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Sexta-feira, Junho 30, 2006

[copa do mundo 2006]
JÁ VAI "HERMANO"?




Muy triste hermanos! Boa viagem e... agora torçam por nós!!!

Por Ery Roberto | 5:22 PM
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Quarta-feira, Junho 28, 2006

[copa do mundo 2006]
TEIMOSO E FELIZ




Imagens: Site Oficial da Copa


É compreensível porque, para tanta gente, o futebol seja tão difícil de entender. Mais ainda em Copa do Mundo.

A mística da "camisa amarela" tem feito diferença desde o início.

Só pode ser. É a única forma de compreender como um time mal escalado, sem nenhum padrão de jogo, com a fábrica de jogadas fechada, com uma caricatura de lateral-esquerdo e um técnico teimoso a lhe comandar consiga vencer. E ainda quebre records.

Parreira só não vai conseguir levantar a ira geral porque tem uma defesa bem treinada, seu cabeça-de-área Zé Roberto joga por ele e pelo outro (Emerson), porque o Fenômeno decide mesmo e Lúcio, além de ser o melhor da defesa ainda faz o que Ronaldinho Gaúcho deveria fazer. Incrível!

E ontem deve ter ficado feliz porque o time africano foi ingênuo. Com a defesa postada em linha, levou pouco. Se fosse o time que jogou contra o Japão teria tudo para aplicar uma sonora goleada.

Papo de boleiro "enche o saco". Em partidas anteriores, com times mais experientes e pegadores, houve quem dissesse que foi difícil porque não havia espaço. Quando é contra um time que joga errado, e, portanto, possível de criar esses espaços para a preparação da jogada, a Seleção joga apressada, com passes bisonhos, desprezando a inteligência que tanto caracteriza seu jogo e até seu espetáculo.

O Brasil venceu, mas outra vez não convenceu.

Agora vem a França. Será que sábado esse futebol pragmático do Parreira vai dar resultado? Torço para que Robinho possa jogar. Sinceramente, depois de ver a vitória francesa e a ressurreição de Zidane fiquei com medo. Ontem ele jogou muito pela esquerda e Cafu é barbada. Será que Roberto Carlos é capaz de atuar mais grotesco do que ontem?

Podemos passar para as semifinais, mas o futebol ainda é bem abaixo de tudo aquilo que "levamos pra Alemanha".

Pior do que qualquer "quadrado" na Seleção é o "quadrado-ridículo" da Globo. Ninguém vai sentir saudades se para a próxima Copa aposentarem Galvão, Falcão, Casão e Arnaldo. É muita bobagem de uma vez só.

Agora, fazer leitura labial do Parreira e depois pedir desculpas oficialmente é piada infame.

Por Ery Roberto | 6:00 PM
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Sexta-feira, Junho 23, 2006

[copa do mundo 2006]
COBRA NA CABEÇA



Imagens: UOL Esporte e Site Oficial da Copa


Nove (de Ronaldo) é "cobra". Dezenove (de Juninho Pernambucano) mais dezesseis (de Gilberto) dão trinta e cinco. "Dezena da cobra". Treze letras!

Para os mais supersticiosos estas combinações numéricas devem ter espantado de vez o azar. E é um ótimo palpite para a "fezinha" de hoje. A verdade é que, assim como a matemática, futebol é um jogo lógico.

Jogar uma Copa apostando em dois centroavantes fixos, um deles lento e pouco combativo, o outro fora de forma e cheio de problemas, obrigando a um atacante nato feito Ronaldinho Gaúcho servir de armador, é dose pra elefante. É ser quadrado. Ou "burrão teimoso". Treze letras!

Além da lógica, tem também a pressão. No caso de ontem, os cartões amarelos serviram como tal e ajudaram a revirar a cabeça de Parreira. "Salve os juízes". Treze letras! Embora acredite que o grupo tem lá suas divisões e de alguma forma exerça alguma pressão, reputo que a maior foi a externa. E as mídias, queiram ou não, funcionam no papel de levar lá pra dentro o clamor da torcida aqui fora.

Havia, igualmente, a tranqüilidade da classificação assegurada. Era um fator que jogava a favor dos "reservas".

Com todas estas coisas nos seus devidos lugares, sobrou o futebol brasileiro. Aquele que contém alegria, beleza e sabor de samba. Aquele que faz o "hermano" mais espalhafato baixar a crista. Treze letras!

A seleção ficou mais solta. Ronaldo mais leve (em todos os sentidos). O record já foi alcançado. Só falta superá-lo e ainda temos mais quatro partidas.

Dirão os mais afoitos: "então os problemas eram Roberto Carlos, Cafu, Adriano, Emerson e Zé Roberto!" Em parte, sim! O primeiro é titular sempre, mas precisava de um banco para se convencer disto. Quanto a Cafu, perdoem-me, Cicinho é mil vezes mais rápido, defende melhor, dá cobertura e principalmente sabe cruzar direito. Adriano não pode jogar ao lado de Ronaldo (as "torres gêmeas" já foram detonadas faz tempo); como este "não dá pra tirar" - treze letras! -, sobrou para o Imperador. E Gilberto Silva está melhor que Emerson. Para Robinho só falta o gol. Ele é o motor do primeiro combate, é a gasolina que incendeia.

Quando nosso "burrão teimoso" acreditar que Juninho defende, cria, ataca, chuta como ninguém, faz gol e ainda pode ajudar Gilberto Silva na proteção da zaga, que o Fenômeno jogando com Robinho é o ideal, tudo isto fazendo Ronaldinho Gaúcho jogar mais avançado e Kaká fazendo o que sabe ali pelo meio, o Brasil será Hexa-Campeão.

Ainda sobrarão alguns minutinhos dos descontos para colocar o Fred no lugar do Ronaldão. Mas só depois que ele quebrar todos os records.

Gostei da braçadeira de capitão no Dida.

Dida, Cicinho, Lúcio, Juan e Roberto Carlos. Gilberto Silva, Juninho, Kaká e Ronaldinho. Ronaldo e Robinho. Este é o time. Escrevam. "Com gana Brasil". Treze letras!

Ainda bem que "treze" não é burro. É a primeira dezena da borboleta. E esta "voa"!





MOMENTOS EMOCIONANTES:

  • Zico, no banco japonês, cantando o hino brasileiro
  • Ronaldo "desencantando"

Por Ery Roberto | 3:33 PM
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Quinta-feira, Junho 22, 2006

[esperança]
O CANOEIRO




Imagem: Pedro Vanzeler Colaço - Nevoeiro
perdido entre brumas
joga a rede e sonha.
a eterna lida é pescar.

nos limites das marés
vaza também o sonho.
resta à praia retornar.

mas esperança é um vai-e-vem.
como mar, depende dos astros:
finda no refluxo, volta em preamar.

[O CANOEIRO]
Ery Roberto Corrêa

Por Ery Roberto | 2:43 PM
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Domingo, Junho 18, 2006

[copa do mundo 2006]
SÓ PARA GARANTIR



Imagens: Site Oficial da Copa


Novamente o Brasil levou muito tempo para achar o jogo e fez um primeiro tempo digno do pior campeonato regional que acontece por aqui. Sem inspiração, sem toque de bola, sem "mágica", frustrando todas as expectativas depositadas com tanta confiança.

Se a palavra-chave do primeiro jogo era "nervosismo" do fator estréia, a deste foi "teimosia". Tanto do técnico Parreira, ao praticar essa verdadeira exposição indigna com o seu pupilo Ronaldo, quanto dos principais astros da nossa armação e finalização pela insistência em não produzir a marcação certa e a troca de passes envolventes.

Sinceramente, não dá para esperar que Ronaldo vá fazer algo a mais do que fez hoje nesta Copa. A atitude de escalar o avante está mostrando cada vez mais que existem interesses outros e que mais gente manda nessa seleção.

Após um "lampejo" de genialidade aos 3 minutos, quando matou uma bola no peito na entrada da grande área e deu uma puxada sobre a cabeça, para que Kaká arrematasse com perigo a poucos centímetros da trave, protagonizou, aos 37' uma cena insólita e indigna para o seu antigo futebol: embora bem posicionado dentro da área, só chutou o ar, após ter o domínio total da bola e não conseguir superar sua falta de preparo físico. Perdeu mais uma grande chance quando o jogo ainda estava empatado.

O problema não é mais falta de paciência, é excesso de irritação. Aos 71' aconteceu, outra vez, o que já vai se tornando sina: a cena de Robinho entrando e o Fenômeno saindo cabisbaixo.

Sinceramente, se é para prestar reverência e ter respeito com Ronaldo, como a própria comissão técnica pediu dias atrás, Parreira deveria ser o primeiro a fazer isto. O ato de insistir, quando é vísivel a falta de condição de jogo, é insólito, é degradante para o craque. Seria muito fácil de entender se o time não tivesse um centroavante melhor.

Finalmente, depois das entradas de Robinho e Fred, o Brasil melhorou e conseguiu se garantir para as oitavas.

Embora o sonho continue, é muito pouco para quem foi cantado em crônica e soneto.


Por Ery Roberto | 5:30 PM
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Sábado, Junho 17, 2006

[perdas & ganhos]
O TAMANHO DO SONHO


Dói muito quando perdemos.

Se a perda é humana e se trata de alguém que detinha o dom de traduzir o pensamento do povo, traçando em sua arte de fazer do escracho a forma mais simples de dizer muitas coisas, as quais pela preocupação de seriedade com que nos ensinaram tratar, na maioria das vezes nos fizeram emudecer, e sofrer, dói mais.

Também é verdade que só um novo ganho compensa a perda. Quando este pode ser uma herança deixada pelo próprio objeto da perda, é preciso ter força e vencer a tristeza para poder abraçá-la imediatamente, fazendo do seu uso um verdadeiro tributo à pessoa que nos premiou com um tanto da sua maneira de ver o mundo.

Bussunda gostava de futebol.

A respeito, disse uma vez: "É preciso sonhar alto, galera!"

Amanhã é dia de "caçar cangurus". E na Alemanha. Este paradoxo, por certo, seria um grande mote para o humor do nosso querido amigo.

Em sua homenagem, esqueçamos por uns momentos as intrigas e discussões que envolveram atletas da Seleção Brasileira nos últimos dias. Pensemos positivamente e transmitamos energias infinitas para ajudar aos que buscam a alegria perdida no pessimismo. Mostremos, também, que o sonho tem exatamente o tamanho do que julgamos ser. Se somos os melhores, o nosso sonho é o melhor.

Pois ser triste é a pior coisa que existe...

Mas a alegria é uma esperança. Sempre. E esperança também é um grande sonho que se realiza através da busca com garra, inteligência, união e crença. A caça aos cangurus é um belo treino para outras esperanças maiores que teremos que buscar adiante, se é que sonhamos com um Brasil melhor para todos os filhos desta pátria.


Imagem Bussunda

Por Ery Roberto | 11:19 PM
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Quarta-feira, Junho 14, 2006

[copa do mundo 2006]
O SHOW DAS ARQUIBANCADAS


Imagem: ReutersImagem: EFE
Imagem: EFEImagem: EFE


Ainda há quem procure o show do futebol dentro das quatro linhas do campo. Esquecem que o verdadeiro "fenômeno" está ali nas arquibancadas, dentro de uma seleção que dá o verdadeiro espetáculo e ganha sempre de goleada.

A seleção das arquibancadas já tem a tão sonhada estrela pendurada junto ao corpo e a carrega não como um acessório, mas como um talismã. O timão das arquibancadas não sofre de "tensão pré-estréia", sorri um sorriso brilhante, sincero, verdadeiro. Seu preparo físico é suficiente para mais de noventa minutos, pois se prepara, joga e ainda comemora pelas ruas, pelos bares e casas noturnas depois da partida e madrugada adentro.

A seleção das arquibancadas não tem contratos milionários com clubes europeus nem mansões com campo de futebol, sala de jogos, piscinas, cães de raça e empregados. Não viaja de jatinhos particulares para se apresentar na Suiça depois de convocada. A seleção das arquibancadas não tem exclusividade de mega-patrocínios. Em seu uniforme está bordado Brasil com "s" ou com "z". Não importa, é uma seleção global.

Ela faz questão de carregar a bandeira no peito e contagia até adversários. Quando aplica a sua infalível tática, envolve os oponentes com a forma escultural e a beleza sorridente das suas jogadas. Quando marca seus gols, comemora com graça e beijos.

Ainda há quem procure o espetáculo olhando para o gramado. Lá, tentam visualizar o "quadrado mágico" melhor do mundo, fenomenal, soberano e inteligente, na esperança de ver o lance desenhado e acabado. Sonham com a bola descrevendo as seqüências da mais fina arte do futebol em passes fascinantes, dribles envolventes, tabelas progressivas, inversões laterais, cruzamentos milimétricos, cabeçadas e chapéus, toques de letra, golpes de mestre, o tirambaço da entrada da grande área, o gol. Gol, o melhor momento do futebol.

Continuam olhando e encontram a realidade. Um quadrado degenerado, mal formado, perímetro reduzido, onde aparecem apenas dois pontos - coincidentemente o "melhor do mundo", quase anulado pela marcação, e o "referencial de inteligência e categoria" que, como se fosse uma flecha, graças ao seu esforço incomum, ainda consegue encontrar o espaço e fulminar a cidadela croata. Vibra Brasil, o tento salvador!

Ademais, como um pugilista nocauteado que se segura pelo clinche por sessenta e nove minutos, traído pela má forma física, lá, visualizam o "ex-Fenômeno" - inerte, um tanque enferrujado no cenário de Hitler, decadente, afeado, por fim vaiado. Ao seu lado, sem qualquer inspiração, sem absolutamente nada decretar, reina morto, reina posto, um antigo "Imperador". Quem procurou um quadrado encontrou muitos: os vermelhos do uniforme da Croácia. Nada mágicos, apenas um conjunto de entes geométricos anti-estéticos.

Parreira não estudou direito a analítica geometria!

Que seria deste nosso futebol de ontem se não houvesse "mulheres bonitas" nas arquibancadas? Sorry Galvão.

Por Ery Roberto | 6:48 PM
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Terça-feira, Junho 13, 2006

[copa do mundo 2006]
COM O CORAÇÃO NA MÃO



Imagens: Reuters e EFE


Quem pensava que seria fácil e esperava espetáculo está decepcionado. O jogo cauteloso e paciente do Brasil encontrou no meia Kaká (nota 9) a única arma para fulminar a meta croata, aos 44 minutos do primeiro tempo e decretar a nossa primeira vitória na Copa2006. Foi uma "estilingada" maravilhosa e indefensável. O Brasil ganhou, mas não empolgou.

Esperava mais do quadrado. Ronaldinho (nota 7) ainda conseguiu nos brindar com um bailado magistral no início da partida, mas a retaguarda adversária estava ligada e conseguiu abafar com competência a maioria das investidas da nossa seleção.

Adriano (nota 5) não encontrou o jogo e, isolado, pouco produziu. Mas a decepção foi o Fenômeno (nota 0), que durante os 69 minutos que esteve em campo produziu um passe com competência e um chute a gol. É pouco demais para um jogador da sua qualidade. Foi um peso morto. Com Robinho, quando o Brasil passou a ter 11 em campo, o ataque ganhou em movimentação e variações de jogadas.

Finalmente Parreira reconheceu: Ronaldo está fora de forma. E até onde cabe análise a respeito deste particular, significa, também, dizer que está "pesado". Acho que o técnico abusou da paciência da torcida. Poderia ter colocado o Robinho no início do segundo tempo.

Mas valeu. Passamos pelo nervosismo da estréia e é preciso reconhecer que a Croácia tem um jogo duro e uma ótima marcação. Agora que venha a Austrália e nossa torcida é para que o "quadrado mágico" jogue "redondinho". Kaká começou a aparecer e seu jogo foi fundamental nesta vitória. Méritos também para o Dida que quando exigido deu a tranqüilidade que dele se esperava.

Em resumo: Se tivesse que ilustrar com um adjetivo, este seria "gago": a gente sabe o que quer dizer, mas é muito demorado para sair. E às vezes perde-se a paciência. Deu pro gasto. O importante foi provar que até jogando 69 minutos com dez homens, ainda conseguimos ser melhores.



Enquanto isto, em Brasília:


Por Ery Roberto | 7:48 PM
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Sexta-feira, Junho 09, 2006

[copa do mundo 2006]
VIA TUBO


Tor, Tor, Tor!


As primeiras Copas a gente ouvia pelo rádio. Vovô tinha uma velha "caixa-de-abelhas" onde eu encostava os ouvidos nas suas ondas curtas que, volta e meia, fazia sumir a narração. Velhos tempos das Rádios Record, Bandeirantes, Globo e Tupi.

Em 1962, por falta da atual tecnologia, eu ficava pensando como seria mais difícil ouvir a próxima Copa, pois se aqui no Chile, tão pertinho, as malditas ondas sofriam tanta interferência, projetava como seria lá da Inglaterra, bem mais longe, em 1966. Acabei ouvindo também pelo rádio, mas naquela altura já tínhamos em casa um novo e potente aparelho.

Sempre achei que o rádio era verdadeiro. E era. E é. Quando a gente lia os jornais, depois de cada partida, via estampada ali nas reportagens uma história que já havia sido contada em sua linguagem própria através da narrativa radiofônica, normalmente construída por um locutor narrador, um repórter de campo e um comentarista. Sofria apenas a intervenção esporádica de um locutor do plantão, quando alguma outra notícia era oportuna. Sempre foi assim. Os comerciais eram feitos de jingles ou lidos pelo próprio locutor. Era puro, romântico, poético.

A partir de 1970, no México, quando o Brasil ganhou o tri e escreveu uma das mais lindas páginas da história do futebol, com uma seleção que jogava por música, tudo mudou.

O imaginário, que se desenvolvia no cérebro de cada um a partir dos incentivos recebidos pela audição, deu lugar ao realismo da imagem televisiva. E a cores. Aquele foi um momento ímpar. Após tantos exercícios de estimulação transformados em imagens abstratas para cada ouvinte, sentir a gloriosa "amarelinha" vestida no explosivo Jairzinho como um furacão, no genial Tostão como se fosse um mágico, na inteligência de Gérson como se ditasse cátedra e na batuta do magistral Pelé como se fosse um maestro, foi o mesmo que recuperar uma cegueira de nascença.

Na nova era das comunicações, quando a grandeza de um evento internacional como a Copa passou a convergir para multiplicidade de interesses que são regidos pelo poder econômico, acompanhar sua narrativa pela TV, apesar do inigualável show tecnológico que esta mídia proporciona, passou a ser um exercício semelhante à leitura de uma prosa barata.

Além do insuportável processo de massificação, típico das emissoras brasileiras, nossos narradores esportivos, com raríssimas exceções, mostraram-se péssimos leitores do óbvio, criadores de chavões, polêmicas e estilos insuportáveis. Um deles passa a idéia de ser garoto propaganda (e possivelmente bem pago) da marca que patrocina certos atletas. Com isto, sua função é enfeitar a verdade que todo mundo vê, em crônica subestimação da inteligência coletiva. Se estiver gordo é massa muscular, se jogar mal é problema do conjunto ou do técnico, se sair antes é porque precisa ser poupado para o próximo jogo, e se o "9" espirrar dentro das quatro linhas, seu papel é gritar "saúde" ao vivo para todo o Brasil.

Já tivemos muitos, entre outros Luciano do Valle, Sílvio Luiz, Osmar Santos e o "Talzão Bueno" que não quer saber de aposentadoria.

O pior defeito da TV Globo é preservar certos profissionais ultrapassados, em detrimento de uma renovação necessária. A ela deve parecer que Xuxa ainda é menina (apesar de nunca ter crescido), que Faustão ainda agrada com seu estilo chulo e intrometido e quanto a Galvão, ainda é cedo para vestir o pijama (de cetim, claro, com logotipo daquele patrocinador).

Mas isto que fique entre parênteses.

O que intriga, se não provocasse, é o péssimo estilo narrativo, especialmente a mania de querer explicar o óbvio ou o inexplicável, bem o que está sendo visto e interpretado por todo mundo em tempo real. Mais: ufanizar um acontecimento como se tal gesto ajudasse a mudar coisas bem mais importantes.

Fico imaginando quanta mentira teríamos a ouvir caso esses tipos fossem, nos áureos tempos, locutores do rádio esportivo. Temos que bater continência a Geraldo José de Almeida, Mário Viana, Haroldo Fernandes, Fiori Giglioti (que acaba de nos deixar) e outros célebres.

O rádio, infelizmente, não evoluiu como os demais meios. Ainda agora ouvi dizer que emissoras paranaenses transmitirão a Copa2006 via "tubo". Para quem não sabe antigamente as equipes esportivas se deslocavam para o local do evento, no objetivo de transmiti-lo "diretamente". Para tanto, as principais emissoras, se não tinham cabine no melhor lugar do estádio, de frente para o crime, narravam o jogo da beira do gramado ou ali mesmo dos alambrados. "Via tubo" significa sentar defronte à TV e narrar o jogo.

Já pensaram no risco de uma pane qualquer que tire do ar a imagem da transmissão televisiva? Restará a essas rádios entrarem "pelos tubos".

Embora tudo, vamos à Copa: cervejas no freezer, salgadinhos no prato, amarelinha vestindo a esperança, imagem na TV e som na melhor emissora de rádio.

Ah! Escrevam: Kaká vai barbarizar. E se faltar band-aid, Robinho fará o gol do hexa. Afinal de contas, também no futebol, as coisas certas podem acontecer por linhas (ou pernas) tortas. Elza Soares que o diga.

Depois de cada jogo ouça-se a crônica do Pedro Bial. Mesmo que nada comparável a Armando Nogueira, ainda é a raridade que a Globo levou para a Alemanha.

Por Ery Roberto | 8:23 PM
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Quarta-feira, Junho 07, 2006

[arte & indignação]
TICO SANTA CRUZ, O "DETONADOR"


A primeira vez que li sobre a banda Detonautas Roque Clube foi através de uma amiga blogueira de São Paulo que a conhecia. Ao ouvi-la não foi preciso terminar a primeira faixa do CD para descobrir que não fazia o estilo de rock que gosto. Ao vê-la, algum tempo depois na TV, foi o suficiente para trocar de canal.

Semanas atrás, ao vê-la novamente, convidada por Serginho Groismann ao seu programa Altas Horas (TV Globo), tive oportunidade de sentir uma excelente surpresa. Embora ainda sem me convencer a respeito da sua música, fiquei contente com a desenvoltura do pensamento do vocalista Tico Santa Cruz.

Respondendo aos questionamentos daquela jovem platéia, ou participando de rápidos debates que nasceram envolvendo situações da vida brasileira, ele demonstrou ser atualizado com os principais problemas sociais do país. Lembro que sua maior intervenção abordou de forma lúcida nossas questões educacionais, de segurança e do papel da arte como elemento que deva contribuir para a formação do indivíduo na vida nacional.

Confesso, ele conseguiu me fazer separar a música do pensamento e conquistou minha admiração. Foi ótimo.

Depois da morte do guitarrista da banda Rodrigo Netto, outra vítima da violência no Rio de Janeiro, Tico foi notícia nos jornais e na rede. No domingo, 04 de junho, por ocasião do sepultamento do companheiro, ele protagonizou um forte discurso que o tornou porta-voz da nossa indignação com este estado trágico da segurança no Brasil. Sufocando a dor para dizer duras verdades, no dia seguinte ele postou um novo desabafo no Blog da banda.

Terça-feira, no mesmo blog, em longo post, "detonou" a política brasileira responsável pelo atraso social no país. Listou a corrupção e a impunidade dos malfeitores oficiais como fator que considera também razão para que cada vez mais o cidadão deixe de enxergar a possibilidade de progresso e paz, entrando no estado crítico da desesperança. Chegou a duvidar da existência de algo que seja um canal de concórdia humana. Falou de drogas, censurou a hipocrisia e apelou à consciência cidadã no que diz respeito à responsabilidade do voto.

Por feliz coincidência, enquanto lia este post ouvia Gabriel O Pensador cantando seu contundente desabafo "Pega Ladrão". É preciso conhecer esta letra.

Entendo que a arte tem esta facilidade para trazer à tona sentimentos "recolhidos". E considero também que seja um dos seus mais nobres papéis.

O que não podemos admitir é que precisemos perder nossos "irmãos" para que a bomba verborrágica detone. O artista é instrumento na formação de opinião. Quanto mais próxima da lucidez seja sua manifestação, mais terá contribuído para o lapidar do senso comum, mais contundente será sua ação transformadora através da força que exerce como objeto de mídia.

Tico Santa Cruz ganhou definitivamente o meu respeito.


[Importante registrar que o discurso Detonauta ganhou a solidariedade da expressão pública dos Titãs e do Skank, entre outros componentes do meio artístico.]

Por Ery Roberto | 8:05 PM
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Terça-feira, Junho 06, 2006

[apostolado]
O HOMEM QUE ESCREVIA CARTAS


inda nos tempos de criança, na plenitude do domingo, lá na salinha dos juniores da Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista, foi nos proposta uma questão: teríamos que definir com poucas palavras tudo que havíamos aprendido sobre o apóstolo Paulo. Foi o momento de uma das minhas primeiras grandes descobertas, ou seja, como era terrível sentar nas cadeiras da última fileira da classe. Quando chegava a vez deste humilde escriba apresentar a resposta ela já havia sido dita por algum outro aluno.

Mas eu não tinha coragem de ficar lá nos primeiros bancos. Só fui mudar esta rotina quando já na escola primária e ainda assim porque minha mãe, que à época trabalhava no estabelecimento, passava no corredor uma meia dúzia de vezes para conferir minha posição de centroavante.

Pois bem, tive que me desdobrar na busca de alternativa. Em fração de tempo lembrei de um belo sermão dito em um culto conduzido por um reverendo que nos visitava sempre, o nobre e eloqüente Prof. Mauro Serafim. Naquela ocasião ele tratou de exaltar as qualidades de Paulo de Tarso, desde sua magistral coragem até seu dom de escritor. Daí respondi: "O homem que escrevia cartas". Para um menino de pouca idade a resposta ficou de bom tamanho. E se não tinha o brilho do meu até então recôndito perfeccionismo, pelo menos não era um gol de bico feito por um zagueiro escorregão.

O que interessa dizer é que a história do Cristianismo não seria a mesma sem este magnífico personagem.

Depois da morte de Jesus Cristo, o então fariseu converteu-se ao evangelho e transformou-se em grande pregador. Os sermões de Paulo e seus ensinamentos foram também distribuídos por meio de epístolas que ele enviava às primeiras comunidades cristãs. Sua missão era viajar para discursar a fé e nela ficou patente uma coragem incomum.

Com Jostein Gaarder, através da sua admirada obra O Mundo de Sofia [Cia. Das Letras - São Paulo - Tradução de João Azenha Jr. - 39ª. reimpressão - 2000], é possível sentir um tanto desta virtude do grande apóstolo.

Quando foi à Atenas, passeando pelo mercado da capital da filosofia, Paulo ficou indignado com a idolatria que permeava aquela cidade. Munido da sua coragem, procurou uma sinagoga judaica e ao conversar com filósofos epicureus e estóicos, insistiu que o levassem ao Areópago. É de se pressentir o quanto tenha sido difícil para um judeu desconhecido falar sobre nova doutrina - a redenção cristã - dentro do ambiente acadêmico da ideologia grega.

Mas Paulo conseguiu dialogar e, pelo que consta, do meio do Areópago, cercado pelos majestosos templos da Acrópole, chegou a fazer um discurso aos atenienses. "Homens atenienses, em tudo vos vejo muito supersticiosos. Num dos altares de vossos monumentos sagrados, escreveis: 'Ao Deus desconhecido'. Aquele, pois, a quem adorais sem conhecer, este eu vos anuncio. Deus, Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos pelos homens, nem é servido pelas mãos dos homens, como se necessitasse de alguma coisa, ele que dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas".

E prosseguiu: "De um só fez todo o gênero humano, para que habitasse a Terra, ordenando-lhes para que busquem a Deus e o encontrem, embora ele esteja próximo de cada um de nós, porque nele vivemos, nos movemos e existimos, como até o disseram alguns dos vossos poetas: somos verdadeiramente da sua linhagem. Então, sendo vós da linhagem de Deus, não deveis pensar que a Divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e indústria do homem".

O Cristianismo foi gradualmente se infiltrando no mundo greco-romano como algo diferente da filosofia dos epicureus, estóicos e neoplatônicos. A história revela que apesar de tudo, Paulo encontrou sólido apoio naquela cultura ao chamar atenção para o fato de que a busca por Deus está dentro de todos os homens. O que Paulo pregava não era novidade para os gregos. A diferença estava na verdade do encontro de Deus com o homem, da sua revelação, de não ser apenas um "deus filosófico" a quem as pessoas pudessem chegar pelo exercício da razão.

Paulo não foi importante para o Cristianismo apenas pelo seu caráter missionário. As comunidades cristãs precisavam de orientações espirituais e foi por isto que ele também se transformou no "Homem que Escrevia Cartas".

Foi numa delas, a sua primeira epístola aos Coríntios (13:1-13), que compôs um dos mais belos poemas sobre o Amor: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. [...] E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. [...] Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. [...]".

Das tantas lições do Cristianismo, as mensagens de Paulo são admiráveis. É possível sentir que a palavra ganha consistência quando, além de conter a verdade de quem a profere, é nela que se acredita e se pratica.

Parafraseando Latino Coelho em sua A Oração da Coroa, tomando de Tarso um pouco da coragem para refletir e escrever, é possível dizer que "... o engenho humano chegou ao máximo cultivo e expansão; que a tecnologia multiplicou-se aos olhos dos cidadãos do mundo... nas comunicações, na arquitetura, na medicina, na astronomia, há infinitas maravilhas". Mas, infelizmente, teimamos em não desenvolver a JUSTIÇA.

O sublime da religião cristã tem sido tomar o direito pessoal por base do direito do próximo. O sentimento de justiça está na Natureza e sua base fundamenta-se no princípio de desejar aos outros o que queremos para nós mesmos.

O homem precisa voltar-se imediatamente para si próprio e meditar sobre seu papel como criatura de Deus. Entendendo que o amor é o único elo possível para se formar uma verdadeira corrente, será capaz de adquirir coragem bastante para lutar em favor da paz. Antes, deverá investir no esforço para recuperar, ler e entender as já escritas cartas da justiça que, indevidamente, usando de duvidoso autodidatismo, tratamos de arrolar como spam e as configuramos como passíveis de deletamento automático.

Por Ery Roberto | 4:27 PM
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Sábado, Junho 03, 2006

[amizade]
A AFEIÇÃO DA ALMA


Empresto as sábias palavras da poetisa e delas faço meu presente virtual de sincera homenagem à Mônica. Todos os dias são especiais, mas existe um que é preciso celebrar: o "Dia do Aniversário". E presentes devem sempre conter uma perfeita identificação com a pessoa festejada.




NÃO SEI
[Cora Coralina]

Não sei...
Se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
Se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura...
Enquanto durar."

A afeição da alma, quando pura e simpática é durável. A boa amizade desperta o reconhecimento e a compreensão do próximo, pois, é também através do respeito e das trocas que descobrimos a forma profícua de conhecermos a nós mesmos.

Por Ery Roberto | 12:14 AM
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