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Sábado, Março 31, 2007
[livros]
HISTÓRIA UNIVERSAL PELO PRISMA DA PROPAGANDA
Romper com o presente e mudar o paradigma é a receita recomendada pelo gênio da criatividade para fazer da idéia a moeda atual. Joey Reiman, publicitário, em 1995 fechou uma prodigiosa agência de publicidade e abriu a BrightHouse, a primeira empresa de produção de idéias do mundo. Depois de viver mais de duas décadas na área, chegou à conclusão de que o mundo é rico em propagandas e pobre em idéias.
Seu livro "Thinking for a living" (2004), traz na apresentação da edição brasileira a revelação da sua forte ligação com o Brasil: "Visitei o país pela primeira vez em 1969, quando meu pai importava produtos do Nordeste. Naquela ocasião, vi Neil Armstrong pisar a Lua por uma televisão em preto-e-branco, em um bar do Recife. Também tive oportunidade de conhecer pessoas incríveis no Brasil, em virtude de palestras que apresentei em São Paulo nos últimos anos. E mesmo que eu tenha viajado para inúmeros países ao longo da minha vida e trabalhado com as maiores empresas multinacionais do planeta, jamais visitei um local como este, onde criatividade e idéias geniais são tão naturalmente integradas à sociedade. Pode acreditar em mim: você não encontrará pessoas tão otimistas, abertas a novas idéias e naturalmente felizes onde moro, nos Estados Unidos. Nem mesmo comidas tão saborosas como as que encontro aqui."
A história a seguir consta deste livro e vale a pena conhecê-la. Achei bárbara, sensacional. O cara é visionário! E tenho que dedicar este post ao Jayme Serva e toda sua troupe da Agência Milk. É claro que todos por lá já devem ter lido.
á pouco mais de um milhão de anos, um artista viu um homem lutando contra um dinossauro feroz. Voltando a sua caverna, o homem esboçou a cena na parede. "Desportista de tanga enfrenta triceratops" foi o título dado pelo artista. Mais tarde, à tardinha, enquanto tomavam uns drinques, seus amigos viram o que provavelmente foi o primeiro anúncio impresso.
Os pesquisadores se referem ao período subseqüente como história universal. Eu o chamo de limiar da propaganda. E por que não? Dá um grande conteúdo de mídia. Caso você não saiba, a redação de conteúdo para a mídia foi na verdade inventada em 3500 a.C. pelos sumérios. Mas não pegou até 1800 a.C. quando surgiu o primeiro tipo de caractere 'impresso', o canaanita - um precursor do tipo helvetica bold. Anos mais tarde, aparecia a primeira logomarca, a estrela-de-davi, e um subseqüente desmembramento que deu origem a outra - o crucifixo cristão. Não tardou para que ambas as logomarcas levassem a adesivos de pára-choques do tipo "Agradeça a Deus por Deus" e a uma interminável campanha entre as duas religiões, a inspiração do desafio Coke-Pepsi. A batalha também produziu o primeiro memorável personagem da área: o papa.
Enquanto isso, em 500 a.C., tomando chá em um restaurante chinês, Confúcio disse: "Sem conhecer a força das palavras, é impossível conhecer os homens". Pronto! Nascia a filosofia de redação de mídia. Exemplos dessa arte ainda podem ser encontrados nos biscoitos da sorte nos restaurantes chineses.
Sócrates ganhou o "Best of show" na primavera seguinte. A tarefa era árdua: vender 'contentamento'. Seu anúncio dizia: "O contentamento é uma riqueza natural; o luxo, uma pobreza artificial".
Duzentos anos depois, o mundo assistiu à primeira campanha de 'arrebentar', criada por Alexandre, o Grande. Muitos de seus colegas atribuíram o sucesso a excelentes alcance e freqüência.
O milênio seguinte trouxe a seca em termos de criatividade. É verdade que São Paulo e Santo Agostinho trouxeram à baila algumas frases memoráveis e que Gengis Khan foi longe com uma campanha nada fácil, mas nenhum deles parece ter conseguido sua marca com uma master idea. Até 1300 d.C., ou seja, quando um punhado de butiques italianas caras lançou o conceito de Renascença. A direção de arte foi alvo do Clio, o prêmio máximo da propaganda, desde o primeiro dia. A imprensa também teve seus dias de glória, com um cara chamado Gutenberg, que abriu a primeira gráfica do mundo.
Depois, em 1492, Colombo tornou-se um nome global com a maior idéia desde a Renascença - mercados inexplorados. Uma década mais tarde, Leonardo da Vinci nos deu a mais quente das teorias de negócio até hoje: "Se você não tem um produto, invente-o". Espalharam o boato de que Da Vinci, Michelangelo e Maquiavel deixariam as respectivas agências e reuniriam suas forças, mas o trio nunca se juntou. Parece que os dois gênios da criação acabaram achando que Maquiavel pensava nele mesmo.
No século XVII, Shakespeare tornou os longos textos de criação respeitáveis, Rembrandt saiu com todos os prêmios de direção de arte e Isaac Newton provou empiricamente que a mais antiga linha de texto de mídia do universo - "Tudo que sobe desce" - funcionava em todas as demonstrações ao público-alvo.
Na outra metade do mundo, Ben Franklin iluminou o setor quando ele e um bando de gerentes de conta se reuniram em Filadélfia para lançar um novo produto de arromba: Jefferson redigiu os textos da campanha e Washington foi o gerente-geral. A singular proposta de venda era "In God we trust". O único problema foi a logomarca. A contabilidade queria um peru. A área de pesquisa declarou que um crucifixo geraria mais conscientização. A mídia sugeriu diversos símbolos, um para cada principal grupo demográfico. Finalmente, a área de criação apresentou a águia "porque ela era careca" [¹]. Ninguém entendeu a lógica da coisa, mas quem eram eles para discutir com gênios? Trouxeram Francis Scott Key para fazer a música, e o resto é história.
Voltando à Europa, Napoleão irrompeu com sua própria campanha com um dos mais conhecidos mnemônicos: o homem e a sua mão dentro da jaqueta. Ele contratou Beethoven, da Boon Music, para fazer o jingle; mas depois de quatro amostragens dispensou o compositor, chamando-o de 'surdo'. Beethoven deu-lhe as costas e vendeu sua Quinta Sinfonia para o czar Alexandre, que a usou com eficácia para papar a fatia de mercado do imperador francês.
Essa batalha, contudo, nem se compara ao embate dos azuis contra os verdes na Guerra da Secessão dos Estados Unidos. Muitos o consideraram ruim para o setor. Outros disseram que valeu a pena porque os Estados Unidos da América saíram "renovados e melhorados". É fato que, uma década mais tarde, os maiores trabalhos criativos apareceram: Bell 'teve alcance e tocou em alguém', Edison 'trouxe boas coisas à luz' e os automóveis começaram a 'promover o entusiasmo'.
Enquanto isso, Marconi se empenhava na difusão do rádio. Freud defendia o valor de nosso id e os irmãos Wright forçavam o setor da propaganda a dobrar o valor das diárias. No entanto, nem mesmo Lenin e Franklin Delano Roosevelt, que conseguiram inovações de rompimento na área, ombrearam-se com o maior ataque de propaganda do século XX - o Terceiro Reich. Com um logo poderoso, um excelente posicionamento na mídia, e criativa ao extremo, a campanha de Hitler parecia destinada a durar um milênio. Só havia um senão. A estratégia de dominação do mundo por meio do genocídio 'broxou' o público. E, como todos sabemos, se a estratégia é errada, a arte criativa não pode funcionar.
Depois que a poeira baixou após a Segunda Guerra Mundial, o setor recuperou sua maior ferramenta desde a pedra-de-fogo do homem das cavernas: a televisão. Infelizmente, porém, a importância da TV foi reduzida a cinco palavras: 15 por cento de comissão.
O resultado é o seguinte: a propaganda existe desde os primórdios. Deus a inaugurou quando criou o homem à sua 'imagem'.
[¹] - trocadilho com a palavra bald, que significa careca e também sem adorno ou dissimulação.
[Este texto faz parte do livro Thinking for a living, traduzido para o português pela Bazan Tecnologia e Lingüística Ltda com o título Idéias, 2004 - Editora Futura, São Paulo.]
Por Ery Roberto |
4:47 PM
Quinta-feira, Março 29, 2007
[motivações]
CURITIBA E EU
Ser esta vida cousa tão pequena
Não intimida os olhos que já miram
Nitidamente a futura cena:
A Pátria melhor a que eles aspiram.
Curitiba agora torna-se plena;
Dirá um dia: "Os males se evadiram!
Tenho árvores, doces águas e crianças
Que enchem os meus corações de esperanças." [CURITIBA, Drawson & Lopes, in Pensamento Fotográfico (para cadastrados)].
Diante desta torrente poética, só me resta parodiar:
Ser este blog uma coisa tão banal
Não desanima a inspiração que gesta
Carinhosamente o próximo original:
Que seja infinito enquanto festa.
Ser positivo também abriga o venial;
Postarei um dia: "O sucesso me detesta!
Mas tenho leitores, amigos e menções
Que enchem meus olhos de indeléveis emoções."
Por Ery Roberto |
12:02 AM
Terça-feira, Março 27, 2007
[atualizações]
NOS PRÓXIMOS DIAS TUDO DEVE MELHORAR...
...mas, este blog deve estar em seu "inferno astral".
Por Ery Roberto |
6:53 PM
Domingo, Março 25, 2007
[my visual DNA]
APRENDI COM A QUERIDA AFRODITE
Por Ery Roberto |
2:23 PM
Terça-feira, Março 20, 2007
[ideologia]
SER DE DIREITA
Imagem publicada aqui.
Uma universitária cursava o sexto semestre da Faculdade. Como é comum no meio universitário, pensava que era de esquerda e estava a favor da distribuição da riqueza.
Tinha vergonha do seu pai. Ele era de direita e contra os projetos que "davam benefícios aos que não mereciam e impostos mais altos para os que conseguiam ganhar mais dinheiro".
A maioria dos seus professores tinha afirmado que as idéias dele eram equivocadas.
Por tudo isso, um dia, decidiu enfrentar o pai.
Falou com ele sobre o materialismo histórico e a dialética de Marx, procurando mostrar que ele estava errado ao defender um sistema tão injusto como o da direita. No meio da conversa seu pai perguntou:
-- Como vão as aulas?
-- Vão bem, respondeu ela. A maioria das minhas notas é 9, mas me custa muito trabalho conseguí-las. Não tenho vida social, durmo pouco, mas vou em frente.
O pai prosseguiu: -- E a tua amiga Sônia, como vai?
Ela respondeu com muita segurança: -- Muito mal. A sua média é 3, principalmente porque passa os dias em shoppings e em festas. Estuda pouco e algumas vezes nem vai às aulas. Com certeza repetirá o semestre.
O pai, olhando nos olhos da filha, aconselhou: -- Que tal se você sugerisse aos professores que transferissem 3 pontos das suas notas para as da Sônia?
Com isso vocês duas teriam a mesma média. Não seria um bom resultado para você, mas seria uma boa distribuição de notas para permitir a futura aprovação de vocês duas.
Ela indignada retrucou: -- Por que? Eu trabalhei muito para conseguir as notas que tive ! Não acho justo que todo o meu trabalho seja, simplesmente, dado a outra pessoa!
Seu pai, então, a abraçou carinhosamente, dizendo:
-- "Bem-vinda à Direita!!"
Com a inegável colaboração do meu amigo Fernando Neiva.
Por Ery Roberto |
8:54 PM
Sexta-feira, Março 16, 2007
[haikai]
ÓPIOS
E não esqueçam do compromisso cidadão que nos aguarda no Amazônia para Sempre. Veja post abaixo. Bom final de semana.
Por Ery Roberto |
5:31 PM
Quinta-feira, Março 15, 2007
[preservação ambiental]
AMAZÔNIA PARA SEMPRE
Um grupo de artistas dos mais politizados, onde figura a presença da nossa honorável atriz Cristiane Torloni, está liderando a coleta de assinaturas em manifesto pró Amazônia.
O objetivo está detalhado na CARTA ABERTA DE ARTISTAS BRASILEIROS SOBRE A DEVASTAÇÃO DA AMAZÔNIA e a campanha pretende colher as assinaturas necessárias para que o manifesto seja levado ao presidente da república, a fim de se cumprir o § 4º, do Artigo 225 da Constituição Federal, onde se lê:
"A Floresta Amazônica é patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais."
É incrível como (não) funcionam as coisas neste Brasil. Enquanto países mais adiantados do mundo já estudam medidas de preservação ambiental que concorram para a amenização dos graves problemas que estão provocando drásticas alterações em nossa atmosfera, aqui "estuprada por madeireiros sem escrúpulos, que ateiam fogo às suas vestes de esmeralda abrindo passagem aos forasteiros que a humilham ao semear capim e soja nas cinzas de castanheiras centenárias", destruímos nossa invejada floresta. E para que se cumpra a constituição, temos que pedir ao presidente (é, aquele mesmo do "valor agregado" e "do Ponto G", o Bush's litle friend...)!
O pior é que enquanto um "paredão do televisivo Big Brother alcança 31 milhões de telefonemas", a campanha Amazônia para Sempre peleja para conseguir um milhão de assinaturas.
Visite o site, leia o manifesto e assine. Basta ter CPF. Indique estes links aos seus amigos. Faça de conta que vamos mandar muitos "bandidos" para o paredão. Estas pequenas e importantes atitudes nada custam, não doem e nem fazem perder o vinco.
Por Ery Roberto |
8:48 PM
Segunda-feira, Março 12, 2007
[leite quente com xineques]
TRÊS ANDANTES E UM MAESTRO
Parte II - O Maestro
 No início da década de 70 a extinta TV Paraná, emissora associada da antiga Rede Tupi, encerrava suas transmissões com um tema chamado "Fim de Noite". Era uma música suave, romântica, executada de forma exuberante com arranjos para orquestra e de autoria de um compositor misterioso.
Quem era o autor daquela linda peça? À época ainda não tinha o costume de pesquisar sobre música instrumental, mas mesmo assim aqueles acordes ficaram registrados em minha memória. O tempo passou até que, em 1978, a Rede Globo, no programa Fantástico, mostrou Moacir Vitor Taborda Ribas, já conhecido nos meios artísticos como Victor Bass, que antes tinha emplacado na mesma emissora o tema "Senhora" para a novela de mesmo nome, exibida no ano de 1975, adaptação de Gilberto Braga do romance homônimo de José de Alencar.
A história da vida artística deste paranaense nascido em Rio Negro (cidade fronteiriça com Mafra-SC) em 1941 tem duas curiosidades interessantes. Uma é o fato de não ter formação musical, ser apenas autodidata e realizar a façanha de elaborar complexos arranjos musicais. Estes arranjos, para uma orquestra inteira, envolviam temas que eram transpostos para as pautas com ajuda de maestros consagrados. Em 1987 seu LP "Paris Em Primavera" ganhou o mundo. A orquestra do francês Paul Mauriat e Richard Clayderman gravaram suas composições.
A outra e mais inusitada passagem da vida é o fato da sua gravadora ter montado uma farsa para escondê-lo da mídia, anunciando que ele morava em Paris. Em reportagem ao Jornal do Estado, assinada pelo repórter José Marcos Lopes, Victor revelou: "Nunca estive lá. Nunca fui. Estava na Barreirinha" [¹]. Continuava por aqui, deliciando-se com os xineques [²]. Viveu na Europa sem nunca ter estado lá.
Vitor Bass, além das mais de 400 composições, escreveu diversos poemas que se constituem em louvação à terra dos Pinheirais, seus costumes, sua natureza e seu cotidiano. São poemas que precisam ser lidos com uma advertência: foram construídos para serem cantados e secundados pelas melodias que lhes davam o contorno das canções.
Hoje o Maestro, como chegou a ser chamado, vive no esquecimento e volta e meia tem que provar que é ele mesmo. A reportagem do Jornal do Estado, xerocopiada, virou carteira de identidade, por isso está sempre dentro da pasta que carrega debaixo do braço. É mais uma vítima da realidade de um país que não reconhece os valores da sua gente, onde as entidades arrecadadoras de direitos autorais só servem para arrecadar e as gravadoras sugam seus ídolos e depois os abandonam entregues à própria sorte.
O governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Cultura, mesmo que tardiamente, resgatou um pouco desta história. O projeto cultural relançou 16 dos maiores sucessos do conterrâneo, no CD "The Best of Grande Orquestra Victor Bass". Atlântico Sud, Le Seigneur du Monde, Allons Danser, Amour Sans Adieu, Passage Pour Le Paradis, Rue des Fleurs, Waleska e Gracieuse são alguns dos hits que compõe a homenagem.
Na web não havia qualquer menção à história e ao trabalho deste conterrâneo. [¹] - Barreirinha é um bairro de Curitiba, local onde há forte concentração de polacos. [²] - Xineques refere-se ao pão coberto com farofa doce. Alguns são incrementados com banana ou goiabada.
[+] - I Parte - O Trio
Por Ery Roberto |
8:36 PM
Sábado, Março 10, 2007
[cotidiano]
AMAR É...
O sujeito pode até "ser corno", mas não pode perder a linha. Será?
O interessante é que o fato aconteceu na minha terra, na pacata e bucólica Paranaguá, lugar onde a grande maioria ganha um apelido. Se este sujeito não tinha, agora já deve ter.
Bem, melhor ler a notícia.
Por Ery Roberto |
2:13 AM
Quinta-feira, Março 08, 2007
[dia internacional da mulher]
MARIAS, GLÓRIAS E VITÓRIAS
Ela foi rejeitada pelo pai, um jovem recém demitido da adolescência e que ainda nem estudara e nem trabalho tinha. A mãe, empregada doméstica, grávida, religiosamente o morro descia. Todos os dias pareciam os mesmos. Lá ia Maria, mãos na barriga, passos pensos em chinelos rotos, na face o suor, no peito a amargura dos dramas torturadores do coração. Lá em cima, de dentro do barraco, a insistência do pai em querer o aborto, cá em baixo a incompreensão da patroa apressada em lhe marcar o dia da dispensa.
A dor parecia-lhe, em contra-senso, a engrenagem alimentadora da fé e da vontade da vitória. Pensava: enquanto o emprego durasse pelo menos comeria e já lhe tranqüilizava a certeza da gravidez e parto assistidos, fruto de promessa-presente da única amiga, uma desajeitada balzaquiana peituda que nunca lhe disse de verdade o que fazia, mas, de tantos que tinha, os cartões de crédito lhe travavam o fecho da minúscula bolsa escondida entre os seios, dentro do sutiã.
Certa tarde, em plenitude prenhez, voltava Maria. O morro estava diferente, o céu carregado de um melancólico cinza. Aqueles degraus abertos na rocha foram vencidos mais pelo pressentimento da tragédia do que pelas migalhas das forças que já insistiam em deteriorar. Só ouvia correrias, porque seus olhos precisavam buscar os desvios naquelas ruelas cheias de balas perdidas.
À porta do barraco, no meio da quizumba policial, avistou um corpo estendido e já coberto por jornais amarelos de vermelho tingidos. Desmaiou quando lhe correu o pirralho Amarildo, filho da vizinha, gritando que tinham matado Bocão, a quem o menino sempre chamava de pai.
O enterro indigente e duas faltas lhe custaram os últimos dias do trampo.
Maria mudou-se para o conjugado da balzaquiana. Um mês depois e promessa cumprida, peitos vazando leite, em parto normal, nasceu Vitória, a menina chorona que tinha duas mães.
Passados alguns meses a dona dos cartões de crédito ganhou uma herança e comprou um apartamento com o que sobrou da liquidação de seus saldos devedores. Vivia remediadamente com a amiga e a menina, ajudada pelos trocos da diarista. Quando Vitória fez um ano, Maria morreu atropelada.
Órfã muito bem cuidada, bonita, cresceu rápido, foi pra escola, terminou o fundamental. A antiga patroa da sua mãe, ainda dona de agência de modas, cheia do feeling visual que ancorava seu sucesso na profissão, descobriu a garota quando a balzaquiana, sentindo os sintomas de decadência na sua cafetinagem, foi lhe pedir um emprego na empresa do marido.
Vitória era a própria sorte ao servir de moeda de troca entre a estilista e a balzaquiana. Sua altaneira postura física e raro talento surgido como a luz de um dia que amanhece rápido, em pouca idade lhe transformou na rainha das passarelas. Não se prostituiu ajudada que foi pelos caprichos da patroa. Quando voltou de Paris, depois de um tempo em Milão, já em sua terceira e definitiva agência, aos 25 anos, estava rica.
Celebridade tímida, consciente da sua história, dona da sorte, batia-lhe no coração a carência de uma mãe. Sabia que a biológica tinha morrido e havia se perdido da que lhe criara. Com muito custo voltou a encontrá-la. Acolheu-a abatida e doente, deu-lhe todo o conforto merecido, curou-lhe, conviveu e dela cuidou até quando foi necessário e possível.
Vitória abandonou as passarelas, estudou artes cênicas na Inglaterra e hoje é estrela dos palcos. Balzaquiana, extremamente cobiçada, dedica seu trabalho e vida à assistência de crianças carentes que foram adotadas por uma fundação que criou com ajuda de outros artistas. Ela circula participativa por diversos eventos, sempre acompanhada de um desconfiado Amarildo, o segurança contratado pelo noivo-empresário e diretor das suas últimas peças teatrais. Em entrevista à TV, disse que está pensando em novo projeto: dirigir uma peça. Será a síntese da história da sua vida. Pretende roteirizar com base no conto de um escritor vadio que quis homenagear as mulheres no dia 8 de março...
As mulheres são assim. Por isto que as amamos eternamente. Tantas vêm do infortúnio, da pobreza, sofrem as dores, ameaças, mas todas carregam dentro de si o supremo dom de dar a vida, dar à luz. Suas forças têm uma linguagem expressiva e muito própria, assim como o retrato das lágrimas parece ser a radiografia do coração. Amam até a morte. Inspiram, perfumam, sensualizam, incentivam, perdoam, vão à guerra. Quem tem uma de verdade sabe que sempre alcançará glória. A glória de, apesar dos erros, do machismo e presunção, só chegar à "vitória" porque descobre que sozinho tem apenas uma sombra, mas se da mulher acompanhado tem uma luz zenital - aquela que provém do alto e por inteiro lhe ilumina, assim suprimindo os enigmas e o transformando em ser rutilante.
Por Ery Roberto |
9:50 AM
[brasília news]
RÁPIDO E RASTEIRO
50 agentes federais, 12 carros, nove motos e um avião.
O desavisado dirá: "Lá vai o ministro da justiça ou o presidente-peregrino para outra viagem!". Bom que fosse. E, de preferência, para uma missão que pudesse ser contabilizada em prol de algum benefício para a população.
Negativo. Até porque a origem da viagem é Catanduvas, no Paraná. Prisão de segurança máxima, superdotada de recursos para videoconferência, mas que não podiam ser usados porque não havia um dispositivo legal que os tornassem passíveis em "regra geral". O destino, Espírito Santo, onde o senhor Luiz Fernando da Costa, vulgo Fernandinho Beira-Mar, "profissão traficante", conseguiu autorização para depor e acompanhar a audiência pessoalmente, em processo que responde em Vara Federal do Rio de Janeiro.
O custo aproximado de combustível, só para o avião, é R$ 50 mil (dados divulgados em estimativa do Última Instância). De acordo com o site Contas Abertas, por ano, cerca de R$ 419,3 milhões são consumidos com escolta de presos.
Bem, o Plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (07/03), por unanimidade, o Projeto de Lei 7.227/06, que torna regra geral o uso da videoconferência nos interrogatórios e nas audiências judiciais que tenham a participação do juiz, do acusado preso e de seu advogado. Ao preso será facultado, ainda, falar telefonicamente com seu defensor.
Se quando "ficam esperando passar 'as emoções' para decidir/mudar/votar alguma coisa importante" a gente tem todo direito de criticar, e assim procedemos com exacerbada veemência, é até gostoso --por ser quase inédito-- APLAUDIR a Câmara (percebam que foi por unanimidade, pois ninguém é candidato a louco para votar contra um negócio assim) pela sua tempestividade na correção de uma incoerência através de atualização reconhecidamente lógica. O fato com Fernandinho ocorreu dias atrás.
Meu registro do fato é apenas para lembrar que "quando se quer, é possível fazer". Embora tudo, não me empolgo. Deixarei para gastar o aplauso quando as medidas mais esperadas de segurança pública forem votadas, aprovadas e imediatamente passarem à prática. Minha preocupação, todavia, é saber até quando certas "emoções" fazem efeito. Não basta só o que alardeiam os jornais de hoje, criar lei que estabelece a garantia do julgamento rápido; é preciso, igualmente, que a punição seja certa, integral e equânime.
Por Ery Roberto |
9:42 AM
Terça-feira, Março 06, 2007
[meio ambiente]
MUITO AINDA É POUCO
"Este texto é dedicado a todos aqueles que já atingiram a consciência que
a salvação do planeta não depende só de atitudes políticas, mas exclusivamente
de uma mudança comportamental a cargo de todo cidadão que respira o
interesse pela preservação da vida, fazendo deste ato não apenas uma
atitude individual, mas contribuindo para a formação de uma cultura
que se preserve indefinidamente através das gerações."
Universidade Livre do Meio Ambiente - Curitiba
Recebi um pedido do Ítalo de Paula para que participasse de uma série de textos sobre atitudes voltadas à recuperação e preservação do meio ambiente. Prometi não escrever sobre qualquer iniciativa particular, inédita, mas apenas ilustrar com algumas atitudes que já deram resultados significativos na cidade de Curitiba.
Mais que o fato de me sentir à vontade para tal, sobra-me o orgulho por viver nesta cidade --que apesar de em nada ser diferente de outras regiões metropolitanas quanto aos principais problemas gerados pela convivência (ou a falta desta segundo a organização e bons princípios)-- construiu durante quase quatro décadas uma base fecunda voltada à melhor qualidade de vida.
Desnecessário dizer que qualquer programa governamental neste sentido não se faz sem planejamento de longo prazo, credibilidade, contrapartida e envolvimento da cidadania capaz de se plantar como um novo valor.
Todos já formamos de alguma maneira a consciência sobre os resultados da indiferença praticada durante séculos e hoje já vivemos a perspectiva de um futuro nada animador que foi semeado com a ganância, a desorganização e descontrole do Estado e os maus costumes populacionais.
São elogiáveis as atitudes individuais que vão desde o simples reaproveitamento da água da máquina de lavar, dos resíduos recicláveis, o esforço de menor consumo dos combustíveis poluentes e outras tantas, mas a partir destas é preciso lutar para a formação de um senso coletivo. A alienação, ignorância e a preguiça são os maiores inimigos para que isto tenha êxito.
Foi a partir da superação destes valores críticos que a cidade de Curitiba fez-se diferente. A administração científica difere da política. Bem verdade que tivemos retrocessos pelo inevitável das mazelas que teimam em corroer o partidarismo, mas a cultura formada tratou de preservar e requerer a continuidade das boas práticas. O curitibano virou exigente.
Curitiba considerou a Educação Ambiental, ministrada em caráter interdisciplinar, como uma forma de integrar as ações do poder público e da população para, juntos, iniciarem a construção de espaço equilibrado para viver. As questões ambientais passaram a ser tratadas com o objetivo de resgatar a história da cidade e manter a identidade dos moradores com o meio em que vivem, possibilitando a incorporação de valores relativos à proteção ambiental aliada à sustentabilidade do desenvolvimento local.
Um dos programas pioneiros foi a separação e reaproveitamento do lixo. Hoje é um comportamento. Iniciado em 1989, a separação do lixo orgânico do reciclável nas próprias residências gerou --além da ampliação da vida útil dos aterros sanitários-- economia energética, matérias-primas e empregos.
Outro programa ambiental, originado do programa Lixo que Não é Lixo, consiste na troca de material reciclável por alimentos hortifrutigranjeiros. Foi criado em 1991 para atender principalmente comunidades carentes, favorecendo a limpeza do ambiente urbano, a despoluição, a melhoria da qualidade alimentar, o escoamento da produção dos pequenos e micro produtores rurais e a realização de práticas ambientalmente corretas pela população enquanto processo educativo.
Embora a coleta seletiva feita pela prefeitura, esta consciência deu oportunidade a que muitas pessoas passassem a ganhar alguma coisa por conta de trabalho alternativo. Foi o caso dos carrinheiros. Ainda carente de melhor organização esta atividade contribuiu para que a população se engajasse na separação residual. Eles vendem sua colheita feita diariamente e disto sobrevivem, apesar dos riscos que tal lida contém pela falta de uso de equipamentos adequados e excesso de esforço físico. Na região central contribuem para a desorganização do trânsito, mas é inegável que há uma razoável tolerância da maioria dos pedestres e motoristas.
Existem problemas novos gerados pelo excesso de coleta particular. 70% são distribuídos a depósitos e pequenas empresas particulares localizados nas mais diversas partes da cidade. Estes locais não têm estrutura adequada para separar o material de maneira eficiente, ficando limitados a separar e comercializar apenas aqueles materiais mais "valiosos" do ponto de vista econômico. Além disso, a maioria dos materiais recicláveis que chegam ao Programa está misturada uns com os outros, principalmente com muita matéria orgânica. Este aspecto já vem sendo trabalhado através de campanhas incentivadoras para lavagem de copos e embalagens de produtos orgânicos, com a recomendação de se utilizar a água que sobra do tanque de roupa ou a água utilizada para enxaguar a louça (basta fechar o tanque ou a pia).
A Universidade também contribuiu para este diferencial. Em 2002 foi criado o projeto "Separando Juntos" (UFPR) contemplando a implantação de um Programa de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos. Inicialmente através de um processo de educação ambiental para a sustentabilidade visando mudança de atitudes pela comunidade universitária quanto à redução, separação e destinação adequada dos resíduos. Ao mesmo tempo passou a incentivar a realização de pesquisas principalmente relacionadas às formas de tratamento e destinação adequada dos resíduos gerados. Novos cursos foram criados nas universidades paranaenses.
Escolas, entidades filantrópicas, empresas em geral colaboram com atividades distintas de conscientização, realizam plantios comunitários de árvores, arbustos e flores geralmente em áreas degradadas existentes, fundamentais para a recuperação das mesmas e conseqüentemente melhorando a qualidade ambiental das comunidades.
Parece inacreditável, mas a delinqüência ainda destrói patrimônios públicos como elementos do sistema de transporte coletivo, pratica roubos de fiações elétricas, atenta contra cabines telefônicas, picha painéis de arte em logradouros públicos e comete outras ações típicas, mas tem pouquíssima audácia de qualquer atitude criminosa contra as reservas naturais presentes nos inúmeros espaços ecológicos, como nossos belíssimos parques. A própria população é sua maior guardiã.
Fundamental nisto tudo foi confirmar o grandioso papel da Educação. Este é o maior processo mobilizador para a conquista do sentimento de cidadania. Faz acontecer porque seus resultados são práticos, visíveis e promovem adesão. Curitiba, hoje conhecida por sua vocação de luta ecológica, virou, com todo orgulho, uma grife.
Ainda há muito a se fazer e tudo que se fizer ainda será pouco, pois o mundo não é só isto aqui. Também é verdade que governo e população de outras grandes cidades estão gradativamente ganhando esta conscientização, mas é preciso um pouquinho mais de cada um de nós. Quando esta progressão de atitudes for geométrica fecharemos o círculo comprometido do planeta.
Descobrindo alternativas energéticas, recuperando o respeito à natureza e agindo racionalmente nós respiraremos pureza. A primavera será novamente visível e cheirosa. Depois do verão as folhas voltarão a cair sobre nossas cabeças pelas alamedas oxigenadas e felizes, prenunciando a exigência de buscarmos o aconchego humano para outro inverno.
Certamente aquela bela canção de Paulinho da Viola, "Amor à Natureza", haverá de ser cantada com outras palavras.
[...]
Flutua no ar o desprezo
Desconsiderando a razão
Que o homem não sabe se vai encontrar
Um jeito de dar um jeito na situação
Uma semente atirada
Num solo fértil não deve morrer
É sempre uma nova esperança
Que a gente alimenta de sobreviver
Praça do Japão | | Parque do Passaúna |
Curitiba faz aniversário (314 anos) no dia 29 de março.
[+] - Trajetória do Discurso Ambiental em Curitiba - Revista de Sociologia e Política - Márcio de Oliveira - Universidade Federal do Paraná
[+] - Folha de São Paulo elogia Curitiba
Por Ery Roberto |
4:50 PM
Segunda-feira, Março 05, 2007
[flagrantes da vida real]
O AMOR É LINDO!
 Imagem: www.hedweb.com
Palmeirenses também amam! O "Animal" está mais vivo do que nunca! ( e o "curingão" cada vez mais ferido...).
Já os flamenguistas estão vivendo uma "dureza"! Desta vez Madureira "não chorou".
Falando em "futebol", agradeço ao Milton Ribeiro pela publicação, hoje, das minhas respostas ao questionário Proust lá no seu blog. Rendeu uma alegre "alavancada" nas visitas por aqui.
Por Ery Roberto |
9:23 PM
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