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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

[bebida dos deuses]
IN VINO VERITAS


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A videira, segundo textos consagrados, é símbolo explícito do Reino dos Céus e seu fruto - o vinho - sinal de libertação da morte.

Ela é mística. Sua dualidade --sacra e profana-- desde tempos imemoriais esteve presente pelos caminhos da história. Na descrição do Éden, o Paraíso Terreal, era a "Árvore da Vida". As representações das mais antigas tradições iconográficas demonstram o lado sagrado, posteriormente substituído pela macieira e seu "fruto da tentação" como virtual significação do pecado.

Diz Luis Calheiros, pintor, professor e investigador da Teoria da Arte que "Israel, adaptando mitos vários, mais arcaicos, considera a videira, a par da oliveira, como uma das plantas messiânicas. Desde as mais remotas origens que a videira tem um sentido claramente vivificador, propiciador e garantia da vida. O vinho é também o símbolo maior da revelação - da verdade - in vino veritas - resultando no delírio inebriante que paradoxalmente traz lucidez. E a videira é ainda o símbolo da imortalidade, à qual os diversos ritos, os vários rituais dos ciclos naturais, destinados a propiciar a fertilidade e abundância de frutos e a sua renovação anual, prestam culto e preparam os iniciados".

Se a vida só é definitivamente vivida através da troca profunda desfrutável através do amor, vejo em Goethe uma definição perfeita: "Uma jovem e um copo de vinho curam qualquer necessidade; quem não bebe e não beija está pior que morto."

A Igreja embora se apegue no texto bíblico tanto do Velho como do Novo Testamento, casos das histórias de Ló e suas filhas no tempo de Abraão (Gen 19:31-38), de Nadabe e Abiú --os filhos de Arão-- (Lev.10), dos profetas e sacerdotes na época de Isaías (Isa 28:7), da embriaguez dos coríntios (I Cor 11) e da bebida dentro da Igreja de Éfeso (Efe 5:18), colocou o vinho como simbologia máxima de um dos seus sete sacramentos. A teologia defende que no milagre das bodas de Caná Cristo transformou água em um vinho diferente, não fermentado, não embriagante, porque conhecia toda palavra, a exemplo do que se continha em Provérbios 23:31 ("Não olhes para o vinho quando se mostra vermelho (ou fermentado), quando resplandece no copo e se escoa suavemente") e Habacuque 2:15-16: "Ai daquele que da de beber ao seu próximo, adicionando à bebida o seu furor, e que o embebeda para ver a sua nudez!".

Parece-me bastante lógico que "nudez" nas palavras do profeta ganhe um sentido amplificado para se constituir em bela metáfora. Transferido para o pensamento de Cristo é possível vê-la com exuberante significação, pois embriagado o homem expõe as suas fraquezas interiores ao perder o domínio da racionalidade. O descontrole emocional é capaz de revelar seu lado cruel através das chamas pecaminosas.

Mas o vinho ensina. Do contrário não seriam sábias as palavras do próprio Dom Helder Câmara: "Agora que a velhice começa preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo, e sobretudo, escapar do perigo terrível de envelhecendo virar vinagre."

No campo da Arte é compreensível a associação do vinho pelo êxtase delirante que conduz ao inebriamento e a alucinação inspirada, espécie de lúcido delírio capaz de provocar e potencializar a criação artística. O maior exemplo está na civilização clássica ao mostrar a transformação das festas em honra a Dionísio (o deus grego do vinho e da vinha) no drama arcaico, na forma convencional do diálogo entre o coro e o ator recitativo dos ditirambos, que está na base da tragédia grega. O modelo da manifestação artística que é o teatro antigo grego e todo seu conjunto de artes cênicas, dramáticas (a que pertence também a comédia) está nos primórdios da arte ocidental, nascida no período arcaico, o pré-clássico, da cultura grega, e teve origem certa nas cerimônias propiciadoras dos cultos ao Deus do Vinho, sob a forma de representações mímicas e de expressões tão características.

Isto é confirmado no pensamento de Aristóteles quando relacionou a origem da tragédia com o "ditirambo", verso e canto coral em honra a Dionísio.

No apogeu da tragédia grega é Sófocles quem ensina: A poética será definida como "a arte de dizer a verdade do sonhar" - a arte da verdade instintiva revelada pela embriaguez que, por exaltante paradoxo, se torna lucidez.

Neste contexto é impossível deixar de transigir com os ensinamentos sobre a moderação. É espetacular a lembrança de Eubulus (355-346 a.C.), administrador de Atenas, em "As dez taças de vinho": "Eu preparo três taças para o moderado: uma para a saúde, que ele sorverá primeiro, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Quando essa taça acabou, os convidados sábios vão para casa. A quarta é a menos demorada, mas é a da violência. A quinta é a do tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do policial, a nona a da ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira."

Na literatura brasileira encontramos em Quintana e Pessoa menções fabulosas ao vinho. O primeiro exalta-o a partir da companhia, da necessidade de dividir silenciosamente, como um tributo à glória dos deuses: "Por mais raro que seja, ou mais antigo, / Só um vinho é deveras excelente. / Aquele que tu bebes, docemente, / Com teu mais velho e silencioso amigo."; o segundo nos induz a idéia de completude com "Boa é a vida, mas melhor é o vinho".

Como a comédia está presente, fica impossível não mencionar Keith Floyd, Chefe da BBB, em grande sacada: "Uma cozinha sem saca-rolhas é apenas um cômodo da casa".

E você, caro leitor? Anda desinspirado e comendo sagu? Ou preocupado com a "barriguinha cervejeira" que ganhou neste verão? Transforme-se! Brinde à vida. Comece escrevendo nos comentários seu conceito sobre o vinho. Isto ajuda.

Por Ery Roberto | 9:14 PM
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Domingo, Fevereiro 18, 2007

[literatura]
O VENDEDOR DE ESTRELAS


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"A insônia de um solteirão é o pior capítulo do celibato".


Se não fosse a imediata identificação com o conto a partir da verdade estampada em sua primeira linha, certamente a promessa estranha daquele ancião, dito "vendedor de estrelas", já teria por associação ou extrema semelhança com os bons roteiros do suspense obrigado à continuidade da leitura atenta da ficção de Olavo Drummond.

Na madrugada a quebra repentina da solidão de Jason, em hora tão imprópria para um comerciante que bate à porta da casa e ainda confessa que o pobre solitário estava em sua agenda como o cliente de hoje, só não foi surpresa maior que o repentino e doce aparecimento de Vésper, a corporificação da estrela deixada em consignação pela estranha criatura, após alguma insistência, lá num canto do sítio, debaixo da pirâmide de areia grossa e compactada como pedra pela ação do tempo.

Depois de dispensar o ancião, entre incrédulo e perplexo, Jason viu cair do céu uma bola de fogo distribuindo cintilação e chispas para rodopiar pelo terreno até encontrar a pirâmide e apagar-se como se fosse o fim de um sonho. Da escuridão retornada, em magnífica silhueta, do corpo da pirâmide, surge pomposa uma mulher feita escultura dos deuses. Nua, caminha e ultrapassa a porta aberta para se acomodar como uma hóspede costumeira.

-- Sou Vésper, sua estrela em corpo de fêmea, sedenta de um banho celeste de amor.

Mais outro passe mágico da bagagem de panos coloridos que foi se alojando por si só e de forma triunfal no armário do quarto do rapaz para, então, acontecer o "congresso sensual" em que o nosso pobre terráqueo jamais experimentara. "Amor mesmo, pleno de nuances etéreas, embriagador, sem cansaços, sem suores, sem ais semitonados".

Depois de tudo um sono profundo até acordar em cotidiano real ao lado de perfeita e magnífica obra do universo.

Impossível que aquela surrealista presença não se transformasse em notícia na vila colada ao sítio. "Jason se amancebara com uma mulher de cabelos cor de ouro, importada da capital". Nada demorou a que o sossego do rapaz fosse destruído com tantas visitas que se apresentavam sob o pretexto de ver o sítio e conhecer Vésper. Sem timidez ela a todos recebia e parecia deles captar sabedoria e ainda mais brilho. O costumeiro e próprio brilho físico transcendia para um cintilar interior. Sua fama cresceu.

Mas estrelas mudam de lugar. Percebeu e sentiu que poderia pertencer a outras constelações. De dia vivia na vila e para casa só voltava à noitinha. Cada vez mais tarde. Até que para Jason se apagou, até que não retornou mais. Voltava raramente para uma visita muito rápida ou um carinho fugaz.

Aquele herói, abatido pela cupidez humana e massacrado pela humilhação tão evidente na solidariedade das mulheres, decidiu pelo óbvio ao pedir a Vésper que se retirasse definitivamente. Ela obedeceu. "Caminhou firme para a pirâmide e, acompanhada da procissão colorida de trajes, penetrou na estrela e de maneira fulminante mergulhou no espaço, deixando atrás de si um rastro de luz e saudade nenhuma".

Naquela própria noite voltou o velhinho, cheio de excusas, disposto a lhe eferecer uma nova estrela, dizendo em Vésper ter constatado um defeito de fabricação...

Jason, sábio Jason! Lucidamente recusou a nova oferta. O conto termina como aquela usada pergunta das estorinhas mais ingênuas em que se pede "qual a moral da estória?" Só que o autor não espera reflexões e escancara a resposta sem tempo para qualquer confusão: "Aos desenganos da terra já estava acostumado. E estes sempre foram mais fáceis de lidar do que as surpresas vindas do céu".

São assim os contos de Olavo Drummond. Bem como disse um contador de histórias chamado Rudyard Kipling ao ser perguntado sobre qual era a melhor forma de identificar a boa qualidade de um romance ou de um livro de contos: "Comece a ler, se não tiver vontade de parar antes de chegar ao fim da história, tenha a certeza de estar diante de um bom livro de contos ou de um romance".


[O Vendedor de Estrelas - Olavo Drummond, 2ª edição, Editora Arx - São Paulo (SP), 2003.]

Por Ery Roberto | 1:13 PM
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Sábado, Fevereiro 17, 2007

[páginas & paredões]
CIRCULOS E TRIÂNGULOS ou PITÁGORAS, SOCORREI-ME!


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Era uma vez um tal de Sílvio que casou com Olívia, filha de Tide. O "avião caiu" e eis que Silvio se apaixonou pela artista internacional Tonia que mais tarde veio a conhecer Tide e deu um pontapé no milico. Enquanto isto a viuvinha, irmã da Olívia, caiu na lábia do desiludido Sílvio.

Vamos ver se dá para entender: o milico casa com a ex-cunhada e volta a ser genro do seu próprio "Ricardão"; a artista Tonia, de affair passa a nova sogra do milicão; o garoto, filho de Olívia e Sílvio, passa a chamar o pai de tio, além de ganhar um padrasto que não estava no script.

Acharam complicado? Tem mais!

Outra filha de Tide, a temperamental e destrambelhada Carmem (pena, isto é nome de ópera!) largou do bêbado --que a filha tratou de curar-- e apostou na centena 171 do tal Greg (que deu um calote no velho Tide) e traiu a Carmem com a espertíssima Sandra (que puta personagem, em todos os sentidos, fez essa Winitz!) e no fim acaba nos braços da ex-primeira-mulher, uma médica às voltas com antigos e novos fantasmas.

Inconformada, Carmita só vê uma chance de não ficar sozinha e parte para o ramo da jardinagem. O patrão de Domingos, enfim, vira seu sogro. Melhor para o jardineiro que entra na fila da herança.

Nos ramos inferiores desta magnífica e típica família brasileira da classe A, Marina, a neta de Tide e curandeira de bebuns, casa com outro neto (seu primo) e o complicado Bira (ex-bêbado, agora apaixonado pela terapeuta), vira sogro do próprio sobrinho. Tudo isto se passa sob a sombra de um Centro Cultural cujo nome não poderia ser mais bem escolhido: AMA.

Se a história durasse mais umas duas ou três sessões aposto que ainda teria o romance do fantasma da Nanda com o filho adotivo da mãe adotiva da sua própria filha.

E no fim todos seriam (ou foram, sei lá!) felizes para sempre.

Se esse Maneco não for louco eu quero virar uma porta. Melhor, um chipanzé.

Pior que ainda tem gente que se assusta com um simples triângulo amoroso do Big Brother (aliás, aquele "script" -- desconheço o autor -- consegue ser mais vazio do que Curitiba no Carnaval). Falando nisto, nem venham me dizer que aquilo não tem script porque outro dia a "porta caipira" entregou o ouro. Ou por qual motivo a família da lambisgóia ficou "P(ágina) da vida" quando uma produtora de filmes pornôs saiu por aí dizendo que iria contratá-la por 500 mil. Juro que eu faria um pornô e, mesmo que fosse "porta", quinhentão era só pra prefaciar a negociação. Por este preço não mostraria nem a tramela.

Esta TV não tem jeito! Do lixo todo, ainda se salva isto. Tudo, claro, em nome da evolução da sexualidade. Eu devia estar nascendo agora. Aquelas antigas referências não estariam me batendo à cabeça como um "tum-tum-tum" de festa rave.

[Importante: eu leio a globo.com.]

Por Ery Roberto | 2:48 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

[outras emoções]
SAÍDA HONROSA


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Ainda lembro da década de 80 como se fosse hoje. Trabalhava no Banco do Brasil e fazíamos uma greve por ano. Às vezes a coisa ficava feia e as assembléias do sindicato sempre tinham uma alternativa à pauta, no caso da categoria desistir da continuidade do movimento paredista. Era a tal da "Saída Honrosa". Incrível, mas era um ítem difícil. Qualquer que fosse a forma decidida, tudo não passava de mera retórica. No dia seguinte, derrotados e cada vez mais odiados pela população, tínhamos que voltar ao trabalho. Calados. Mais ainda quando a decisão do TST era a de considerar a greve ilegal (??). Mas o negócio, independente de qualquer circunstância, era voltar.

Quando acontece algo no país, como este episódio imundo de mais um crime hediondo, eu fico postando em seqüência, motivado diariamente por novas notícias correlatas (algumas tão nojentas quanto o próprio crime), pela minha indignação e por que não dizer pela emoção (afinal também sou de carne, osso, coração e alma). E descubro que não sei sair do tema. Começo a me preocupar com essa tendência a me tornar monotemático. Em situações assim é bem possível que seja taxado de chato.

Entenda-se, como no caso da greve, que sair não significa abdicar do direito de continuar opinando, literalmente "batendo" no sistema e seus absurdos. Às vezes a saída é estratégica. Neste caso mais ainda. É melhor economizar palavras, esperar pelo que possa advir em função do que já foi dito e feito. E estar preparado para a retomada a qualquer momento.

Então que, por ora, sigamos. E como saída honrosa, nada melhor do que exaltar um dos bons pedaços da vida. Como por exemplo o que sugere esta lingerie da Coleção de Inverno na Semana de Madri (eu sempre disse que o inverno é a melhor estação!!!).

Depois, hoje é sexta. Está próximo de tudo recomeçar, após o carnaval passar. Aproveitemos, pois.


[Dizem, as más línguas, que no carnaval de São Paulo vai rolar o "samba do BURACO doido" (ou seria do buraco aberto?). Depois dessa da calçada ceder e um cidadão cair naquele rio, se eu fosse o Kassab me mandava. Ia tentar outra coisa na vida.]


Por Ery Roberto | 1:34 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

[brasília news]
ESTÁ FALTANDO EMOÇÃO


Embora a decisão não signifique que a verba não possa ser gasta, o governo decidiu cortar mais de R$ 5 bilhões no orçamento da Saúde. Os ministérios da Defesa e da Justiça tiveram seus recursos reduzidos em 17% e 19,1%, respectivamente, para R$ 5,826 bilhões e R$ 1,595 bilhão. Da primeira pasta sai parte dos recursos para o controle do tráfego aéreo e, da segunda, para a construção de presídios federais.

O corte total chega à casa dos R$ 16,4 bilhões. Ao longo do ano, bimestralmente, o Ministério do Planejamento divulga reprogramações orçamentárias e, de acordo com a arrecadação de impostos, a evolução dos gastos e o comportamento da economia, faz a liberação ou novos contingenciamentos de recursos do Orçamento.

Sinceramente entendo que por trás disto tudo está o interesse em manipular verbas ao bel prazer e em prol de causas menos importantes. Em última circunstância, servirá também para justificar insucessos nas políticas. A carga de arrecadação não foi suficiente, por exemplo. O crescimento não atingiu os níveis estabelecidos por conseqüência do comportamento da economia. E por aí irá...

A notícia da Folha Online em nenhum momento faz menção ao Ministério da Educação.

O menor corte ocorreu no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2,5%, de R$ 10,763 bilhões para R$ 10,495 bilhões. Essa é a pasta responsável pelo programa Bolsa Família.

Talvez a diferença possa ser usada via contingenciamento de recurso a ser destinado às correções das irregularidades, como as levantadas no estado de Goiás, onde pesquisa aponta que dos 30 municípios pesquisados, 29 apresentam problemas. A verba está sendo distribuída sem a conseqüente contra-partida que é a freqüência escolar. E tem gente que ainda defende que isto tudo não se trata de "esmola". Que não é um crime contra a dignidade, só definitivamente conquistada através do trabalho e da eqüânime distribuição de renda.

Posso estar enganado, mas penso estar "faltando emoção". Pensando bem, Brasília sempre esteve isenta às maiores emoções do resto do país.

Por Ery Roberto | 9:22 PM
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[viagem insólita]
DO TRIBUNAL A FAMILIA


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Na repercussão do crime contra o menino João lemos sobre dois fatos, acontecidos em ambientes totalmente distintos embora ligados entre si, que demonstram ainda mais a complexidade já tão evidente nesta questão das mudanças necessárias ou, pelo menos, o início de uma reação contra o estado de criminalidade e combate à impunidade.

De um lado o Poder Público. Do outro a Família.

Da presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, se esperava mais. Não fosse somente pela condição de mulher investida pela primeira vez na história do Brasil em cargo de tamanha magnificência, o que levava a crer em postura diferente da que ficamos acostumados em tantos anos de condução daquela corte, também pelo grau de sensibilidade mais afeto à condição feminina, por incrível que possa parecer manifestou-se em reverente afinação ao velho discurso das principais raposas dos demais poderes do Estado.

A declaração, que até ao menos atento pareceu ensaiada, impondo através da justificativa da intempestividade para a discussão de mudanças o caráter de tensão e emotividade que vivemos, soa falsa e desanimadora.

Quanto tempo dura um estado de emoção? Se a palavra estivesse com a Psicologia, teríamos que recorrer a características específicas da formação cultural do nosso povo. Em se tratando da Política, mais ainda precisaríamos questionar a própria Psicologia no caso desta omitir a necessidade de se considerar históricos da vida pública. O nosso relapsu Congresso, conhecidamente perdulário, praticante da incúria e engessado em sua desacreditada pauta, já que as questões urgentes são aquelas que nunca dizem respeito à "causa final", provou, nos episódios dos ataques em São Paulo e no Rio de Janeiro, que tanto faz. Nada se decide nem em estado de emoção nem de suposta normalidade. É usual não fazer nada.

As medidas para endurecimento com a criminalidade não passaram do envio de corporação especial destacada para a vigilância de fronteiras e que tem tempo marcado para voltar à caserna. As propostas estão engavetadas e sem discussões e votações há meses. Repito aqui o que já escrevi em post anterior sobre a iniciativa privada. Quando uma empresa resolve mudar as suas estratégias, muitas vezes em função de evidente ou até consumado prejuízo operacional, decreta que seus técnicos responsáveis se reúnam imediatamente e com prazo marcado para apresentação de uma proposta de redenção que mude o curso. Invariavelmente, tais projetos contemplam medidas duríssimas.

A negra perspectiva superavitária e a simples ameaça de risco quanto ao emprego são fatores, embora nada comparáveis ao crime, que também podem se transformar em estado de tensão. Em muitas delas, as mais estruturadas, as decisões são rápidas. Constroem alternativas e dispõe de um poder de aplicabilidade admirável. No aparato estatal, os poderes públicos agem exatamente na contramão deste preceito.

No mar revolto o navegador não espera a tempestade passar para reforçar a embarcação. Em se tratando da vida humana envolvida não posso aceitar que uma autoridade desabafe com o carimbo da sua empáfia funcional e assine com certa insensibilidade tão estranha recomendação. Ou será que não sabemos (ainda) que daqui a seis meses nenhum político lembrará mais do menino João Hélio e que por outros tantos crimes igualmente bárbaros estaremos vivendo as mesmas emoções? Até quando adiaremos a questão? Até o dia em que os bandidos ofereçam uma trégua e anunciem em rede nacional "agora nós vamos ficar quietinhos e vocês podem começar a debater sobre a impunidade geral, mas não esqueçam de nos consultarem, OK"?

De outro lado a Família.

A mãe do menor que participou do crime disse que gostaria de estar no lugar da mãe de João com o filho dela morto. O pai do menor, que também é padrasto do outro, maior, apesar de evangélico e usando de certo extremismo, disse que "até a pena de morte vale, em crimes assim". Foi ele quem levou o filho à Delegacia. "Para mim, foi como levá-lo a um matadouro".

Uma garota, menor, que foi citada por um dos bandidos como sendo sua namorada, desmentiu na acareação feita anteontem que estivesse em sua companhia no momento do crime. Teve coragem e dignidade para derrubar o único álibi encontrado pelo delinqüente na via da mentira. Este gesto demonstra a importância dos princípios familiares. Por receio de envolvimento provou ter valores éticos ou por recomendação dos pais ela prestou um grande favor à justiça.

Estas ocorrências, por mais que contenham extremismos e acontecidas no calor da emoção, representam o insofismável caráter e a máxima sensibilidade com a dor alheia, mesmo que dor igual seja o status presente dos seus dias. Mostram que é mais fácil contar com a Família do que com o Poder Público.

São paradoxos a se estudar. Pela graça dos deuses ainda há esperança na instituição familiar. É ela que deve ser inspirada para se transformar em célula reprodutiva na formação de um novo tempo. O efetivo envolvimento da família no processo de reforma da Educação é obrigatório. Não deveriam existir escolas sem pais participativos, com vínculo permanente, que ajudassem a nortear ações e reforçar uma frente de redenção. Não podem existir escolas sem pais como seus agentes e o governo tem que fiscalizar seus programas sociais quando estes exigem a freqüência escolar. Recente pesquisa em Goiás apurou que há irregularidades no Bolsa Família em 29 de 30 municípios pesquisados. Sem providências de moralização é certa a continuidade do caos que arrebenta as instituições. Do contrário qualquer luz que apareça ao fim do túnel será a do incêndio da nossa esperança.

Emocionados sim. Sem a capacidade de indignação com o eterno adiamento de mudanças jamais!

Por Ery Roberto | 1:17 AM
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Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

[criminalidade]
A DURA REALIDADE EXIGE UMA REVOLUÇÃO MORAL





Esta charge foi publicada há algum tempo, mas continua atualíssima...
... e esta, publicada recentemente, continuará atual pelo menos por mais quatro se continuarmos apenas lamentando...


Depois de tudo que aconteceu no Rio de Janeiro na semana passada só me resta ajudar a divulgar este anúncio:



Não era este o post que eu gostaria para um início de semana. Minha emoção com tudo sobre este crime hediondo que escancarou de vez toda a estrutura carcomida das principais instituições (a família, a sociedade, a igreja, o parlamento, a educação, a justiça, a segurança, o regime, etc) só me fez encontrar uma palavra adequada: REVOLUÇÃO MORAL. Precisamos expulsar os "animais" que existem dentro de nós e recuperar a própria ALMA. Muitos ainda estão em condições de achá-la. Não me interpretem mal. Intimamente todos temos algum animal - nem que seja um bicho preguiça. Quem estiver pensando que a solução passa por zerar tudo e "recomeçar", precisa analisar este caminho. Em meu pensamento não há outro.

Boa semana, friends! Preferencialmente "in peace"...
[Tem UPDATE no post anterior e no Críticas e Reflexões um post-irmão]

Por Ery Roberto | 2:53 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

[o brasil de hoje]
DO(I)S PILARES DO ATRASO


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O tema segurança em nosso país assumiu status de "calamidade pública".

O mais insensível dos seres humanos que abriu os jornais de hoje certamente foi capaz de sentir arrepios e uma overdose de indignação, com a esmiuçada notícia do bárbaro crime praticado contra uma família carioca, quando bandidos arrastaram de carro por kilometros uma criança de 6 anos presa ao cinto de segurança.

Pela vítima e sua sofrida família, cabe-me o luto. Estou em total concordância com o magnífico sentimento derramado no maíusculo texto do amigo Jayme Serva, cujo blog deveria se chamar "Dito Assim Parece Tudo", e nunca "à Toa".

Pelo diagnóstico e apontamento de providências estritamente necessárias, avaliso integralmente o que deduz com raríssima inteligência (o que não é nenhuma novidade) meu grande ídolo, o Observador Fernando Cals.

O que definitivamente não é possível aceitar são dois fatos, ou notícias, que ilustram claramente a visão e prática distorcida de dois enfáticos pilares dos costumes e da história da sociedade brasileira: a Igreja e o Parlamento.

A CNBB, em nota oficial, manifestando-se sobre este crime hediondo, declarou-se contrária à redução da maioridade penal. "Não é na mudança da responsabilidade penal que nós vamos atingir a violência, fazer com que a violência não aumente", enfatizou seu presidente, dom Geraldo Majella. [Folha de São Paulo - Cotidiano - 09/02/2007 - 17h26].

Impossível (pelo menos a este ignóbil escriba) compartilhar com o clero brasileiro em tão absurdo entendimento. Se não atingiremos a violência com uma reformulação penal, também não será com orações. Bandido, seja de qualquer idade, não tem fé santa. Talvez a CNBB também desconheça que o tráfico de drogas, "gerenciado" de dentro dos presídios, esteja "empregando" menores-aprendizes aqui fora, transformando-os em nova geração de bandidos, cujos crimes haverão de se perpetuar amparados pelos institutos legais que protegem o cidadão (eles têm o direito de escolher um legislador, mas não podem ser punidos pelos delitos ante uma falsa proteção à adolescência).

Por outro lado, causa espécie (sinônimo de revolta) a crise parlamentar que assola Brasília. Quando acontece um fato que macula e entristece o conjunto da população, trucidada pelo descaso com a segurança, vem à tona de forma real e tangível a inoperância e completa falta de lucidez quanto à capacidade de priorização de medidas. [O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que vai propor ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a elaboração de uma pauta em comum para as duas Casas Legislativas que inclui a votação de projetos do pacote anti-violência --apresentado no Congresso em 2006 em meio à onda de ataques de facções criminosas à cidade de São Paulo.].

O projeto de reformulação da maioridade penal está na gaveta há muito tempo, mesmo que estejamos vivendo as barbáries que se sucedem. Parece mais urgente a muitos deputados as questões de caráter pessoal, de ostentação dos seus recalques transformados em virtudes pela falácia e a própria condescendência popular, pelos hábitos chulos e pela banalização. Tem um, conhecidíssimo, que costuma usar bolsas femininas feitas com couro de jacaré do pantanal, cabelos oxigenados e lenços de seda importada no pescoço, "à la Aracy de Almeida", notícia da mesma Folha, hoje, em seu caderno Brasil, preocupado em decorar seu gabinete parlamentar com uma "cobra naja de metal".

Meus amigos, tanto a Igreja quanto o Parlamento estão sendo agentes de banalização da vida pelas vias da mentalidade retrógrada e da ostentação.

Nós, vítimas em potencial desta guerra civil deflagrada sem a menor reação, principalmente das instituições que ajudamos a formar e que nos representam, precisamos acordar deste sono profundo dormido em berço esplêndido. Se necessário é mister "cassar-lhes a procuração". Nada é capaz de curar o terrível sofrimento de uma família que perde um filho desta maneira. Mas, por necessário, é preciso sonhar outros sonhos. Realizáveis. Racionais. Moralizantes.

As pessoas precisam viver e trabalhar em paz. As crianças precisam crescer felizes. A vida merece respeito e prioridades.

Endurecimento da pena JÁ! Reformulação do Código e Sistema Penal, pra ONTEM!



- [12.fev.2007 | 19:21] - Preciosa a intervenção do Jayme Serva nos comentários deste post. O que ele nos traz é tão importante que me motivou a responder 'em aberto', aproveitando para esclarecer meu posicionamento de defesa quanto à maioridade penal. Agradeço por tão honrosa visita e precisa participação.

"Compreendo e concordo plenamente que medidas simplistas não serão remédios para esta epidemia da criminalidade. Já atuei na área jurídica e tenho lembranças ótimas do que aprendi. Quando me manifesto a favor da redução da maioridade penal não a defendo de forma a ser decidida de forma pontual, como diz o nosso ilustre presidente da Câmara. Lógico que é salutar um amadurecimento neste âmbito, no sentido de buscar alternativas e cumprimento de requisitos que viabilizem sua implantação.

O que espanta é a realidade de não possuirmos ainda instituições decentes, confiáveis e quiçá modelos de tratamento dos delinqüentes-mirins. O que indigna é ver que menores infratores têm o 'benefício' de automaticamente voltarem para o seio da sociedade, ao completarem a maioridade, sem qualquer garantia de mudança de comportamento propiciada por atuação de um sistema correcional eficiente.

Defendo sim a maioridade penal. Mas de forma cuidada. Que o sujeito tenha que cumprir sua pena, enquanto menor, em estabelecimento adequado e ao completar a maioridade seja transferido para um regime prisional normal de gabarito. O grande sonho, óbvio, é que pudéssemos ter estabelecimentos sérios, bem dirigidos, com regulamentos rígidos, com capacidade de oferecer trabalho, aprendizado de uma profissão, tudo no objetivo de contribuir para que o elemento encontrasse uma chance, após a pena, de retornar ao convívio sadio de uma sociedade igualmente mudada. Nada disto adiantará se paralelamente não houver o investimento pesado na Educação e a correção dos desníveis sociais promovidos pela péssima redistribuição de renda.

Também não sou contra a progressão de regime no decorrer da pena, mas entendo que somente o trabalho deveria ser elemento condicionante. Este recurso do cumprimento fracional servir de requisito para a progressão é ridículo.

Quanto ao nosso sistema jurídico, sobre a atuação de advogados no exemplo que citou, reputo como defeito que merece ser corrigido. É assunto para análise de quem tem competência, como a cátedra, a OAB e demais organizações correlatas. Isto só acontece, no meu entendimento, porque também maus profissionais -- em qualquer segmento -- raramente são punidos pelos seus excessos. A impunidade não está somente na política.

Concordo que existem problemas sérios na aplicabilidade das penas, mas quando existem regulamentos e seus responsáveis não conseguem administrar, que se mudem as pessoas e a estas sejam fornecidos os instrumentos e cobrados os devidos desempenhos. O que me impressiona é que nas empresas do segmento privado há uma cultura positiva quanto ao desempenho de funções, mas no serviço público estamos cansados de observar que existe total falta de critérios e eterna condescendência.

Disse da minha preocupação com o Legislativo porque entendo seja um dos pilares de toda esta reconstrução. Por não ter absolutamente nenhuma confiança neste parlamento que se instalou é que vejo a necessidade de uma mobilização para, pelo menos, fazermos chegar à Brasília o nosso sentimento de vontade de mudanças. Não é preciso esperar mais quatro anos. Podemos tentar mudar os corações e as mentes dos que lá estão, embora fosse ético afastar pelo menos os 173 deputados que respondem a processos judiciais por diferentes delitos. Falemos, escrevamos, criemos canais, denunciemos, enfim, não é só votar, temos que participar da legislatura. Aquilo tem que ser exemplo. Do contrário estaremos sendo hipócritas ao lamentar um absurdo e sendo levados a escrever e defender, por exemplo, a maioridade penal.

É indiscutivelmente ridículo e paradoxal termos leis sugeridas, escritas e aprovadas por quem é acusado do cometimento de delitos igualmente graves. Neste aspecto baseio minha defesa. Todo garoto de 16 anos já sabe sobre a impunidade e isto o incentiva à aventura da delinqüência. Se até um garoto mal formado sabe, imagine o que podem cometer adultos e profissionais do crime.

A solução está em reconstruir o sistema e fazê-lo funcionar. É exigir que os órgãos do judiciário cumpram o seu dever. É punir os culpados, todos. Afinal, ainda não foi revogado o princípio constitucional que estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei.

Por conclusão, o que desencadeia tudo é algo muito maior: a impunidade ampla, geral e irrestrita."

Por Ery Roberto | 8:12 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

[beatlemania]
RELÍQUIAS EM ACHADOS & PERDIDOS


Tempos atrás, resultado daquela desagradável mania (hoje já curada) de não fazer backup do material que interessa, minha filha e eu perdemos o conjunto inteiro da discografia dos Beatles em MP3. E tinha sido um belo presente de um velho amigo quando veio resolver um problema no PC dela (João, presentes assim tem uma "segunda via"?).

ip0102 - Photobucket - Video and Image HostingNa semana passada tive duas ótimas surpresas. Recebi da Elizete, uma das ex-companheiras do BB que ainda mantenho contato, um link fabuloso que contém mais de 60 video clips, dentre eles She loves you, Love me do, Free as a bird, Help!, Penny Lane, Revolution, Hey Jude, Let it be e outros tantos. Gaby deu pulos de alegria. Ela tem 20 anos e curte The Beatles desde que se entendeu por gente. Ainda não sei se isto é herança genética, mas quando penso nesta juventude que começou a gostar de música durante os anos noventa e lembro disto, chego à conclusão que nem tudo está perdido.

Outro grande achado foi a recuperação, pela segunda vez, do número 1 da Revista et cetera - Literatura & Arte, da Travessa dos Editores, que por sinal não me pertence mais, pois já havia prometido oferecer como presente (a dedicatória foi datada em 17.11.2004, que vexame!) para a querida Bailarina, de quem aguardarei a confirmação do melhor endereço para remessa, pois não suporto mais o peso da dívida nem admito novo extravio.

Nesta caprichada edição tem uma bela tradução de Carlos Rennó(1) para Across The Universe (Através do Universo), canção composta por Lennon & McCartney para o LP Let It Be.

Words are flowing out like endless rain inside a paper cup
They slither while they pass, they slip away across the universe
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my open mind
Possessing and caressing me
Jai Guru Deva Om
Nothing's gonna change my world
Nothing's gonna change my world
Images of broken light which dance before me like a
million eyes that call me on and on across the universe
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box
They tumble blindly as they make their way across the universe
Jai Guru Deva Om
Nothing's gonna change my world
Nothing's gonna change my world
Sounds of laughter, shades of earth are ringing through
My open views inciting and inviting me
Limitless undying love which shines around me like a
million suns, it calls me on and on across the universe
Jai Guru Deva Om
Nothing's gonna change my world
Nothing's gonna change my world


Lavas de palavras como chuva em copos de papel
Deslizam quando passam e escapolem pelo universo
Mar de dor e ondas de prazer inundam o meu ser
A me afagar a me afogar
Jai Guru Deva Om
Nada mudará meu mundo
Nada mudará meu mundo
Estilhaços luminosos como um milhão de olhos dançam
E não cansam de chamar-me no universo
Pensamentos em meandros como vento dentro de uma caixa
Vão vagando às cegas através do universo
Jai Guru Deva Om
Nada mudará meu mundo
Nada mudará meu mundo
Sons de riso tons de terra berram nas minhas visões
A me excitar e incitar
Infinito sem limite com o brilho de um milhão de sóis(2)
O amor me chama sem parar no universo
Jai Guru Deva Om
Nada mudará meu mundo
Nada mudará meu mundo


[(1) - Carlos Rennó, letrista, compôs em parceria com Lenine e Chico César, entre outros; além de tantos inesquecíveis trabalhos foi produtor e autor das versões do CD "Cole Porter e George Gershwin - Canções, Versões" (Geléia Geral, 2000), e organizador de "Gilberto Gil - Todas as Letras" (Companhia das Letras, 1996).

(2) - Esta frase contém o pleonasmo mais lindo que já li.]

Por Ery Roberto | 5:05 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

[leite quente com xineques]
TRÊS ANDANTES E UM MAESTRO

- Parte I - O Trio


ip0101 - Photobucket - Video and Image Hosting
Museu Oscar Niemeyer - "O Olho Espetado" - Curitiba


Quem conheceu a Curitiba de outrora e a vê e sente hoje em dia, lembra perfeitamente do estigma assumido por alguns dos seus mais antigos logradouros. Parte deles conseguiu recuperar a estética abolindo o preconceito causado pela cicatriz, graças a uma espécie de cirurgia plástica do urbanismo municipal.

Antigamente, por brincadeira, se dizia ao turista que poderia olhar as capivaras no Passeio Público, mas os veados estavam na Praça Osório. "Capivara" por aqui também é mulher feia, mas como toda regra tem exceção, era no Passeio que aos sábados a gente encontrava as loiras e morenas mais charmosas no Lá no Pasquale, restaurante que foi um reduto aconchegante desta cidade, ponto de encontro eclético de figuras conhecidas e anônimas. Samba ao vivo e feijoada no prato, à beira do lago de carpas e pedalinhos.

Nas proximidades da região conhecida por centro histórico, o Alto de São Francisco, sobrevive a Rua Riachuelo e seus seculares casarões. Destes, alguns foram transformados em lojas de um comércio de oportunidades, ramo composto de móveis usados, brechós e sebos. Era o lugar onde se encontrava aquele famoso armazém, típico do século passado, onde se comprava de tudo. Outras edificações conservam somente a fachada e parte da construção, "rebaixadas" à condição de cafofos que são dormitórios e esconderijos. Existem ainda alguns bares daqueles onde as varejeiras sobrevoam os "martelinhos" de pinga. A Riachuelo, velho reduto das prostitutas, por coincidência acaba na Praça do Homem Nu. É lá que a perversidade da delinqüência continua destruindo um lindo painel de azulejos de Poty Lazarotto, obra encantada e pichada.

Nós também temos nossa "Ópera Rio". O Clube Operário dança conforme a música. Já foi salão de luxo, teve desfile anual das "Bem Boladas" nos saudosos carnavais, reduto gay, casa de espetáculos onde rodavam boleros no escurinho, filial da lambada de Porto Seguro, paróquia da axé-music e do pagode. Hoje é carinhosamente chamado de "Desmanche", termo não muito carinhoso que usaram para sacanear aquelas senhoras da terceira idade que, como último apelo, se produzem com as mini-saias guardadas desde a década de 60 e carregam na maquiagem que, ao meio da matinée, escorre feito lágrima colorida de suor e fragrâncias de seus perfumes comprados dos sacoleiros.

A modernidade trouxe o invejado sistema de transporte urbano, suas Estações Tubo e o ônibus Ligeirinho. As linhas cruzam a cidade, do bairro Boa Vista ao extremo Pinheirinho. Mas o projeto do metrô continua na gaveta do escritório de Jayme Lerner cuja última declaração, depois de longo tempo fora do noticiário, foi bombástica: "Curitiba nunca terá um metrô, pois o Paraná vive de mentiras". Espetada explícita no desafeto Requião ou mea culpa tardia?. Enquanto não saramos desta epidemia política o único Metrô é a boate, que continua sendo a catedral da gandaia na boca do lixo da Rua Cruz Machado e imediações, mais precisamente na Alameda Cabral.

No Jardim Botânico nascem aromas e músculos. Dentro, nas estufas, flores. Fora, nas pistas, pançudos e roliços correndo em busca da cura.

Oscar Niemeyer, além de competente, é um gozador. Quando lhe encomendaram a planta de um museu e disseram que o terreno ficava atrás do Palácio Iguaçu, sede do governo estadual, ele não teve dúvidas: desenhou um "Olho" empertigado. Nada mais condizente com a situação - a arte vigiando a política!

Por todas estas coisas o trio andante -- Carlos Careqa, Oswaldo Rios e Adriano Sátiro -- compôs uma canção que acabou virando trilha do vídeo produzido pela IDÉIA Quattro. "Não dê pipoca aos turistas II" é um passeio genial pelo tempo e por estes locais cheios de histórias e estórias, repletos de novas caras e velhas cicatrizes. Além de tudo, quem se dispuser a ver este vídeo terá matada a curiosidade de ouvir o verdadeiro sotaque paranaense. Vale a pena. A letra vai abaixo.





[bis]
Eu gosto de Curitiba
Eu quero ir fundo, no meio do mundo
Aqui é o lugar

Olhar as meninas
Da Praça Osório
Pela janela do meu escritório
Pegar meu salário
Dançar no Operário
Na Riachuelo comprar mais um selo
Pra te mandar um postal
Passar pela Praça do Homem Pelado
O Passeio Público fica ali do lado
De onde se vê as coisas mais claras
Dando pipoca às capivaras

[bis]
Eu gosto de Curitiba
Eu quero ir fundo, no meio do mundo
Aqui é o lugar

Entrar pelos Tubos
Sair Ligeirinho
Com Boa Vista pro Pinheirinho
No Jardim Botânico ficar bem sarado
Depois ver as musas
Lá no Museu do Olho Espetado
A noite é fria, mas coração é quente
Eu quero ir fundo, eu quero ver gente
Tomar um chopinho na Praça Tiradentes
Deixar pendurado na mão do gerente

[bis]
Eu gosto de Curitiba
Eu quero ir fundo, no meio do mundo
Aqui é o lugar

É madrugada a noite acabou
Nos buracos do Metrô...


[Continua]

Por Ery Roberto | 8:10 PM
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