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Sexta-feira, Outubro 27, 2006

[realidade pela poesia]
PREMONIÇÃO?


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"Um grave acontecimento
está sendo esperado
e nem Deus e nem a polícia
poderiam evitá-lo".

[Ferreira Gullar, "A Espera", no livro A Vertigem do Dia]





Se por um lado Ferreira Gullar confessa viver sempre resmungando contra os absurdos que marcam a sociedade brasileira e o mundo contemporâneo, de outro, muito clarividente, ensina que seus poemas não podem ser interpretados ao pé da letra, nem poema algum. Cada leitor deve ter a sua leitura própria e sua interpretação.

Ainda em A Vertigem do Dia (livro da década de 80) há outro poema com certa ¿reclamação¿ de Gullar:

"e por mais
banhos que tomemos
e por mais desodorantes
que usemos (...) não se acaba esse cheiro".


O interessante deste aspecto da poesia, ou seja, o fato de proporcionar ampla liberdade de interpretação, é que ela assume ares de inteira contemporaneidade. Como os provérbios dos sábios.

No próximo domingo, dia 29 de outubro, o Brasil terminará de escrever mais um capítulo da sua história democrática. A depender da metodologia crítica de cada cidadão no que tange a situar a temporalidade do contexto que se deva inserir tal seção histórica, haveremos de ter leituras desagradáveis e, ainda mais, nada poéticas.

A delimitação deste capítulo leva-nos obrigatoriamente à apreciação minuciosa do processo eleitoral. Não há como a ele referir-se sem reconhecer ampla decepção. Era de se esperar, em honra da integridade do regime, a máxima clareza de ações, maturidade elevada, debate construtivo, dignidade e efetiva possibilidade de escolha do melhor.

Infelizmente, à vista dos cancros que se instalaram em nossa política, o organismo estatal apodreceu. "e por mais desodorantes que usemos (...) não se acaba esse cheiro".

Do cancro da corrupção escorre um pus que nos obriga ao urgente questionamento geral e irrestrito dos valores básicos do homem e da convivência. A sociedade, como diz a auctoritate eclesiástica do cardeal Geraldo Magela, está contaminada. O descaro é tão grande que os homens do "presidente dos pobres" usam os mesmos pobres como laranjas das suas intermináveis falcatruas e birutices, fazendo-os compradores de dólares para operações criminosas. O ato vai ao encontro da sua propaganda reeleitoral: "o mesmo de novo com a força do povo".

Os institutos de opinião, as redes televisivas e parte da imprensa fabricam resultados degenerados de pesquisas no cínico objetivo de manipular a ignorância e produzir o voto útil.

A instituição jurídica se ajoelha ao Poder Executivo. Em ridículo mudus operandi o ministro da justiça cumpre sua jornada diária como causídico criminalista da União, postado à porta da delegacia do sanatório geral para, dentre outras ações, negociar a impunidade dos delinqüentes.

Dinheiro de caixa dois que compra dossiê, crime de formação de quadrilha, desvios do erário público, pagamento de mensalões, conspirações com a anuência do presidente, mentiras, uso abusivo da máquina governamental, planos miraculosos de perpetuação de poder, enriquecimento ilícito, corporativismo partidário para proteger "dançarina do parlamento", arrogância, assassinamento do vernáculo e outros desajustes menores ainda são possíveis de eventual remédio ou extermínio pela via da ação popular. O que preocupa, no entanto, é um câncer maior: a realidade de um país que, cristalinamente, passa a sofrer ameaça de divisão entre ricos e pobres por obra e ignorância de um perdulário presidente que deverá ser reeleito, para a euforia dos seus irresponsáveis e assistidos "torcedores".

É preciso "dize i ripiti que nóis" [sic] devemos embarcar na liberdade de interpretação da poesia, tão magistralmente explicada pela inteligência "elitista" de Gullar, mas nunca para alimentarmos a espera de um conflito de classes. Melhor será rezar para que o "grave acontecimento esperado", pelo menos, não seja reagente ao desodorante possível, pois moralmente o processo atual é de inteira deterioração dos princípios e por extensão grave ameaça à continuidade da paz social.

Deus que lembre do Brasil!

Por Ery Roberto | 7:02 PM
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Quarta-feira, Outubro 25, 2006

[grandes temas]
LER DEVIA SER PROIBIDO


Existem textos que são irretocáveis. A abordagem do tema "Leitura" promovida por Guiomar de Grammon, utilizando o atalho de irônica negação, é um convite a refletirmos sobre condutas políticas que se contém em agendas assistencialistas, bem como outros problemas, tão brasileiros, a exemplo da acessibilidade -- o preço da boa leitura a torna cada vez mais distante dos jovens e da população em geral.

Ficar aqui falando sobre tão magistral texto seria perda de tempo. Melhor mesmo é lê-lo. E muito mais: sentir sua essência.
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Ilustração: www.ziraldo.com


A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebida. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.




[Guiomar de Grammon, In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro - Argus, 1999. pgs.71-73.]

Por Ery Roberto | 9:09 PM
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Domingo, Outubro 22, 2006

[exercício de memória]
QUEM DISSE ISTO?


É comum ouvirmos ou mesmo afirmarmos que "o brasileiro não tem memória".



Esta frase foi proferida em 1988, por um cidadão brasileiro quando dava entrevista à jornalista Mônica Bergamo.

Você arrisca um palpite? Dica: Mais do que uma afirmação, era um "Plano de Governo".

Por Ery Roberto | 10:46 PM
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Quinta-feira, Outubro 19, 2006

[(gen)ética política]
MENTIR, MENTIR, ATÉ SER VERDADE


ula é um sujeito incompreensível. Às vezes passa uma ingenuidade típica dos homens simples. Em seguida responde a uma questão com o fingimento próprio dos maiores mentirosos da história.

Acabo de ler que na semana passada, ao responder ao jornal O Globo, ele disse que jamais perguntara sobre a origem do dinheiro do dossiê aos "aloprados" do PT. Nesta semana, ao programa Roda Viva, afirmou categoricamente que chamou Berzoini para uma conversa e lhe perguntou sobre a origem do dinheiro.

A impressão que nos deixa é a de um homem perturbado emocionalmente com a possibilidade da reeleição e a manutenção do poder. Faz pensar que pode dizer qualquer coisa que queira para sair de situações difíceis, a qualquer instante e a quem quer que seja. Que no momento seguinte é só telefonar para o "quadrilheiro" citado e pronto. Este se encarregará de completar a mentira e tudo ficará resolvido.

É com o artifício da mentira que estão livrando a culpa do assessor Freud. É com mentiras que recheia o discurso e encarna um exímio contador de fábulas nos palanques pelo Brasil afora. O chavão que no seu governo "corta a própria carne podre" para punir os bandidos do partido é uma declaração tão sem fundamento, a própria balela, que cheira a hipocrisia. Alguns que já deviam ter sido banidos estão sorrindo feito hienas absolvidas nos palanques, promovidos a "claques de auditório" em plena praça.

Ocorre-me uma citação do meu pai que me ensinava e aos meus irmãos, que o "homem bom que eventualmente carrega uma culpa tem vergonha". E é esta vergonha que o faz resolver suas dívidas interiores através da verdade, do reconhecimento e das ações no sentido de apagá-la. Vergonha, todavia, parece não ser atributo de políticos.

Um homem que, para fingir que encara outro homem, gira levemente a cabeça para os lados e é acometido de um leve piscar do olho contrário ao lado do meneio é um ser perigoso. É a tradução do ódio que lhe explode no coração, percorre rapidamente as veias e lhe aplica um choque no semblante. A sensibilidade provocada pela carga quando esta encontra a atmosfera exterior ataca diretamente a retina.

Quando existe ainda a repulsão pelos princípios da sinceridade, com o indivíduo convertido às ações contumazes da mentira e dela fazendo sua própria verdade, ele rompe definitivamente com o último elo possível da vergonha e se torna uma criatura asquerosa, suscita indignação moral, opõe-se ao bom senso, aos costumes e, em se tratando de homem público, ganha definitivamente seu rótulo de tirano.

Lula perdeu-se com o orgasmo do poder. A impotência se refugia no "viagra" da estupidez. E sobre seus ombros recaem mais pesadamente os custos do prazer pela ingenuidade do discurso anterior. Aquele era tão irreal que hoje só resta a mentira para evitar o ridículo. Que é senso. Que já foi jogado fora há muito tempo.

Parece, infelizmente, que o Brasil viverá mais quatro anos difíceis e todos haveremos de pagar por esta escolha. Porque uma grande maioria já se converteu à doutrina da ilusão e hoje se inflama, vive o transe resultante do cálice de ópio da "ex-mentira" sem se importar com seu sabor amargo e a provável dependência.

Por Ery Roberto | 6:29 PM
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Quarta-feira, Outubro 18, 2006

[retórica]
A LINGUAGEM NÃO É NEUTRA


Em qualquer construção lingüística, a objetividade, a neutralidade e a imparcialidade são impossíveis, pois a linguagem está sempre carregada dos pontos de vista, da ideologia, das crenças de quem produz o texto. É salutar ter um mínimo de conhecimento sobre quem narra o fato. Isto ajuda na interpretação e resulta no melhor entendimento dos objetivos do conjunto de expressões.

Falo sobre este tema lá no Livros&Afins. Não deixe de ler.

Por Ery Roberto | 5:54 PM
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Sexta-feira, Outubro 13, 2006

[crônica de feriado]
BEM À TOA


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Passei o feriado à toa. O bom quando a gente fica à toa é que consegue pensar em muitas coisas. E bem melhor, porque não é interrompido por ninguém.

Mas para ficar à toa o sujeito tem que tomar algumas providências básicas, como deixar portas e janelas fechadas, pois em dias assim há muita gente à toa. Algumas pessoas costumam fazer visitas sem avisos. A outra é desligar o celular. Feriado não é dia para receber notícia ruim, seja do patrão ou do colega que ficou de plantão. Nem atender a chata da revendedora de produtos de beleza; ela escolhe justamente o feriado porque sabe que todo mundo está à toa.

Com os disfarces ligados garantindo que ninguém vai aparecer o sujeito ganha liberdade até para andar nu, deitar no tapete e ouvir aqueles discos estocados há meses na prateleira sem nenhuma impressão digital.

Na hora da fome come o que tiver. Afinal os mercados e buffets por quilo estão fechados. Nos shoppings há muita gente à toa e sempre se encontra um à toa conhecido que vai querer emendar papo. São perigosos os que saem para encontrar outro à toa para fazer nada juntos. Estes tipos acabam com o feriado alheio.

Ficar à toa inspira a simplicidade. Se não tiver jornal do dia nem TV e PC ligados a gente é capaz de imaginar o próprio editorial. E o texto não será uma crítica social nem dirá sobre política porque são temas de grande agitação. A mente viaja mais rápida porque está leve. É capaz de levar até aos primeiros amores da vida, repassar por épocas felizes, dias de gáudio.

Quando o sono ataca em plena tarde pode ser um convite a ter um sonho. Um sonho simples que por instantes torna realidade a historinha do editorial. Um conto de solidão que, ilustrando um resumo definitivo, promove o reencontro com o próprio eu e permite a descoberta que nunca estamos sós porque somos muitos em nós mesmos.

Devíamos ficar à toa mais vezes. É a melhor fórmula de reunir todos os nossos "eus" espalhados por tantas épocas e lugares. Costumam aparecer alguns dos quais nem lembrávamos mais. Esta experiência sugere atingir o máximo com o mínimo de elementos. É pura reflexão.

Depois de ficar à toa o sujeito é capaz até de voltar a escrever. Como eu, há oito dias sem assunto.


E para quem gosta, hoje é sexta-feira 13. Bom fim de semana.

Por Ery Roberto | 4:41 PM
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Quarta-feira, Outubro 04, 2006

[poesia & mal traçadas linhas]
ELES POETIZAM, EU RABISCO...


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"Da mesma igreja alvadia
Evolam-se as badaladas
E a reza da Ave-Maria." [Vicente de Carvalho]

Flamejante ocaso desenha a noite
Toldando o céu em louvada arte pura.
Silhuetas emolduram ouro e púrpura... [Ery Roberto Corrêa]

"E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha..." [Raimundo Correia]

Por Ery Roberto | 3:05 PM
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Terça-feira, Outubro 03, 2006

[livros]
CONTRADIÇÕES


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Em "Confesso que Vivi" (memórias), Pablo Neruda referiu-se aos primeiros livros: " ...creio que nenhum artesão pode ter, como o poeta tem, por uma única vez durante a vida, esta sensação embriagadora do primeiro objeto criado por suas mãos, com a desorientação ainda palpitante dos seus sonhos. É um momento que não voltará nunca mais. Virão muitas edições mais cuidadas e belas. Chegarão suas palavras vertidas na taça de outros idiomas como um vinho que cante e perfume em outros lugares da terra. Mas esse minuto em que o primeiro livro sai, com tinta fresca e papel novo, esse minuto de arrebatamento e embriaguez, com som de asas que revoluteiam e de primeira flor que se abre na altura conquistada, esse minuto é único na vida do poeta."

Tenho certeza que a Mônica de Carvalho, na vibrante experiência de tornar seu sonho realidade, já conseguiu descobrir que "esse minuto de arrebatamento" é diferente daquele contado no relógio. A embriaguez de felicidade é o justo prêmio pela dedicação, pelo alcance de um objetivo. O momento a que se refere Neruda é deveras ampliado. Ele dura desde quando se vê a obra pronta, passa pela festa do lançamento e vai além, pois em seguida se transforma no ânimo que renova a possibilidade de gerar outros frutos.

Sinto-me feliz pelo empreendimento de uma grande amiga e particularmente honrado pela deferência a mim concedida em escrever o prefácio deste primogênito literário. Tenho certeza que a "prole" futuramente se multiplicará. "Contradições" é um deleite para quem admira ler um texto claro e que nasce de duas almas que sabem aproveitar suas percepções e lhe acrescentam toques mágicos de sabedoria, contribuindo de forma doce para nossa definitiva compreensão que "é impossível viver sem sonhar".

O lançamento de "Contradições" [Flávia Oliva e Mônica de Carvalho, Editora Scortecci - São Paulo] acontecerá na próxima sexta-feira, dia 6 de outubro, na Livraria da Vila - Casa do Saber, no Itaim Bibi (Rua Mário Ferraz, 414), em São Paulo. Leia mais.

Por Ery Roberto | 2:11 PM
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Segunda-feira, Outubro 02, 2006

[o brasil de hoje]
A ARTE DE SER CAMALEÃO


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Imagem Reuters
[+] sobre a entrevista


O Brasil amanheceu de cara lavada. A expressiva renovação do Congresso Nacional, apesar da reeleição de alguns "mensaleiros" e do retorno à política de Paulo Maluf (às vezes não entendo São Paulo), foi um fato exuberante. Some-se a isto que a nova composição exigirá maior capacidade de articulação do próximo presidente para compor uma sustentação capaz de fazer a máquina andar.

Nada mais significativo, porém, do que o resultado para a Presidência da República. A intensidade do prazer que tenho em escrever neste blog e comentar textos inteligentes em blogs amigos é igual. Em todos que debateram o assunto nestes últimos dias, fui taxativo quanto a minha esperança e fé na virada da oposição. Muitos não acreditavam no segundo turno. E ele veio.

O pontapé inicial desta nova peleja foi dado hoje nas entrevistas de Lula e Alckmin.

O tucano, além das considerações de praxe, abordou como pretende agir. Vai buscar alianças. O partido, mostrando sua organização, já decidiu com quem e como fará. A meta será atrair o PDT de Cristovam, o PMDB e HH. E dividiu as tarefas. Caberá ao próprio Alckmin o "namoro" com o HH. Difícil? Talvez! Mas, não impossível.

Do outro lado, um Lula diferente. Deixou a arrogância para Da. Marisa dar uma "lavada e uma passada" e veio humilde. Respondeu a todos os repórteres, embora fizesse exigências. Foi possível observar suas preocupações quanto aos escândalos ainda em investigação e principalmente notar que, embora não admita, a ausência no debate foi tática errada. Mesmo sem parecer irritado, falando manso e em "português presidencial para situações de improviso", apesar de desvestido da arrogância, passou a idéia que as "sandálias" não lhe ornam. Somente as utiliza quando o patrocínio exige.

A maior contribuição de Lula pós primeiro turno, no entanto, por mais paradoxal que seja -- considerando seu nível de intelectualidade --, foi para a língua portuguesa. Ele mostrou uma nova forma de definir e entender o que seja ser "camaleão".

Antes do pleito meteu o pau com a possibilidade de Collor e Clodovil serem eleitos. Agora, na coletiva, disse com todas as letras que "quanto às pessoas (acusadas): não sou eu que vou questionar o voto de ninguém. Vejam o Collor. Ele voltou. Estava afastado há 14 anos. Com a experiência que tem poderá, se quiser, fazer um trabalho excepcional."

Que experiência terá Collor depois de um governo trágico, deposto e exilado em seu castigo de tantos anos?

A levar em conta esta vocação camaleônica de Lula, é possível dizer que passou para o lado dos bandidos do dossiê, pois se antes os acusava de "bando de aloprados", hoje definitivamente "aloprou-se". E é preciso cuidar porque ele gosta de ser chefe.

Meus amigos, hoje estou mais feliz com o meu país. Onde há "vida inteligente" sempre há esperança.

Por Ery Roberto | 8:21 PM
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