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Quinta-feira, Julho 27, 2006

[poesia]
QUINTANA, O PASSARINHO DO SUL


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No próximo domingo - 30 de julho de 2006 - comemora-se o centenário de nascimento do poeta Mário Quintana.

O mestre da ironia fina tinha uma forma criativa de abordagem do mundo e para quem aprecia a elegância da escrita ele é referencial. Além do mais, há em Quintana uma constante descoberta.

A retórica nos ensina que ironia é uma figura estabelecedora de distância entre o que escrevemos (ou dizemos) literalmente e o que pretendemos que de fato seja compreendido. É a verdade fantasiada de antítese que só produz seu verdadeiro efeito quando há o entendimento, a percepção deste jogo por parte do leitor ou do interlocutor.

Mas não é apenas da ironia que se utilizam os grandes escritores. Henri Bergson (1859-1941), estudioso do cômico, explicou que "transpor a expressão natural de uma idéia para outra tonalidade caracteriza o humor. A ironia ocorre quando a distância entre os dois termos de comparação é menor que a de outras formas cômicas". O que se espera é que o leitor seja perceptivo com a contradição e, para tanto, costuma-se deixar marcas dessa ambigüidade de significados, ou seja, "sugestões" encobertas naquilo que é escrito.

Embora tenha utilizado esta técnica de forma muito própria, fazendo surgir claramente o lirismo no óbvio, Quintana sofreu certo desprestígio e chegou a ser excluído da nobreza literária onde Drummond e Bandeira tinham cadeiras cativas.

"A morte não iguala ninguém: há caveiras que têm todos os dentes".

"A esperança é um urubu pintado de verde".

"Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...".

"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo...".

"A única coisa eterna são as nuvens".


"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação".

Quintana foi um exímio observador dos fatos do cotidiano. Isto o fez "animar" os mais simples objetos através do uso do paradoxo e de fortes metáforas. Admirável, porém, é que sua forma de ver o mundo o fazia um artífice das inversões, mas servia-se de uma leveza magnífica que aos simples mortais só é atingível depois de muita reflexão.

Tinha sagacidade crítica. Um belo exemplo está em "Os aviões abatidos / são cruzes caindo do Céu" [no dístico Guerra de "A cor do Invisível"]. Ele observa os aviões e constrói uma ligação com cruzes ao imaginá-los caindo desastradamente. Ao se servir da habilidade de criar analogias para mostrar correspondências que jamais imaginávamos poderem existir, ele prova ter sido mais antenado que todos nós.

Quintana fez do seu pensamento uma forma livre de rir da realidade. Conta Rubem Alves, ao falar sobre epitáfio, que Mário, sabendo que a morte o esperava em alguma esquina escolheu sua frase: "Eu não estou aqui...". Brilhante! Já imaginaram? Caminhando pelo cemitério, as lápides se sucedendo graves e fúnebres. "Aqui jaz...", "Aqui jaz..". De repente os olhos batem na frase "Eu não estou aqui", que é o mesmo que "Aqui não jaz...". É possível deixar de rir? É possível não amar quem assim brincou com a própria morte?

Suas críticas sociais são memoráveis e nos transferem a obrigação de refletir. "Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe - quem é que não viu - aquele cartaz... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio - até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos - estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!"

Ser poeta, ele dizia, não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras. "Sê bom. Mas ao coração / Prudência e cautela ajunta. / Quem todo de mel se unta, / Os ursos o lamberão." E "Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo...".

Iniciar-se na leitura da obra de Quintana com sua terna ironia é algo como presenciar a subida da espuma de cerveja que, repentina, reverte o curso pela beirada do copo e nos obriga antecipar o sabor do primeiro gole.



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Por Ery Roberto | 4:34 PM
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Terça-feira, Julho 25, 2006

[inversão de valores]
O POVO E A SELEÇÃO


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Ontem, logo após o anúncio da CBF sobre o novo técnico da Seleção Brasileira, alguns portais abriram fóruns para que seus leitores opinassem a respeito da escolha do ex-jogador Dunga, o capitão do tetra.

Pelo menos até às 21h00, em dois dos principais portais brasileiros, a maioria dos leitores expressou descontentamento, ceticismo e até revolta com a iniciativa de Ricardo Teixeira. Após a negativa de Filipão, o torcedor esperava que o novo comandante para 2010 fosse alguém saído de uma lista que continha Luxemburgo, Autuori e outros que atuam na função.

Este comportamento do torcedor merece uma análise cujas conclusões podem muito bem ser transferidas para outros aspectos da vida nacional.

A primeira e óbvia constatação diz respeito ao já conhecido fato que o brasileiro se preocupa mais com o técnico da seleção de futebol do que com seus governantes. Diria que, neste particular, a amostra dos fóruns é apenas um referendo.

Mais importante, porém, é a rejeição do novo.

Nossa mania de pré-julgar vem do medo de arriscar. Perdemos tanto pela falta de ousadia (inclusive no futebol), reclamamos por mudanças, mas não aceitamos nada que seja desprovido dos velhos costumes, que não contenha um rótulo de propaganda enganosa. Queremos fechar as portas para as diferentes oportunidades deixando preservado o que já anda gasto por tantos conceitos discutíveis.

É assim, também, na política. Devidamente consideradas as proporções do terreno, deveríamos ter coragem para nos livrar de velhas raposas. Cada eleição é uma oportunidade imperdível de renovação, de aposta em alguém com idéias de vanguarda, com aptidões não contadas por suposta "experiência parlamentar", mas medida pelo conhecimento do seu caráter e pelo histórico da sua profissão.

Se participássemos da vida política teríamos plenas condições de formar o equilíbrio, preservando os bons - nada difícil, dada a raridade - e plantando uma nova safra de políticos com pensamentos mais próximos aos anseios da população.

Lógico que sempre haveremos de correr riscos, uma situação inerente às atividades humanas, mas entre apostar e reeleger apenas "mensaleiros e sanguessugas" precisamos, pelo menos, ter a certeza de onde queremos chegar.

No caso do técnico da Seleção, inegáveis que os resultados e o desempenho são os fatores que mais determinam o nível de pressão que costuma vir das arquibancadas e das mídias. Mas não dependerá exclusivamente de Dunga. Há outros fatores desta modernidade esportiva que nem todos conhecemos. E por maior que seja a pressão externa, apenas um homem todo-poderoso dará o veredicto e este é o presidente da CBF.

Já no caso da política, se apostarmos na renovação e participarmos acompanhando, cobrando, escrevendo, exigindo, poderemos mudar. E caso não seja possível, basta, na próxima eleição, reformular a aposta.

Opinamos mais onde nem sempre podemos impor a vontade, mas esquecemos de dar valor ao nosso direito de agir onde devemos contribuir de verdade. O importante é que este "compromisso de mudança" esteja sempre dentro de nós. Quando for assim, nada haverá para ser temido.

Diferentemente do futebol - onde a pressão da falta de resultados poderá levar a uma queda do treinador em qualquer ponto da trajetória temporal até 2010 - na política o nosso voto confere um mandato com tempo determinado, onde raramente é possível mudar antes do final da legislatura.


Por Ery Roberto | 7:38 PM
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Quarta-feira, Julho 19, 2006

[reflexão]
DIFERENÇAS NATURAIS


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Há que se considerar que somente o caráter relativo das diferenças naturais, nunca uma constante e sim um valor irrestrito, infinito, transforma as possibilidades da lógica para produzir um resultado de notável riqueza na equação humana. Só aprendendo que a vida é uma função de diversas variáveis - que, por sua vez, são funções deriváveis de outra variável - descobre-se que o somatório dos produtos das derivadas parciais da função pelas respectivas derivadas das variáveis em relação àquela de que dependem, produz a derivada total. A interpretação deste conceito nos ilumina o raciocínio quanto a aceitar como verdadeira a proposição teórica da pacífica convivência. Remete-nos ao limite superior, onde é possível extrair igualdade a partir das respeitáveis diferenças. E, na posse deste magnífico resultado, resta aplicá-lo de forma a conquistar a prática, enunciando premissa evidente que haverá de ser admitida universalmente sem exigência de demonstração. Mas, antes de tudo, cabe-nos compreender que não há qualquer lógica nas "diferenças não naturais". Estas - sejam resultantes da violência ou decorrentes da incapacidade de gerir o caráter, efeito de provocada ou buscada degeneração ética ou psíquica - são constantes impróprias, carentes de transformações só possíveis através de operações racionais como a redefinição integral da educação e a maximização do amor. Independente de tudo, nada anula a liberdade de continuar sendo um algarismo qualquer cuja vírgula que o separa do zero à sua esquerda é a mais evidente representação da sua absoluta insignificância. Afinal, o livre-arbítrio também é uma operação básica.

Por Ery Roberto | 7:15 PM
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Sexta-feira, Julho 14, 2006

[dona avanir]
ANJO E MÃE



uando o Deus criou a mulher resolveu lhe entregar, pela pureza do seu coração, o dom sublime de procriar.

Escolheu a mulher porque nela, já sabia, estava contida a virtude do amor. E quem ama tem que ser honrado; e aquele que honra a quem lhe deu vida tem os dias prolongados sobre a Terra - a causa e o efeito numa simbiose sagrada produziu um mandamento (Êxodo 22:12).

Receber tão nobre missão fez a mulher elevar-se à linhagem dos anjos, pois a estes é dado saber amar e proteger, ser presente e dar segurança, compreender, ser paciente, doar-se sem nada esperar em troca. É sábio e aconselha, guarda e socorre nos momentos de angústia e de dor. Acima de todas as coisas, um anjo é perdão!

Por que mais Deus escolheu a mulher, além da reconhecida virtude do amor que se fazia presente como chama? Pela força do seu espírito! Pela fé e caridade já brotadas em seu coração. Deu-lhe a fertilidade, pois viu florescer rapidamente a ternura em seus sentimentos.

Aos anjos ainda foi dado o dom da paciência e da perseverança. Para guardar criaturas tão desobedientes como os seres humanos, era preciso persistência no sagrado mister de aconselhar.

E quanto à vicissitude de consolar? À mãe foi dada a graça de ser superior para poder ir além da sua capacidade de sofrer e assim mesmo continuar forte, abreviar a dor alheia com o sacrossanto dom do carinho e da presença, destruindo as causas do mal e fazendo reviver o sorriso do filho, mesmo que numa paisagem de angústia.

Mãe é como anjo! E tê-la por perto é experimentar o essencial da glória de ser feliz.

Honrar Mãe não é somente respeitá-la: é assistí-la na necessidade, proporcionar-lhe o repouso na velhice, cercá-la de solicitude como assim faz por nós pela existência inteira, é enaltecer sua luta, é abrir o coração para o eterno reconhecimento.

Hoje minha mãe faz aniversário. Que seja abençoada e portadora perene da sua luz.

Por Ery Roberto | 6:29 PM
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Terça-feira, Julho 11, 2006

[mal traçadas linhas]
ARGUMENTO



Sei que é dúvida banal,
Mas por que quando cai o temporal,
Dádiva sinfônica da tarde,
Ficamos nós a pensar
Com esse desejo que arde
Em banho de chuva tomar?

Saudade da infância somente
Ou rara nostalgia presente
Que não temos coragem de merecer?
Talvez compliquemos a vida
(Tanto que até Deus duvida)
Iludindo a vontade e deixando de ser.

No outro lado do mundo, é verdade,
Ao paraíso chegar é nossa vontade.
Fazendo a viagem dos devaneios,
Conhecemos por lá quem queira
Achar no lado de cá os meios
Pra passar feliz a vida inteira.

Verdade poética não se discute
E o som do verso repercute:
Sufocando a leveza esquecemos
Que a felicidade está sempre onde a pomos,
Mas só e só porque queremos
Nunca a pomos onde estamos.


Ery Roberto Corrêa - Jul2006


[Depois de ler Juremir Machado da Silva - Aprender a (Vi)Ver - Editora Record - 2006. Apesar da crítica considerar que o livro tem "argumentação inocente", que o tom professoral teórico o prejudica, que o autor tem ferramentas para passar dos conselhos inocentes para uma crônica mais reflexiva, pareceu-me bom trabalho na proposta de discutir questões corriqueiras. A crítica pode ter lá suas exigências, mas é preciso lembrar que ainda tem muita gente que nem consegue enxergar o trivial.]

Por Ery Roberto | 5:59 PM
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Sexta-feira, Julho 07, 2006

[ídolos]
LEMBRANÇAS DE LENNON



Imagem: www.framesdirect.com

Ontem passei no blog do Milton Ribeiro, musicalmente um erudito de carteirinha, e li um post interessante sobre os Beatles.

Ele comentava sobre o fato magnífico, talvez uma obra do destino de juntar naquele grupo quatro rapazes nascidos na mesma cidade e quase na mesma época e ainda três deles, Lennon, Harrison e McCartney, serem compositores magistrais e que poderiam ser fundadores de grupos diferentes. Beatlemaníaco ou não, vale a pena ler.

À noite, na Livraria, achei uma pérola: Confissões De Um Comedor de Xis, de José Pedro Goulart [L&PM Editores S/A - Porto Alegre - 2003]. Como Milton, Zé Pedro é gaúcho. É um livro que reúne diversas crônicas que falam de cinema autoral, de alta literatura e gastronomia, de medo, solidão, monogamia, monotonia, cinismo, idiotia e da complexão da simplicidade. De cara, "Lembranças de Lennon".


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Você já deve ter ouvido falar sobre "Lembranças de Lennon", da editora Conrad, saído há pouco. Se não, saiba que se trata de uma publicação em forma de livro de uma histórica entrevista do músico John Lennon à revista Rolling Stone. Lennon, o mais inquieto dos Beatles - e tudo mais que se possa falar "o mais" dos Beatles -, o único deles que depois deles se manteve em cartaz com coisas novas.

Mas eu não vou comentar a entrevista. (Fique apenas sabendo que é um livro LSD, Leia Sem Demora!) Eu aqui vou me deter no prefácio da Yoko Ono e naquilo que eu senti quando o li. E o que foi que eu senti? Bom, eu senti vontade de dar um beijo na sua boca. Não, não na sua, leitor, mas na dela, na da Yoko. E também não seria um beijo de amor. Mas um beijo de, digamos assim, solidariedade e reconhecimento. Eu já tinha pensado nisso antes, mas foi no tal prefácio que muito se esclareceu para mim. Yoko foi chamada de tudo pela imprensa da época, de "mulher-dragão", "japa", "china", "cadela". Enfim. Os caras simplesmente não a perdoavam por ela ter casado com John Lennon, já que ele podia ter conseguido QUALQUER uma e foi pegar logo aquela mocréia. Ainda por cima oito anos mais velha! Todos esses anos depois e agora quem critica Yoko é a própria Yoko. Entre outras coisas, chama a si mesma de "sombra", durante a entrevista. Rindo nas horas certas e erradas, ou fazendo "observaçõeszinhas irriantes". Percebem? Ela permitiu que o texto fosse publicado apesar disso! Por amor. Yoko Ono talvez não se achasse à altura de um gênio como Lennon. Mas está errada. Ela foi mais do que o artista. Foi sua inspiração. Que se comprova em tantas músicas que John escreveu para ela. E uma paixão assim é muito mais do que um compacto simples. Tudo mais que vá pro inferno. Bem que o Lennon avisou que não acreditava em nada. A não ser nele e em Yoko. Ou seja, ele só acreditava nele e no amor. Salve-se quem souber.


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E o Gaudz continua escrevendo otimamente. Desta vez, aqui. Bom fim de semana.

Por Ery Roberto | 3:49 PM
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[nos tempos do bb]
GUARDIÕES DA PAZ ANTONINENSE



Da esquerda para direita: Alci Weiss, Emilson Maier, Sérgio Gomes, Wilson Rosas, Renzo Rovere, Ademar
Rodini, Alberto Horvatich e este escriba aos 21 anos.


Fevereiro, 1975. Antonina-PR. Morávamos todos na mesma república (Alberto era o Presidente). Saídos de casa pela primeira vez, iniciávamos a lida bancária cheios de esperança. Uma bela convivência em um lugar fantástico onde participávamos ativamente da vida da cidade, em ótima convivência, aprendizado inigualável, muita amizade dentro e fora do Banco do Brasil e expectativas de futuro promissor na carreira. Dá saudades deste time.

Lógico que o título deste post nada tem a ver com nossas "ruidosas pândegas" quase que diárias.

Por Ery Roberto | 3:44 PM
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Segunda-feira, Julho 03, 2006

[coisas do brasil]
YES, NÓS TEMOS BANANAS




Lá no oeste, longe da capital e seus intensos rumores, havia pouca coisa para fazer. Não era por menos que algo como torcer pelo Brasil na Copa fosse capaz de mobilizar todas as tribos de Bananais do Sul.

Para o vigário, um descendente de franceses, otimista e contemporizador, o jogo no sábado, primeiro de julho, dia da padroeira do município, tinha sido motivo para pensar no adiamento da procissão e toda festa preparada com respeitável antecedência.

Como competir com aqueles televisores instalados no coreto da praça pelo pessoal das Casas Bahia? O jogo terminava perto das dezoito, bem na hora da missa que coroava os festejos religiosos. E depois viria o show sertanejo da dupla Caturra e Maranhão, promovido pelos produtores, empresários e industriais do ramo bananeiro do município.

Confiou no poder da santa e na devoção dos fiéis. Duras negociações prorrogaram o show da dupla para depois da missa. Ele tratou de olhar o problema como solução. Afinal, o fim da procissão e início da missa seriam reforçados por todo aquele público da praça, eufórico com os discípulos de Parreira. Nada melhor: entre o êxtase do fanatismo futebolístico e as canções profanas do compositor Caturra, a apoteose da louvação à santa.

Mandou confeccionar uma batina amarela como forma de atrair fanáticos desviados.

Chegou o grande dia. Perto das onze já não havia mais lugar no Bar do Gordo e nos botecos da Rua Esperança, via principal que, ao final dos seus quase quinhentos metros, abrigava a Praça Treze - local da concentração - e a Igreja Matriz.

Toda periferia do logradouro parecia um caldeirão fumarento. Eram os ambulantes preparando braseiros de assar espetinhos de gato e pipoqueiros com suas panelas de bacon. As barracas dos produtores já preparavam doces de banana, banana frita empanada e refrescos. Todo lado esquerdo da praça era um corredor verde-e-amarelo de camelôs com bandeiras, camisetas, fitas, bonés e cornetas.

Bento Prata, símbolo do folclore bananense, o popular Gavião Beno, já bêbado, previa ufanista defronte os bares, entre as mesas na calçada: "Vamo metê cinco vezes Brasil!". O juiz de direito passou por ele e brincou: "Vou te prender Gavião!". Era o mesmo doutor que Beno não reconhecera na última eleição e quando perguntado "onde havia encontrado cachaça em dia de lei seca", tinha respondido: "pra mim eu achei, se o senhor quiser vire-se!". Agora, depois da ameaça do magistrado lascou: "Só vou se for com meu parceiro Rrrrrrrrrrreeeeedondinho!". Era o cúmplice das farras de Beno, que também atendia por Xeique visto ser dado a ter muitas mulheres.

As beatas olhavam das janelas e as moçoilas vestidas de amarelo, bochechas pintadas, desfilavam seu dia de paqueras, torcida e depois gritinhos histéricos como fã clube de Caturra e Maranhão. O sábado seria a glória.

Duas horas e tanto e a Filarmônica do Maestro Zé Trombeta chegava à Praça. Sapecou um fado, homenagem a Felipão que acabava de eliminar o time da Rainha.

Um vento estranho soprou sobre Bananais. O sol apagou-se repentino, como se tivesse ido ajeitar a maquiagem. Ou amarrar as chuteiras. Um prenúncio de chuva se fez presente, logo dissipado pela passagem da grande nuvem negra. Teria sido uma profecia? Uma lágrima quis cair do céu e não teve coragem? A Natureza tem seus códigos!

Na paróquia o vigário rezava. Noel fechou a barbearia, mas antes apostou cem pratas com o açougueiro que o Brasil levaria uma surra do Zidão e voltaria pra casa. Aliás, ficaria em casa. Afinal, dizia, é por lá mesmo que eles moram!

José Casanova, o argentino, pintor, ainda berôncio com os penais perdidos na véspera, fumava um mentolado atrás do outro procurando o melhor lugar no meio da gentarada. Naquele coração, por certo, havia um pulsar franco-platino de torcida contra os canarinhos. Era dia de vingança.

Nosso "brado retumbante" saiu meio rouco, a cara de Juninho tinha um jeito de temor. Mas a Marselhesa foi autêntica, vibrante, certeira. Lido manifesto bilíngüe. Meia hora de jogo e o Brasil apagado. Parecia o sol de horas antes. A desconfiança pairou ante toda a impotência, falta de chutes, jogo mascado e covarde. Parecia um baseado coletivo. Todos de bode. Lambança, pelada tupiniquim.

Terminado o primeiro tempo o burburinho era ensurdecedor. Robinho era chamado em coro. Cafu jurado de morte pelas risadinhas pós-passes errados e dribles levados. Roberto Carlos, longe de passar emoções, era xingado pela irresponsável lentidão. Nem o Gordo escapava. "Ta com vontade da Raica, Redondão?". Parreira, por aquele povo, estaria algemado e com o camburão esperando à porta do estádio. "Será a primeira vez que um burro entrará na viatura", berrou Lobato - o filósofo-poeta-escritor do lugar.

A turba se enfureceu ainda mais depois do intervalo com o retorno do mesmo time. A pelota rolava outra vez.

Doze minutos de pura tensão. Tinha que ser ele. Cafu fez uma falta próxima da área. Anito, um fedelho loirinho que estudava francês, nariz escorrendo, recitou uma "rima" de capitão com pescoço. Zidão, o Mestre, ajeitou com carinho. Parece até ter dado uma piscadela para Henry. Executou. Redondinha. Girandinha. Roberto Carlos e mais meia dúzia de patetas pararam. Ele para ajeitar a "cinta-liga" (embora eu ache que foi para urinar), os outros para procurar "estrelas", relembrar da Marselhesa ou descansar mesmo. Aquele cruzamento, perfeito em sua trajetória, descreveu em fração de segundos toda tragédia Parreirista para acabar no pé de Henry e fuzilar Dida. Golaço francês. Caquizeiro geral. Implosão na Treze.

Choradeira e mais xingamentos. Cachorros latiam. Zé Foguete de tanta raiva meteu fogo no pavio da bateria do padre, armada atrás da igreja, crianças corriam assustadas e as moçoilas limpavam a lama colorida das maquiagens. Funcionários das Casas Bahia faziam um cordão de isolamento para proteger os televisores das pedradas. Nas janelas as beatas se perguntavam qual seria o milagre e lá dentro da sacristia o vigário benzia o radinho de pilhas ao ouvir uma notícia: os empresários cancelariam o show sertanejo, caso o Brasil perdesse.

Quando entraram Adriano e Cicinho, depois Robinho, aquela praça pareceu roubar o nome da rua. Ainda havia "esperança". Mas durou pouco. Não era o dia. Depois daquela "humilhação fenomenal" do chapéu de Zidão no Fofão, sem remédio. O trilar do apito selava a tragédia. Ou a comédia? Fim de jogo.

O serviço de alto-falante anunciou o cancelamento do show. Em meio aos protestos da multidão enfurecida, gritos dos bêbados, berros inconformados dos fanáticos chutando carrinhos de cachorro quente e latas de lixo, as enferrujadas portas caneladas dos bares se fechavam. Caia a noite e o sino da matriz chamava os fiéis para a missa. Por falta de segurança o vigário cancelou a procissão. Vestiu batina branca, pôs uma estola azul e foi receber as primeiras beatas de bengalas que admiradas se perguntavam: "Será que o Brasil perdeu?!".

Beno Gavião, tísico, dormia babado no banco torto da praça esvaziada. O argentino Casanova, parado na esquina, vingado, sorria entre os dentes para os derradeiros transeuntes de camisa amarela e rota. Noel, sortudo, cem pratas no bolso, comia um doce de banana na única barraca aberta. Mensagem no celular. Um pulo, um soco no ar. Era a notícia que faltava para fechar a noite: fora sorteado no Bolão do Faustão. Agora teria uma barbearia informatizada.

Em tudo é assim. A regra é clara. Muitos chamados. Poucos escolhidos.

Mais tarde acabou a missa. À porta da igreja, para o último fiel de rosto contrito, ainda de camisa amarela, que no átrio terminava suas preces, o vigário fez-lhe o sinal da benção e balbuciou: Au Revoir! Depois disse ao maestro da Filarmônica, lá na rua, que já era hora de parar de tocar Volta Por Cima.

Na capital, em casa, Genefácio Silva, o contestado governador, se doía duplamente entre goles de uma leve e homeopática guampa de banana: adepto do esporte bretão, amaldiçoava Ricardo e Parreira jurando que se um dia fosse presidente iria estatizar a Seleção; frustrado, excomungava o PSDB que havia desistido do apoio ao seu PMDB na eleição estadual.

Coisas do Brasil.


[Todos os locais, logradouros e personagens deste texto são fictícios, à exceção do argentino - meu amigo PP, a quem, juntamente com a querida Heloisa - pela idéia das bananas -, dedico este post.].

Por Ery Roberto | 6:46 PM
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Sábado, Julho 01, 2006

[copa do mundo 2006]
DECEPÇÃO E VERGONHA




Há certos momentos em que a indignação transmuta para a decepção.

E também há momentos que o silêncio, sem que seja traduzido por conformismo, é a melhor atitude. Talvez porque, como quando se perdem coisas mais significantes na vida, palavras ácidas nada resolvem para que se mude um fato consumado.

Apenas é preciso escrever que desde a estréia a Seleção Brasileira foi um desencanto só. E que, embora a crônica tentasse contemporizar, era incompreensível como um grupo (!) descaradamente dividido - tendo como pivô a situação física do maior astro - e a falta de um comando técnico competente pudesse modificar o estado geral de apatia que teve na partida de hoje o seu ápice.

Faltou a vontade de vencer mostrando garra (coisa que seleções como a de Portugal e da Alemanha mostraram nas suas partidas de Quartas-de-Final), faltou comando no banco que transferia sua costumeira apatia para dentro do gramado, faltou coragem para barrar os figurões do time, faltou vergonha na cara. Sobraram estrelismo e vaidades. Mais uma vez entregamos uma das Copas mais fáceis de vencer.

Que fique Parreira com sua covardia, sua incapacidade de mudar, sua empáfia, sua teoria ultrapassada, seu pragmatismo insuportável e seu rótulo de perdedor. Porque quem não acredita, quem não ousa, não merece tirar o lugar de quem assim o faz. Certa estava a torcida em Frankfurt que mandou Parreira "tomar no pescoço", em francês. Parabéns franceses. Sorte e garra na sua seqüência Filipão.

Não sei como se diz em francês "decepção e vergonha", mas acho que seja "tromperie et honte". Nós, torcedores, embora assim, ficamos de cabeça erguida pela conquista definitiva do "FIM DA ERA PARREIRA".

Por Ery Roberto | 6:57 PM
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