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Quinta-feira, Novembro 30, 2006

[no canadá]
A FABULIS AD FACTA VENIAMUS


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Diriam os romanos:

"Absoluta sententia expositore non indiget. A bove ante, ab asino retro, a muliere undique caveto".

Em bom português:

"A sentença que não dá margem a dúvida não precisa de intérprete. Guarda-te do boi pela frente, do burro por detrás, e da mulher por todos os lados".


[O título deste post é uma expressão atribuída a Cícero e traduzida por "Passemos das lendas aos fatos".]

Por Ery Roberto | 7:51 PM
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Terça-feira, Novembro 28, 2006

[língua portuguesa]
PANDEMIAS DE QUEM NÃO SABE DIZER



Sou enjoado com a língua e, teoricamente, devo às excelentes escolas que me formaram e aos bons livros que são companhias desde a infância. Já na prática, aos meus anos de Banco do Brasil. Quando lá cheguei e tive contato com a correspondência, apaixonei-me pela sua forma, valorização de conteúdo claro e direto. Fui mais longe: estudei por conta própria a evolução, influências e aspectos do vocabulário através do conteúdo imenso de arquivos físicos e lógicos a que tive acesso durante vinte e um anos.

Fato interessante foi descobrir que a linguagem escrita tinha uma influência significativa da linguagem verbal do nosso idioma diário, utilizado em reuniões de trabalho, palestras, cursos e até da linguagem corriqueira que nos unia nos corredores, cantina e restaurante. As áreas de consultoria, processamento de dados e desenvolvimento de sistemas, apesar das suas especificidades técnicas, tinham admirável facilidade de adaptação ao contexto geral da organização.

Esta cultura da linguagem corporativa era tão intensa que chegava a romper fronteiras além banco. Em uma assembléia do sindicato, reunindo vários bancos, era fácil identificar quando o orador era funcionário do BB. Sua capacidade de articulação verbal sobressaía aos demais. E entre uma assembléia geral e uma específica, a organização e nível de entendimento eram singulares.

Mas não vim aqui para falar do BB. Foi apenas uma explicação e um tributo.

Li no Língua Estrangeira que nem só de doenças vivem as epidemias e pandemias. O horroroso, pseudo-intelectual e pernóstico "a nível de" já infesta, além do português, o francês (au niveau de), o espanhol (a nivel de) e o italiano (a livelo de). Segundo o professor e doutor Cláudio Moreno, que escreveu um interessantíssimo artigo sobre o assunto no Jornal Zero Hora de 26/08/03, o "a nível de" deixa o usuário confiante, orgulhoso, crente que está abafando. Essa é uma das chaves da popularidade da expressão, que "serve em qualquer fechadura" e poupa o usuário de escolher a forma mais adequada para cada frase entre locuções como em relação a, quanto a, no que se refere a, relativamente a, no que tange, no que respeita, no âmbito, numa escala, na esfera, no que concerne, no ponto de vista de.

Criar termos e torná-los repetitivos e entediantes, transformando-os em espécie de vício, é uma das características atuais da nossa linguagem falada, mesmo quando se trata de uma oratória oficial (ou que deveria ser).

A maioria resulta de influências midiáticas, como nossa pobre televisão, certas "celebridades", programas de reality shows, personagens do esporte, segmentos profissionais (como o telemarketing) e até da própria religiosidade.

É o caso do defectível "com certeza", introduzido pela jornalista Leda Nagle (ex-apresentadora de entrevistas no jornal Hoje - símbolo de entretenimento na década de 80, e que ainda perdura até hoje na linguagem popular utilizada por representantes de todas as classes, de serventes a universitários, de semi-analfabetos a profissionais liberais. Pode ter sido bom para a época, mas hoje soa mal.

Tem também o "faltou atitude", expressão cunhada possivelmente nos meios futebolísticos para dizer que os jogadores não desempenharam a contento, ou que faltou capacidade técnica para vencer uma partida. Lembro de ter ouvido esta expressão pela primeira vez na verve do técnico Vanderlei Luxemburgo, hoje no Santos. Milton Ribeiro fez uma interessante alusão neste post.

Um outro que muita gente usa e gosta é o doloroso "beijos no coração". Pode existir alguma coisa mais abstrata? Beijo é concretude. É gesto resultante de sentimentos e o ato de tornar algo de origem intangível em "intangível" soa-me, neste caso, como indisposição ou falsidade, pois, se o sentimento vem do seu habitat costumeiro -- o coração --, para que se materialize deve proporcionar um contato através de atitude, audácia benigna, sensibilidade física via exteriorização. Beije na face, nos cabelos, nos olhos, nas coxas, nos seios, nas nádegas, lá, nos pés (ah! santo lugar!). Se preferir, e sobrar tempo, na boca. Se for genérico, apenas "beije". No coração um beijo não chega nunca. E "deixa o órgão trabalhar" (esta todos sabem de onde parodiei).

Desconheço quem o introduziu, mas já ouvi o Pe. Marcelo Rossi e o ator Paulo Cesar Grande, entre outros, usarem esta indecência que, apesar de ter sido criada para agradar, parece mais irritar do que massagear.

O mais recente veio da verve refinada do técnico Dunga, da seleção brasileira. Para responder a entrevista sobre sua maneira de vestir, que é obra de uma filha estilista de moda, ele apresentou ao mundo (após o último jogo na Basiléia), o inimitável "sugerimentos". Foi de doer os tímpanos da alma. Fernando Cals já falou deste assunto com muita propriedade e ótimo humor. Faz nova citação neste post.

Fico imaginando esta linguagem no Banco do Brasil de hoje, em completo paradoxo a tudo que lá vivi, aprendi e admirei. O gerente de projetos, garotão da moda, seus trinta anos, em e-mail para a colega da equipe:


Caríssima colega,

Sobre nosso projeto, a nível de apresentação aos colaboradores, tipo... aquele trabalho exibido com datashow. O Chefe mandou estarmos estudando um bom update. Acha que faltou atitude para vendermos a idéia. Podemos fazer melhor, com certeza. Vamos reunir os responsáveis e tratar de pedir uns sugerimentos. Sei que não ficará desmotivada com esta crítica, exatamente porque sabe que conheço sua competência.
Beijos no coração


Não daria pra ser feliz.

Por Ery Roberto | 8:35 AM
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Domingo, Novembro 26, 2006

[programas educacionais]
LAPTOP PARA TODOS


Nosso cacique-mor ficou entusiasmado com o laptop popular.

Até que o objetivo da OLPC (Organização Não-Governamental One Laptop Per Child), braço do Instituto de Tecnologia de Massachussets (EUA), é ótimo, pois utilizar um equipamento assim não para fazer com que as crianças aprendam sobre computadores, mas para que "aprendam a aprender" é louvável. Porém, como tudo que é bom e trazido para o sistema educacional brasileiro tem seu objetivo distorcido, será que o tal laptop não se transformará em mais uma bugiganga?

Pelo teor das notícias que ilustram as intenções do empreendimento do nosso governo, parece-me uma grande bobagem. Apenas mais um gesto populista sem conseqüências duradoras. Parece brinquedo, parece apenas mais um gesto impotente, outra tentativa ilusória de resolver as carências tupiniquins.

E cá pra nós: aberto, não parece "a manivela"?

Por Ery Roberto | 9:15 PM
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Sábado, Novembro 25, 2006

[futebol]
QUEM SANGROU O COXA?


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Quando um grupo não alcança seu objetivo, é normal procurar culpados. A tragédia Coxa-Branca também não foge a este conceito. Após outro fracasso, reverbera a pergunta que não quer calar: Quem é o culpado? A Diretoria? O Departamento de Futebol? A Comissão Técnica? A sorte? Os adversários? A torcida?

Prefiro comentar apenas os dois extremos. De um lado a Direção que representa o projeto e de outro a torcida que foi suporte. Esta, deu o máximo movida pela paixão. Mesmo magoada e sofrida, jamais tirou a camisa. Pagando, suou debaixo do sol, encharcou-se debaixo da chuva. Viajou, passou desconfortos, apoiou, rasgou a sua garganta com o sagrado grito "Coxa Eu Te Amo". Deu o suporte necessário ao incentivo, passou energias pela sua esperança, pelo sorriso, pela lágrima. Doou, com uma média superior a 10.000 vozes por jogo, a ajuda possível, honrando a imaculada camisa 12. Atingiu o ápice da esperança quando marcou o recorde de 32.000 presenças no jogo da decepção contra o Galo Mineiro. Mostrou sua verdade ao escancarar paixão, distribuir amor, mesmo ante a angústia da realidade.

No outro limite, a Diretoria. Esta "mentiu" ao esconder a crise, foi incompetente ao contratar errado seus personagens de execução do projeto. Foi irresponsável ao não ter reavaliado as etapas e covarde por não ter definido mudanças. Foi arrogante ao mostrar que tudo podia sem nada ter. Foi inerte quando deveria mover.

Agora resta o dever do difícil e penoso recomeço. Quem irá fazer isto com um suporte ofendido e descrente eu não sei. Só sei que, hoje, ao ver o belíssimo exemplo do Atlético Mineiro comemorando seu título e o retorno à elite do futebol (com dois estádios lotados!) e o exemplo dos outros três -- Sport, Náutico e América-RN -- me entristeço um pouco mais com o sabor amargo desta lágrima que me escorre e salga a face de desgosto.

Alguns homens deveriam reconhecer o valor de um velho dito: "quem não tem competência não se estabelece". E aprender que quando uma causa é coletiva o egoísmo não tem lugar.


[Este comentário também foi publicado no jornal Tribuna do Paraná, de Curitiba, versão online (só para cadastrados), em 25.11.2006]

Por Ery Roberto | 11:09 PM
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Quinta-feira, Novembro 23, 2006

[bem estar]
VIDA ATRAVÉS DA CONSCIÊNCIA BIOLÓGICA


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Somos as únicas criaturas na face da terra capazes de mudar nossa biologia pelo que pensamos e sentimos. Somos mutantes. Nossas células estão constantemente bisbilhotando nossos pensamentos e sendo modificadas por eles. Um surto de depressão pode arrasar o sistema imunológico; apaixonar-se, ao contrário, pode fortificá-lo tremendamente.

A alegria e a realização nos mantêm saudáveis e prolongam a vida. A simples recordação de uma situação estressante, que não passa de um fio de pensamento, libera o mesmo fluxo de hormônios destrutivos que o próprio estresse.

As células estão constantemente processando as experiências, metabolizando-as de acordo com nossos pontos de vista pessoais.

Não se pode simplesmente captar dados brutos e carimbá-los com um julgamento.

A transformação ocorre na interpretação e quando esta é internalizada.

Quem está deprimido por causa da perda de um emprego projeta tristeza por toda parte no corpo - a produção de neurotransmissores por parte do cérebro reduz-se, o nível de hormônios baixa, o ciclo de sono é interrompido, os receptores neuropeptiídicos na superfície externa das células da pele tornam-se distorcidos, as plaquetas sanguíneas ficam mais viscosas e mais propensas a formar grumos e até as lágrimas contêm traços químicos diferentes das lágrimas de alegria.

Todo este perfil bioquímico será drasticamente alterado quando a pessoa encontra uma nova posição. Isto reforça a grande necessidade de usar nossa consciência para criar os corpos que realmente desejamos.

A ansiedade por causa de um exame acaba passando, assim como a depressão por causa de um emprego perdido.

O processo de envelhecimento, contudo, tem que ser combatido a cada dia.

Shakespeare não estava sendo metafórico quando Próspero disse: "Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos".

Você quer saber como está seu corpo hoje? Lembre-se do que pensou ontem. Quer saber como estará seu corpo amanhã? Olhe seus pensamentos hoje!

Ou você abre seu coração, ou algum cardiologista o fará por você!




[Deepak Chopra - indiano radicado nos EUA desde a década de 70, médico formado na Índia, com especialização em Endocrinologia nos Estados Unidos. Filósofo de reputação internacional, já escreveu mais de 35 livros e é um dos mais respeitados pensadores da atualidade.]


Confesso que este texto (recebido por e-mail) me marcou profundamente. Além da transmissão de belos conhecimentos quanto ao funcionamento do organismo, remete a profundas reflexões sobre o comportamento da consciência e os reflexos que se produzem a partir do excesso de trabalho que lhe impomos através das preocupações.

Ante situação de estresse, no lugar da saudável busca da reposição orgânica que se consegue desde a emissão de pensamentos positivos até as inúmeras atividades alternativas e o próprio relaxamento, entregamo-nos às horas extras da idéia fixa e antecipada que perturba o espírito a ponto de produzir sofrimento moral. Fabricamos o pensamento dominante que tem imensa força de sobreposição a qualquer outro, acabando por propagar uma opinião antecipada que é revestida de incontrolável preconceito.

A preocupação é um gasto desnecessário de energias antes da hora certa para algo que nem sabemos se acontecerá. Nossa consciência é levada ao estágio de incompetência para gerenciar um caos hipotético. Precisamos alento e cuidado para evitar o incêndio criminoso que, segundo o Dr. Deepak tão bem demonstra, pode destruir total ou parcialmente as nossas estruturas. Em qualquer caso, o rescaldo será extremamente doloroso, tanto para nós quanto para os outros.

Percebamos, finalmente, que maravilha se contém nesta máquina fantástica conhecida como corpo humano. Produto do sentimento, a significativa lágrima é capaz de se diferenciar exatamente pelo tipo de reação química que promovemos através das nossas ações e pensamentos. Não é mágico. É divino. E se matéria de sonho, é insumo de nós mesmos e assim realidade que construímos.

Por Ery Roberto | 1:03 PM
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Terça-feira, Novembro 21, 2006

[o brasil de hoje]
AEROPORTO 2006


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Em julho de 2005 fiz uma viagem de ônibus de Curitiba a São José do Rio Preto, interior de São Paulo (570 km). Recebi a incumbência de levar meu ex-sogro a uma consulta médica especializada. Seu problema, decorrente de acidente vascular cerebral, obrigava-o a necessidades especiais.

Nosso embarque estava previsto para às 19h50 daquela sexta-feira fria e de chuva torrencial. Próximo das sete e meia fui ao balcão da companhia para confirmar o portão de embarque. A rodoviária de Curitiba tem um ótimo serviço de orientação e tratamento dos passageiros, mas naquela noite havia certo tumulto cujo motivo poucos sabiam até aquele momento.

Já dentro de período de embarque, consagrados 15 minutos anteriores ao horário da viagem, percebemos que o serviço de som não havia anunciado a liberação do carro e a confirmação da partida. Meu companheiro de viagem, por natureza impaciente e por circunstâncias extremamente agitado e em desconforto, postado à entrada da plataforma, sentado sobre a bagagem, dava-me sucessivas "ordens" para que retornasse ao balcão à busca de novas informações.

Foi-me comunicada por uma atendente a ocorrência de grave acidente na rodovia, motivo pelo qual não havia qualquer previsão para a saída de Curitiba, visto que o tráfego havia sido interrompido e que aguardavam autorização para confirmar o embarque. Recomendou-me, ainda, a permanecer tranqüilo porque a companhia faria o chamado tradicional no momento em que fosse possível iniciar os procedimentos de embarque.

O fato intrigou-me mais ainda porque o tumulto aumentava e não aconteciam chegadas de ônibus procedentes de São Paulo e do interior do Paraná. Mais tarde, já enturmados com os demais passageiros, soubemos o motivo da alteração da rotina. Os carros não chegavam porque dois acidentes graves haviam ocorrido nos trechos São Paulo - Curitiba e Florianópolis - Curitiba, cujas rodovias realmente tinham sido temporariamente interditadas.

A impaciência do meu companheiro foi me contagiando e não dei folga alguma aos funcionários da empresa. Quando lá retornei pela quarta vez, por volta das duas horas da madrugada, fiquei indignado. Um funcionário do novo turno, com a cara mais assustada do mundo, sem parar de gaguejar, me informou que a partida já havia acontecida minutos atrás. Somente naquele momento me foi dito que a linha Curitiba - S.José do Rio Preto era uma espécie de subtrecho da linha Florianópolis - Cuiabá. Que por força da interdição da rodovia aconteceram imprevistos geradores de certo descumprimento da rotina, mas que um funcionário havia feito chamada de viva voz à porta de entrada para a plataforma. Que um terceiro passageiro também havia perdido o embarque e que outros dois compareceram ao "evento".

Fui duro. Fiz discurso. Fiz exigências. Apelei para o emocional. Briguei. Preenchi um BO. Nada adiantou.

Duro foi dar a notícia ao ex-sogro. Fomos convidados a ocupar uma sala da companhia, onde pedimos café, chá, água, sanduíches, bolachas, leituras, TV e cobertores, já que a chuva torrencial e a ausência de um chefe com poder decisório - que só chegaria pela manhã - nos impedia de voltar para casa.

Passei a noite conversando com uma plantonista de olhos verdes cujo sorriso alentador me impedia de sonhar ou roncar. Ficamos amigos. Ainda sobrou tempo para ler Camus - eu tinha levado "A Queda". O companheiro passou o tempo tomando chá e indo ao banheiro. Pelo menos isto ele conseguia fazer sozinho. Pela manhã o agente resolveu nosso problema com pedidos de desculpas e a transferência das passagens para outra companhia que tinha partida para Cuiabá, às 08h30. Reembolsou-nos em espécie a diferença do preço dos bilhetes. Chegamos à Rio Preto na tardinha de sábado.

Apesar da imperdoável falha de comunicação e do péssimo atendimento de dois funcionários do turno da tarde, a companhia nos tratou como seres humanos, não medindo nenhum esforço para fornecer o que pedimos (inclusive uma TV portátil, além do sofá que veio como brinde). Nestas situações, além do lado material, qualquer passageiro precisa de atenção e carinho. Tem que receber o maior conforto para que suas necessidades sejam atendidas, bem como sentir confiança naquilo que os responsáveis lhe oferecem como perspectivas futuras, para que não se frustrem os objetivos para os quais se preparou e mudou sua rotina.

Fico imaginando o que seja para uma senhora de cem anos ficar sentada por horas intermináveis no banco do aeroporto, sem algum gesto de carinho ou a iniciativa de um atendimento diferenciado. Fico imaginando a indignação de pessoas com compromissos assumidos serem maltratadas no saguão durante doze horas de espera por um vôo. Compreendo o impulso dessas pessoas em tomarem decisão de invadir a pista do aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, em gesto de protesto contra a situação caótica que impera no sistema aeroviário do país.

Só não entendo a Polícia Federal, de arma em punho, indispor-se contra cidadãos cheios de motivos incontestáveis, para supostamente "cumprir a sua honrosa função" de manter a ordem.

Os problemas do país não serão resolvidos enquanto autoridades deixarem de lembrar que o respeito ao próximo é parte essencial da questão. A melhor logística, o mais avançado aparato técnico e o melhor quadro funcional, tanto quantitativo quanto qualificativo, de nada adiantará caso a arrogância, os abusos e o descaso se sobreponham aos direitos da cidadania e aos direitos da pessoa humana.

Por Ery Roberto | 6:32 PM
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Sexta-feira, Novembro 10, 2006

[literatura]
A CARTA DA SOLIDÃO


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Imagem de Cristóbal Vila


embro-me dos primeiros exercícios de redação, ainda na escola primária da década sessentista. Mais do que apenas uma forma de treinamento e aprendizado da língua, redigir uma carta tinha o objetivo de mostrarmos a capacidade de expressão mais familiar. Além de ser considerada uma forma oficial de comunicação, a carta também proporciona a possibilidade mais concreta da troca profunda e íntima de sentimentos entre as pessoas.

Como peça literária a carta tem um valor reconhecível dentro da história do Brasil desde a época do descobrimento. Foi através desta forma de comunicação que Pero Vaz de Caminha fez chegar ao rei de Portugal as primeiras impressões sobre a nova terra. Igualmente, em épocas distintas da vida brasileira, ela se fez presente para cumprir um papel importante cujo registro histórico nos faz compreender situações políticas, participações em lutas e importância dos movimentos sociais.

O costume de escrever cartas enraizou-se em nossa sociedade através dos tempos. Ainda hoje, em plena era da informática, onde a maioria das mensagens trocadas têm nos sistemas eletrônicos de recebimento imediato sua principal demanda, é comum o uso da remessa epistolar tradicional.

O indefectível binômio "papel e envelope" tem em sua essência o poder de produzir uma quase indefinível carga emotiva tanto em quem a escreve e remete quanto em quem a recebe.

Este particular já foi retratado pela arte em seus diversos segmentos, seja a própria literatura, o cinema e a música. Nesta, desde as ingênuas letras da Jovem Guarda, como "Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor / Porque veio a saudade visitar meu coração..." (A Carta, Erasmo e Roberto Carlos) até "Mãe, / Cuida da maninha e do irmão / De tudo que deixei / Dá um beijo no pai / Manda um alô / Praquele velho pessoal / Pra moça da esquina / Pro moleque do jornal..." (Carta À Mãe, Gilberto Gil) e o magistral "Samba de Orly", de Chico, Vinicius e Toquinho, que é uma verdadeira fotografia. Um momento especial da época da Ditadura Militar no Brasil, como que congelado em uma imagem musical, onde a vontade de dar e querer notícias foi transmitida através de uma canção única e de extrema representação histórica. Outra referência viva é "Meu Caro Amigo", de Chico, que foi dirigida ao teatrólogo Augusto Boal, que na época estava exilado em Lisboa. Veja neste endereço Notas "sobre Samba de Orly" e "sobre Meu Caro Amigo".

De Vinicius de Moraes, por exemplo, temos 215 cartas, em Querido Poeta. A obra organizada por Ruy Castro e publicada pela Companhia das Letras veio enriquecer as prateleiras das livrarias com um gênero que tem feito muito sucesso no mercado editorial, a chamada autobiografia epistolar. É do mesmo Vinícius o texto "A um jovem poeta", de 1965, que soa como uma bela carta dirigida a um amigo.

Além de Vinicius, Fernando Sabino manteve, ao longo da vida, uma regular correspondência com outros autores. Essas cartas, aos poucos, se tornaram livros, a exemplo de Cartas na Mesa, que revela a amizade construída com Hélio Pellegrino, Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos. Também Cartas Perto do Coração, revelação de um doce diálogo entre Sabino e Clarice Lispector. O mais recente, Cartas a um Jovem Escritor e Suas Respostas, é um livro que reúne a troca com Mário de Andrade, outro inveterado missivista.

No panorama internacional um dos maiores best-seller do século XVIII trata-se do romance epistolar A Nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau. Outra referência literária, considerada pura essência do romantismo, está nas missivas de O Sofrimento do Jovem Werther, de Goethe. A epistolografia usou ao máximo as cartas para produzir verdadeiros clássicos como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Ligações Perigosas, de Choderlos de Lacros e Drácula, de Bran Stoker.

Além de todos os seus significados intrínsecos, a carta contém uma magia essencial. Quando manuscrita, as energias repassadas através da caligrafia são intensas e altamente perceptíveis. A partir da sua construção é possível sentir o que se passa na alma, ter a exata noção do estado de espírito e do conjunto sentimental que se materializa através das letras.

As cartas trocadas pelos grandes poetas e escritores, além de nos transmitir a visão e o exemplo da sua intimidade espiritual, dão-nos a oportunidade de contato com peças magistrais da escorreita gramática, motivo principal pelo que se tornaram fabulosos componentes da nossa literatura.

É também o caso de Machado de Assis. Contumaz escritor de cartas aos seus grandes amigos, em novembro de 1904, ao perder Carolina, sua mulher, dirigiu-se a Joaquim Nabuco em missiva exemplar para lhe agradecer pelas condolências. Nesta, com elegância estilística incapaz de ser lida como falsidade, ele escancarou a alma para lamentar sua solidão e esboçar sua conformação em ter amigos como ele, embora tão distante.

Nabuco, dez anos mais moço, estava em Londres. Machado tinha 65 e morreria quatro anos depois.

A Revista Língua Portuguesa, edição nº 12, out/2006, reproduz e comenta esta carta com toda sua carga de emotividade, beleza estrutural, gramática limpa e show de estilo.


Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904


Meu caro Nabuco,


Tão longe, e em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça, e você expressou a sua simpatia por um telegrama.

A única palavra com que lhe agradeci é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha.

Foi-se a melhor parte da minha vida e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum.

Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.

Não posso, caro amigo, responder agora à sua carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do falecimento de minha mulher, e você compreende que apenas posso falar deste fundo golpe.

Até outra e breve; então lhe direi o que convém ao assunto daquela carta que, pelo afeto e sinceridade, chegou à hora dos melhores remédios. Aceite este abraço do triste amigo velho

Machado de Assis



Por Ery Roberto | 10:10 PM
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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

[esporte]
MENINAS DO BRASIL


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Imagem: AFP/UOL Esporte


Se ficar acordado por uma mulher já é bom, nem ir dormir por seis belas e bravas guerreiras é bom demais. Principalmente quando se tratam dessas magníficas "meninas brasileiras" do volei.

Nesta madrugada, no Japão, elas foram fantásticas. A Seleção jogou uma partida memorável ao derrotar as chinesas, atuais campeãs olímpicas, por 3 sets a 2, após perder os dois primeiros sets. Jaqueline, Sheila e Walewska fizeram a diferença no ataque e bloqueio.

Uma partida digna de ser uma final do Campeonato Mundial e cujo resultado foi muito comemorado justamente porque em 2002, no mesmo torneio, nossas meninas haviam sido eliminadas pelas orientais. Hoje veio o troco.

Fosse escolher a mais competente no jogo, meu voto seria da Sheila. E se fosse para escolher a mais bonita também. Valeu a madrugada.

Por Ery Roberto | 12:47 PM
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Terça-feira, Novembro 07, 2006

[internet]
VIOLAÇÃO DE SIGILO


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Todos são criminosos até prova em contrário. E para que se consolide a prova é preciso que a liberdade seja cerceada, via privação da individualidade da pessoa.

Ao ler esta introdução o leitor poderá pensar que o assunto deriva da análise do cotidiano político de alguma ditadura remanescente no mundo. Muitos, no entanto, ficarão (ou já estão) surpresos e indignados por, além de saberem que se trata de medida analógica em aprovação na "democracia brasileira", descobrirem que a lei será apenas mais uma que se prestará a burocratizar o exercício dos direitos individuais e além de tudo, paradoxalmente, servir para expor ainda mais os usuários da rede mundial aos crimes cibernéticos.

A Comissão de Constituição de Justiça do Senado está votando substitutivo do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para três projetos de lei que tramitam em conjunto pelo Congresso Nacional, que trata da regulamentação do uso e repressão aos crimes de informática no Brasil. O conjunto, caso aprovado, provocará significativa mudança na maneira de acesso à Internet no país.

Discordar que uma rígida regulamentação do uso da rede mundial possa efetivamente combater os crimes virtuais é subestimar o potencial de ações possíveis dentro deste novíssimo contexto de comunicação no mundo. Todavia o que de certa forma deixa indignado o usuário esclarecido é o aspecto filosófico da concepção da lei, o que em nosso caso parece deixar de lado qualquer compatibilidade com os preceitos da legislação maior emanada da Constituição Federal.

Os mecanismos da rede mundial levam a pessoa a qualquer lugar do país e do planeta sob diversas formas de entendimento. A informação é insumo da comunicação entre os indivíduos e neste processo há o conceito de independência. Não há como democratizar a informação sem que seja respeitado o preceito básico da liberdade, direito inalienável do cidadão de bem. Ferir este postulado é atentar contra os saudáveis princípios democráticos.

O projeto visa à identificação dos internautas que naveguem por serviços brasileiros em que haja interatividade. Neste conjugado entram as salas de bate-papos e demais mecanismos de comunicação instantânea, envio de mensagens eletrônicas e postagem de textos para blogs. Além do mais, obriga a identificação para quem faz captura de dados, casos típicos de músicas e imagens.

A polêmica ganha novos contornos quando pensados os óbices da operacionalização da lei. O governo pretende, em resumo, incentivar a geração de cartórios eletrônicos, cuja função será a de cuidar de um cadastro de usuários, base para o registro e controle dos acessos aos serviços da grande rede. Pretende atribuir tal poder aos provedores. A partir deste conceito, use o artifício da analogia e imagine chegar ao balcão dos Correios para remeter uma carta a um parente. Lá, para que o serviço seja executado, você é obrigado a fornecer seus dados pessoais através de um documento de identidade que é anotado e passará a fazer parte de um histórico cadastral, guardado por um período de tempo com a finalidade única de se transformar em prova que sua carta não era instrumento componente ativo do cometimento de um delito.

Igualmente, você estando fora do seu domicílio, dirige-se ao posto telefônico para fazer uma ligação aos seus filhos. Para que o serviço seja completado o "birô" lhe solicita o preenchimento de uma ficha com seus dados pessoais a fim de registrar o fato, caracterizando uma seqüência típica de quebra antecipada do seu sigilo telefônico. Esta ação será perfeitamente similar a obrigatoriedade do usuário se identificar quando do uso de aplicativos destinados a comunicação instantânea pela Internet.

São, em ambas as situações, atitudes castradoras da liberdade individual e do direito de ser anônimo em qualquer procedimento que não prejudica o mesmo direito ou a vida de terceiros.

No caso dos blogs, que está mais diretamente ligado ao nosso contexto particular, a medida ultrapassa as raias do absurdo quando lembramos da obrigatoriedade já existente de se efetuar um cadastro perante os portais prestadores deste serviço. Óbvio que existem aqueles que se arvoram em prestar dados falsos ou se identificar através de pseudônimos, mas é preciso convir que já temos outros mecanismos capazes de localizar o equipamento de onde se originou tal informação ou qualquer transferência de dados.

À luz de todas as possibilidades e artifícios técnicos presentes na informática, sem contar com outros tantos possíveis de desenvolver com o conhecimento específico e, principalmente, aberto o conjunto sagrado dos princípios constitucionais, é de se concluir que o legislativo perde tempo e prioriza suas energias em direções espúrias e contrárias aos maiores interesses do povo.

Se olharmos para os estadistas norte-americanos Alexander Hamilton (1757-1804) e James Madison (1751-1836), ou para o estadista e filósofo francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), o grande professor da teoria da democracia americana, poderíamos aprender muito sobre o entendimento e a aplicabilidade do regime. Tocqueville afirmou em El Antiguo Régimen y la Revolución II, p.100 que "Lo que más confusión provoca en el espíritu es el uso que hace de estas palabras: democracia, instituciones democráticas, gobierno democrático. Mientras no se las defina claramente y no se llegue a un entendimiento sobre su definición, se vivirá en una confusión de ideas inextricable, con gran ventaja para los demagogos y los déspotas".

Em bom português, "O que provoca mais confusão no espírito é o uso que se faz destas palavras: democracia, instituições democráticas, governo democrático. Enquanto não as definirmos claramente e não se chegue a um entendimento sobre sua definição, se viverá uma confusão de idéias inexplicáveis, com grande vantagem para os demagogos e os tiranos".

Exatamente em um momento considerado maior na história da democracia brasileira, vivido recentemente com mais uma edição de eleições livres no âmbito majoritário e legislativo, sentimo-nos traídos por políticos que se trajam na incompetência, se calçam na burocracia, se perfumam no retrocesso, usam o chapéu do autoritarismo e escrevem projetos estúpidos com a caneta da censura.

O Big Brother de Orwel nunca esteve tão próximo.



Ainda ao falar sobre a democracia americana, Tocqueville concluía que "essa forma de democracia e de instituições de liberdade ordenada pode ajudar o governo popular a trabalhar com um mínimo de virtude e, ainda assim, a tomar decisões sábias. Isso é necessário porque a virtude não é mercadoria facilmente encontrada; via de regra, não há muita virtude em qualquer grupo de pessoas. Esse é o porquê da constituição política dever trabalhar bem com um mínimo de virtude, mas caso as pessoas não possuam nem mesmo esse mínimo, estão perdidas. Se o povo continuar a querer algo errado por um longo período de tempo, nenhuma lei ou forma de governo pode salvar o país. A democracia não pode trabalhar sem a virtude; essa é a idéia de liberdade verdadeira ou ordenada".

Para oxigenar a memória, o senador Eduardo Azeredo tem seu nome registrado como suspeito de ter se envolvido com o episódio Mensalão. É, sem dúvidas, uma virtude interessante!
- [07.nov.2006 | 20h59]

Hoje, durante a tarde, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado adiou a votação do projeto de lei que controla o acesso à internet e prevê penas para crimes virtuais. Deverá ser feita uma audiência pública para ampliar o debate. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), havia defendido o adiamento da votação. Para Renan, é fundamental estabelecer o debate sobre o assunto. "É preciso equilibrar a necessidade de uma legislação para crimes na internet com o respeito à liberdade de expressão e sigilo de dados pessoais", disse ele. [+]

Por Ery Roberto | 6:03 PM
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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

[mal traçadas linhas]
HAICAI


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ocaso da lida
ledo embuste do tempo
não dura uma vida


Por Ery Roberto | 2:23 PM
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Quarta-feira, Novembro 01, 2006

[humor]
IDEAL AMERICANO


Este trabalho foi desenvolvido por estudantes brasileiros. Simplesmente bárbaro!

Veja neste link.

Hoje também estou no Livros&Afins, com "Trabalho Infantil". É uma mensagem forte ilustrada por um ato de cidadania. Não deixe de ler.

Por Ery Roberto | 7:21 PM
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