensejo e fazem acontecer.
Existem pessoas assim em muitos segmentos: no trabalho, na família, em outros círculos convencionais ou não. Hoje em dia, até na virtualidade.
O que me impressiona no bom elemento da catálise é o caráter desprendido. Esse altruísmo é magnânimo, o que revela uma grandeza de alma revestida por uma nobreza infinita. O sucesso das reações das quais participam parece ser o seu prêmio. Verdadeiramente amam o próximo como a si mesmos.
É estimulante pensar que possam ser autênticos anjos da guarda. É preciso encontrar a forma mais justa de agradecer, pois este nosso ato é o gesto que mais se aproximará de uma superioridade tão ao nosso alcance. Trate-os muito bem!
Por Ery Roberto |
9:07 PM
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