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Sexta-feira, Setembro 28, 2007
[arte digital]
SEDUÇÃO
Para encerrar a semana e o mês de setembro (de forma bem leve, imagino!), meu último trabalho gráfico.
Diferentemente dos anteriores (fiz poucos desenhando corpos), nesta composição não utilizei gradientes, à exceção do fundo. Para conseguir volume no corpo da modelo apliquei diversas camadas com feather elevado e/ou inner shadow, criando sombras suaves em tom mais claro que o da pele. As luzes foram conseguidas com mistura de layers (camadas) utilizando três blends. Por incrível que pareça o que deu mais trabalho foi o detalhe do contorno da calcinha, pois resultou de uma seqüência de paths minúsculos rotacionados em grupamentos distintos.
Ainda acho que o Fireworks não chega a ser páreo para o Photoshop, mas um conhecimento mais avançado o deixa muito próximo. A grande dificuldade que parece ser a distribuição de luzes pode ser amenizada com a técnica de utilização dos blend mode. Os principais filtros do Photoshop funcionam com semelhante desempenho no Fireworks e o grande desafio que são os traçados curvos se consegue com considerável facilidade depois de um bom treino da ferramenta pen tool.
Sei que este linguajar é "grego" para muita gente, mas não tenho outra maneira de explicar. E achei que não haveria necessidade de ficar descrevendo o motivo da ilustração, pois de mulher a grande maioria (será?) entende muito. Dizem que quem menos entende são elas próprias (algumas coisas não me permitem assinar esta teoria), mais isto já é assunto para outra ocasião
Dedico este trabalho ao grande amigo Eduardo Lunardelli, um cardeal da pintura, escultura e tantas outras traquinagens, cujo blog (Varal de Idéias) é uma ode às artes.
Outro dia ele foi comentar um post aqui e a janela do sistema abriu ao lado da imagem do texto anterior (MENINAS DO BRASIL). Acabou perdendo o fôlego e trocando as bolas. Foi uma boa pista: o cara adora "porta-jóias". Acho que, ao contrário de tantos artistas, ele é "normal" até de perto.
Bom final de semana. Viva o meu glorioso coxa-branca (30.000 mil expectadores em jogo de sábado na Série B, "com muito orgulho e com muito amor, vamos subir COXA!), viva o tricolor paulista (chamem de "bambis" e agüentem os títulos), pesames aos botafoguenses que conseguem perder de 4x2 uma partida que ganhavam por 2x1 até aos vinte minutos do segundo tempo e jogando contra 9 argentinos), abaixo a convocação do teimoso Dunga (é o Renan do futebol) e salve as Meninas do Brasil porque o nome certo e da hora é Marta. Uma "craquaça de bola" (prefiro-a aos tais Afonso e Wagner Love, e acho que a FIFA deveria deixá-la tentar "SEDUZIR" o anão. Só porque disseram que ele foi uma "era", agora acha que é o "tempo todo").
Nunca teve tanta coisa engraçada "nefe país", não acham? (tomam o "mastro" da bandeirinha só porque a coitadinha posa para a Playboy; também ela estava tão fora de forma que não passou no teste físico da CBF! Veja aqui, aqui e aqui o quanto esta moça anda sem preparo). Minha gente, "a regra é clara, é preciso levantar a bandeira!".
Vou continuar tomando "leite", daqueles servidos em taças, porque o inverno aqui no Sul ainda está na moda, igual a presidente do Senado: não sai nunca.
Até 2010 (putz, pode ser a última chance...)!
Por Ery Roberto Corrêa |
10:38 AM
Quarta-feira, Setembro 26, 2007
[paradoxo]
MALFADADA ESPERANÇA
Toda língua está ligada a uma cultura particular que moldou, por sua vez, as palavras e as estruturas de que se valem os falantes para compreender o mundo.
Esta afirmativa certamente contém uma potenciação elevada que lhe transforma em autêntica força de expressão na tentativa de estabelecer um sentido lato para explicar famosa hipótese, conhecida em Lingüística por Sapir-Whorf. No seu sentido restrito, digamos assim, tal conjetura apregoa que a natureza de uma língua particular influencia o pensamento habitual de seus falantes e, de alguma forma, arranjos distintos aplicados nos idiomas promovem os distintos modos de pensar.
Semanticamente o termo "esperança" ilustra o fenômeno com perfeição.
Análise da origem e seus significados mostram, ou pelo menos é possível perceber assim, que nossa esperança é diferente da pensada por outros povos. No comportamento brasileiro é fácil concluir que costumamos internalizar a esperança. Isto já contraria a própria etimologia de expectativa. Aos latinos a palavra spes significava, entre outras coisas, "a expectativa de algo bom ou ruim". Disto derivou sperare (verbo), que originou a palavra "esperar". Já "expectativa" é diferente, pois é um derivado do latim expectare, formado do prefixo ex e de outro radical, spec- (olhar). Assim, seu real significado é "ato de olhar para fora".
O verbo supõe uma ação. Tal dinâmica é muito evidente na língua portuguesa, mas o verbo "esperar" nos parece algo estático, guardado que fica na dependência de outrem, da sorte, da seqüência dos fatos para que se materialize e sofra uma metamorfose que o faça sair da inércia, do sentimento que parece não ter vida própria.
É até representado em nossa cultura pelo tom verde, que por sua vez também significa alguma coisa que ainda não alcançou seu estágio de maturidade e aguarda a fase de realização, de produtividade máxima, de consumo. Sendo a segunda das três virtudes teologais é simbolizada por uma âncora, justo um objeto que serve para deixar a embarcação parada.
Tanto para ingleses como alemães e franceses, a sensação de movimento para "esperar" é de uma evidência incontestável, além de denotar algo concreto. Por esta razão, esperar um objeto ou uma pessoa, em inglês, se diz to wait. Em alemão o esperar (warten) é mais específico pelo conceito próprio de prefixos. Desta maneira, sempre se diz erwarten, forma tradicional de maior peso à confiança naquilo que se aguarda, diferente de abwarten, uma enfatização para etapas que precisam ser vencidas até a chegada do que se espera.
Já zuwarten é o vocábulo que tem sentido mais próximo da "esperança" portuguesa. Os germânicos utilizam-no quando querem mostrar que há uma dependência na sucessão dos fatos, ou seja, enfatiza, por exemplo, a paciência de quem espera o desenlace da ação.
Há também toda uma analogia possível nos sentidos das antigas civilizações, cujo estudo mais aprofundado mostra tanto um claro anacronismo como também similaridades com o entendimento que nos é comum. Desde a Esperança deusa dos romanos, que pela abstração fenomenal proporcionava um culto artificial para o povo, até Elfis —o mito grego— (elpís significa espera de algo, donde derivaram sentidos para "conjetura, pressuposição, previsão" e também "confiança, esperança"), passando pela lenda de Pandora e o famoso vaso de Epimeteu, que tinha um irmão chamado Prometeu. A tradução errônea de píthos (vaso) como "caixa" deu origem à "Caixa de Pandora" que, na versão de Hesíodo, continha todos os males.
Contrária a esta versão, para Bábrio (III a.C) o Vaso de Pandora continha todos os bens e era um presente de Zeus a Epimeteu. Este conhecimento levado a alguma profundidade pode servir para mostrar a dualidade da "esperança".
De tudo se conclui ser possível que no futuro os estudiosos da etimologia continuarão em seu desafio mental, buscando entendimento para o caráter de ceticismo que encerra a significação de "esperança" para nós brasileiros.
Certamente haverão de investir um longo tempo na compreensão de alguns valores culturais que nos impusemos e passarão pela leitura de tantas mazelas da nossa história. É óbvio que se debaterão ao descobrirem nossa vocação de crentes absolutos na teoria e completos fariseus na prática interpretativa do Novo Testamento. Quando lembrarem de Paulo em I Cor. 13:13, descobrirão a nossa hipocrisia, pois embora o conceito diagnosticado pelo apóstolo sempre praticamos maior consideração a prístis (fé) e principalmente a elpís (esperança) do que propriamente a agapé (amor).
Entre estas três coisas, fé, esperança e amor, só há uma que é concreta justamente porque encerra obrigatoriamente em toda graduação significativa um poder dinâmico. "... É preciso amar como se não houvesse amanhã". Sábia exceção brasileira na voz de Renato Russo! Isto sugere urgência, onde é impossível alcançar sem que se inicie uma ação imediatamente. E o resultado do amor é a verdadeira Paz. Logo, não há paz porque só temos muita esperança. E nossa esperança é "esperar" e p(r)onto, sem nenhum prefixo.
Há escancarada controvérsia sobre a autoria da máxima "A esperança é a última que morre". Já estou acreditando que tenha sido algum brasileiro irônico, um Barão de Itararé da vida, quem sabe? Ou o fato de outro alguém ter lhe acrescentado "mas é a primeira a entrar em coma" não é outro indício de ser produto bem tupiniquim?
Que dizer da defectível "Quem espera sempre alcança"? Combinemos, nem vamos falar dela, é antítese explícita.
Esperança morre porque nada fazemos por ela. E assim cunhamos o verbo reclamar. Os mais novos não lembram, mas dizia João Saldanha, o profissional de futebol: "Quem reclama já perdeu". [A frase do primeiro parágrafo deste texto é da autoria do Prof. Mário Eduardo Viaro, USP, autor de Por trás das Palavras: Manual de Etimologia do Português - Globo, 2004, a quem devo a idéia deste post, fruto também da excelente fonte que foi a leitura do seu recente trabalho A Esperança é a última que foge.]
Por Ery Roberto Corrêa |
10:07 AM
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
[cenas do cotidiano]
MENINAS DO BRASIL
Mal tinha completado dezoito anos. Desprotegida pelo acaso e vítima das oportunidades foi levada pelas promessas do dinheiro fácil. Disseram-lhe que seu número era Marilyn, que esquecesse o nome de batismo.
Ainda não fazia programas, limitava-se ao strip-tease no palco. No isolamento contextual da sua arte minimalista, exibia por entre as transparências a depilada puberdade com ensaiada sensualidade. Arrancava gritos e suspiros quando parava com as pernas abertas sobre estratégico basculante no centro do palco, cujo fundo falso continha um ventilador que lhe esvoaçava o vestido branco. Se Wilder estivesse na platéia diria que "o pecado exala talco".
Momentos depois que terminava, recomposta em seu colante jeans e no top que lhe destacava os apetitosos seios, perambulava pelo salão buscando o cliente que lhe pagasse os batizados drinks. Só poderia ir embora à madrugada quando completado seu segundo show, próximo da casa cerrar as portas.
Sentada à mesa de pretensos apaixonados, percebia quanto os homens desconhecem uma mulher. As carícias das luzes difusas na pele pareciam-lhe mais verdadeiras que dos toques masculinos em seus seios e coxas. Suportava em troca de não liberar os lábios rubros de batom. Praticava um sorriso-suplício.
Nos fins de noite, quando as taças acolhiam tédios e as verdadeiras luzes acendiam a ilusão presente, só restavam bêbados e arruaceiros, para quem sortilégios galantes já não garantiam o reforço do cachê na saideira habitual.
A artificialidade e o tempo não lhe permitiam nem perceber que o pior estava por vir. Só restava o cansaço num banco traseiro de táxi e o caminho do cômodo. Lá, um rebento esperava para lhe esvaziar os peitos...
| ... é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela[...]
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
[Uma Mulher – Bruna Lombardi] |
Por Ery Roberto Corrêa |
8:35 AM
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
[florbela espanca]
A MINHA TRAGÉDIA
| Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! ...
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade! ...
Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! ...
Vidas Lusófonas - Florbela
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Por Ery Roberto Corrêa |
10:19 AM
Terça-feira, Setembro 18, 2007
[mundo corporativo]
DICAS DE GESTÃO EMPRESARIAL - Caso III
Hoje, a Dica nº. 3 - Tempestividade.
[caso anterior]
Na África, todas as manhãs, o veadinho acorda sabendo que deverá conseguir correr mais do que o leão, se quiser se manter vivo.
Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deverá correr mais do que o veadinho, se não quiser morrer de fome.
Conclusão:
Por Ery Roberto Corrêa |
7:47 PM
Sexta-feira, Setembro 14, 2007
[sanatório geral]
GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA ILHA DA FANTASIA
Na Idade Média havia um festival na Europa. Tinha profundas semelhanças com nosso consagrado carnaval. Era conhecido como festa da fantasia, dos foliões ou dos loucos.
A folia sempre conviveu intimamente com a fantasia e neste casamento, não sem motivos, consolidou-se a utilização de certa simbologia. Assim como a religião, a fantasia tem o poder de romper as barreiras dos fatos cotidianos para invadir um campo metafísico. Não se trata de uma transcendência como aquela que caracteriza a arte poética e sua marca de adjetivação espirituosa ou de profundo teor filosófico, como na poesia inglesa do séc. XVIII. É sim uma simbologia que abusa da zombaria em todas as vertentes imagináveis.
Na fantasia o símbolo tem como papel preponderante a ridicularização do status quo, tornando-se um fenômeno de ironia que ataca sem perdão a ordem vigente e o conjunto mais guardado de valores que identifica a cultura de um povo. O deboche cresce na medida em que os foliões estendem o período de devoção às suas fantasias e, tal qual adeptos de uma religião do mal, sua crença se faz o caminho mais curto para o encontro com a loucura. Neste estágio, o perigo maior é o poder de "evangelização". Verdadeiros obreiros do sarcasmo diabólico passam o seu carnaval particular subvertendo a ordem social instituída.
Referindo-se ao carnaval tradicional Chico Buarque ilustrou maravilhosamente a situação no partido alto Vai Passar: "Ai que vida boa, olerê, ai que vida boa, olará, o estandarte do sanatório geral vai passar...". É notório na interpretação desta letra que se referia a loucura da fantasia e das máscaras, ao devaneio incontido dos histriões. No antigo teatro greco-romano, dava-se a designação de mimo à farsa popular, entremeada de danças e jogos, na qual se imitavam os caracteres e costumes da época. Esta exuberante crítica serve para sugerir que nossos empolgados e fogosos carnavalescos convidam a vida a passar imponderada, pois afinal esta "ofegante epidemia" já nos transformou no verdadeiro manicômio coletivo, desfilando sobre paralelepípedos arrepiados que também acolheram os pés dos nossos ancestrais.
Mas a inconseqüência da fantasia está em ser uma brincadeira com objetivo único de contribuir com a ridicularização. Na verdadeira arte, por exemplo, quando a ironia se faz presente tem o objetivo da conscientização do fato, ligando-o diretamente à necessidade de reflexão. É possível concluir sobre a natureza da folia como sendo a contra cultura que passa arrastando a crítica escandalosa com lógica inaplicável, porque é apenas um mero embuste.
Tudo analógico. Brasília é conhecida como a Ilha da Fantasia brasileira. Na esplanada, ao contrário do que o termo sugere, não se tem boa perspectiva. Nos palácios, ao invés de reis e rainhas das mais finas linhagens passam personagens canhestros. Uns detestam livros, mas adoram gastos com dinheiro público, mentiras e dialetos estúpidos. Não usam coroas, mas tem orgasmos quando vestem faixas e se enfeitam com estrelas que lembram generais. Seus tronos são poltronas de avião. Preferem o reservado do estúdio de rádio ao salão aberto das entrevistas coletivas. Questão de dificuldade de olhar. Outros saem pelas portas dos fundos, numa fantástica representação de expulsão popular e retornam gloriosamente para sentar ao lado dos ex-chefes da tropa num Senado que cheira bosta de boi.
A mais recente fantasia da ilha é o Parlamento com suas Quarentenas de Estúpidos. São todos coerentes na autoproteção do bando. Na lendária saga de Ali Babá, como na do cangaceiro Lampião, o chefe estava sempre à frente dos seus quarenta ou da volante. Em Brasília os Alis são preservados pelos acertos obrigatórios dos rabos presos, alcançando o perdão dos escândalos nas suas sessões secretas. Asilados nos porões, sob concreto côncavo ou convexo, as camarilhas dançam aos ritmos do conchavo e do desconexo e apelidam a democracia pelo esquisito nome de corporativismo.
Na Ilha da Fantasia, para zombar das crianças e dos miseráveis que morrem nos morros cariocas perdidos pelo comércio insano de drogas, negociam-se influências. A diferença está apenas na ótica e retórica. Nos morros, lidar com drogas é crime, em Brasília ser droga é condição. Roubar galinhas no continente dá cadeia, lá na ilha fazer loby e fabricar recibos de venda de vacas teóricas é adereço. Do lado de cá omitir no imposto de renda dá sansões porque é descumprir a lei, mas lá vira diversão do esquecimento. Nós temos o dia de acerto com o Fisco, eles o "Dia do Fico".
Aqui fora pensamos em nossas fantasias dentro do conceito dimensional da ciência exata: o número mínimo de variáveis necessárias à descrição analítica de um conjunto. Em Brasília é bem diferente, a fantasia carrega os símbolos legítimos da quimera, um deles o monstro fabuloso, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. Como são pândegos, eles saem travestidos de colossais entes mitológicos sem cabeça, corpo de delito e rabo de serpente. Vivem na evolução perfeita da incoerência, da incongruência e do absurdo que não admite nenhum respeito ao decoro e a decência, apenas usando a sociedade para lhes garantir a perpetuação.
Quando chegarem as próximas eleições que rufem os tambores da bateria das promessas, que desfilem novamente as "bailarinas do descaro", que dobre a esquina o bloco dos mensaleiros, dos aloprados e das sanguessugas, que no lugar dos pigmeus do bulevar venham outra vez os anões do orçamento, bem atrás de uma grande Land Rover alegórica. A ala dos barões famintos será das mais concorridas pela presença dos banqueiros para quem o grande Rei governa. No enorme carro abre-alas, construído com incentivos do jogo do caixa-dois, que suba outro Joãozinho Quarenta especialista em metáforas esdrúxulas e futebolísticas e que chore com lágrimas de crocodilo.
Como pobre gosta de luxo e supérfluo, que o próximo "Mimo" venha com uma grande coroa em formato de bolsa, revestida com grãos de feijão de ouro e no manto escrito: "Rei foi feito só pra 'viajar' e súdito pra votar, trabalhar e imposto pagar".
Que o samba-enredo seja um samba popular: "O Rei falou que no Congresso tem mais de 300 picaretas". E por fim, que roubem mais um pouco do sangue das veias do povo para retingir o estandarte do sanatório geral. Porque tudo isto tem que passar. Meu Deus tem que passar. "Vai passar" porque nossos filhos, ao menos num instante que seja, merecem a realidade para ajudarem a rasgar a página infeliz da nossa história e verem a "cidade ser feliz e cantar até o dia clarear".
EFABULATIVO: Dois dias depois do perdão do Senado, a Câmara já deu a senha do próximo "desfile": foi aprovado, na madrugada, em comissão especial, por 14 votos a 5, o relatório do deputado Antonio Palocci (PT-SP) que pede a continuação da CPMF. Agora é aguardar as próximas apresentações no sambódromo. E não pensem que é espetáculo de segundo grupo.
Por Ery Roberto Corrêa |
11:55 AM
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
[todos os sentidos]
NOVAS IDÉIAS, UMA PRIMAVERA APÓS O INVERNO DA AUSÊNCIA
Desde a data do meu último post até hoje se passou uma semana. Havia motivações para ter escrito outros textos sobre temas interessantes como nosso 7 de setembro, o sexto aniversário da tragédia americana vivida naquele ataque terrorista ao WTC, a temporada circense do Senado da República, a morte do inimitável Pavarotti, o azar do Felipe Massa. Teria ainda o delicioso barreado do sábado que se transformou no "já te vi" do almoço de domingo, a vitória do Fluminense sobre o Brisa (ex-Furacão) e muitos outros. Mas, resolvi descansar.
Talvez, instintivamente, tenha prestado solidariedade ao Valter Ferraz que anda quieto nos derradeiros dias da gravidez, à espera da parida do seu "Capão, Outras Histórias". Sim, solidariedade, afinal minha expectativa como "estilista" da roupa com que este livro se apresentará ao mundo tem proporções semelhantes as do autor.
Sobre alguns dos temas citados, mesmo tendo passadas as melhores oportunidades, é sempre bom citar pessoas inteligentes e com sensibilidade invejável. Adelaide, por exemplo. Ela fez um texto glorioso sobre o assunto Semana da Pátria. Apesar de ser uma composição cuja origem está na data, é expressivamente atemporal quando se absorve a ternura com que descreve sua verdadeira bandeira. Seus sentimentos tão claros fazem o coração do leitor tremular como o próprio estandarte desfraldado em leveza absoluta pelas virações costumeiramente sopradas do mar para a terra.
Faz-nos mergulhar na possibilidade real de um 7 de setembro onde não há lugar para verborragias dos populismos de palanques, nem "paradas" onde aquelas indumentárias mais se parecem com algo feito de concreto. Adelaide desenhou um sonho e o coloriu com tons que representam analogias fecundas, muito além de reservas naturais, riquezas e paisagens. Há, sobretudo, um horizonte diferente que não é feito só de patriotismo, mas também de uma reflexão construtiva e essencialmente humanística.
A temporada circense do Senado pode ser prorrogada. Tudo dependerá da performance de alguns palhaços (com o perdão daqueles do bem e que nos emocionam). Os chargistas sabem diferenciá-los bem, pois ultimamente os têm desenhado com grandes rabos entrelaçados. Ambos os resultados são possíveis: cassação ou absolvição. O que preocupa é a farsa, esta capacidade política de sofismar mais ou menos dependendo da possibilidade de visão pública, da porta fechada ou não, de voto secreto ou aberto, do peso do comprometimento, do pagamento moral (?) de favores, de certo culto à defecção, atitude que exprime defeito de caráter, a própria deserção da consciência.
Grassando o corporativismo costumeiro absolverão Renan e condenarão a Casa a tal descrédito, atitude tão grave quanto o o verdadeiro acinte que representa ao cidadão esclarecido a privação de saber quais deles agiram com o insuportável fisiologismo.
Fora destes contextos há outras notícias boas e algumas ruins.
Quem o conhece e se acostumou com as refinadas observações do cotidiano, quem o admira pela disposição ao trabalho e amor à família, além da louvável capacidade de encontrar novos amigos, está feliz com Fernando Cals. Apesar da gravidade que caracteriza a cirurgia, as safenas e mamárias foram bem sucedidas. Fernando foi fotografado na UCI por sua filha Andréa e nos passou a nítida impressão de estar bem. Ele tem um "Coração Valente".
Perdi meu último tio, no dia 6 de setembro. Eliseu estava doente e muito frágil, organismo comprometido pela insuficiência respiratória. Deixou à minha família muitas saudades, pois apesar dos seus 83 anos era belo exemplo de motivação, sorriso franco, solidariedade e carinho. Mas teve nos últimos momentos a companhia dos filhos, netos queridos e muitos amigos. No sepultamento pudemos sentir que sua solidariedade, marca tão própria e que lhe dava orgulho, foi correspondida com a presença maciça dos sobrinhos, a maior parte residente em outras cidades, mas que não se furtaram ao desejo de lhe prestar a derradeira homenagem. Elizeu era separado, vivia só e recebia cuidados da minha mãe.
Às vezes precisamos de uma lufada de ar na cabeça. Boas frases costumam ser o melhor antídoto contra a estreiteza mental. São como um ponto luminoso. E de luz carecemos sempre. Por isto Adelaide me fez bem. Lembrei de August Strindberg, dramaturgo sueco (1849-1912): "Sonho, logo existo".
Uma semana sem escrever foi excelente até descobrir a citação de Walter Scott, o escritor inglês: "Descansar em demasia é oxidar-se"
Pensando na decisão de hoje, lembrei da poesia. O espanhol Juan Ramón Jimenez demonstra que nada fica escondido nem impune. Está na amplitude do seu pensamento: "Em cada um dos cinco sentidos estão os outros cinco". Acabei por entender porque se fala tanto em sexto sentido. Que não pensem nossos admiráveis senadores que não se pode ver através do olfato, dos ouvidos.
Devo estas frases à minha amiga Gisele Melo. Sem me encontrar por alguns meses, brindou-me com sua presença num suculento barreado, sábado passado, retornada da Europa com um livro em pacote de presente (Palavras que Iluminam), que me foi oferecido ainda como lembrança do aniversário completado em agosto.
E mais: trouxe-me chocolates suíços. Bom ter amigos, pois "surpreender-se, admirar-se, é começar a entender".
[UPDATE - 12.09.07 | 18H00] -
Canalhas! Vermes!
[E foram, novamente, 40. Sintomático, claro!]
Leia isto. O texto é de Hélio Schwartsman, em "Pensata" (Folha Online). Escárnio é pouco.
Por Ery Roberto Corrêa |
8:17 AM
Quarta-feira, Setembro 05, 2007
[opinião]
PSICÓLOGA: CAZUZA ERA MARGINAL
 Circula na rede um texto contundente, cuja autoria é atribuída a uma profissional Mestra em Psicologia e que, certamente, muitas pessoas já leram.
Antes de reproduzir, para que saibam os que ainda não o receberam e para que se teçam algumas considerações necessárias, afirmo que me pareceu peça intrigante sob diversos aspectos. Confesso que por não conhecer a autora e outros pensamentos correlatos —pelo menos ainda não os li— , sinto-me incapaz de concluir se o raciocínio representa uma opinião que tem alguma fiança da classe profissional a que pertence.
Embora divida sua crítica em tom semelhante aos pais de Cazuza, causa certa inquietação a eventual possibilidade de manifestações do gênero tornarem-se incentivos a julgamentos impróprios, principalmente por envolver alguém que já não pode mais se defender por si mesmo.
Decido não publicar o nome da autora por razões óbvias, dentre elas o fato de não saber se o texto foi tornado público com o seu consentimento.
Ei-lo, reproduzido na íntegra, no mesmo formato em que me foi oferecido.
Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora. As pessoas estão cultivando ídolos errados. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza? Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível. Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado. No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta. São esses pais que devemos ter como exemplo? Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora. Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante. Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro. Admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra. Um criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não. Estou horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente, ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que bater na mãe, usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, são certas, já que foi isso que o filme mostrou. Por que não fazem filmes de pessoas realmente importantes, que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria? Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor. Devo lembrar aos pais que, a morte de Cazuza, foi conseqüência da omissão dos seus pais, e uma educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO, quando necessário? Lembrem-se que, NÃO, é a prova mais difícil de amor. Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar. E essa educação já começa desde bebê. Não se preocupem em ser amigo de seus filhos. Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi a pessoa que mais os amou. Foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois o verdadeiro amigo, não diz SIM, sempre." Portanto, NÃO, é a melhor maneira de dizer ao seu filho que você o ama e ele é a pessoa mais importante da sua vida.
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O principal questionamento surgido diz respeito à nossa capacidade de separar o ídolo da pessoa humana. Ela é verdadeira em modelo generalizado, traduzindo assim um comportamento justo, ou construímos a consideração baseada em atributos aos quais temos certa conivência (tolerância) ou afinidades?
Mas, "o ídolo não se dissocia da pessoa" pode ser outra afirmativa que se alterne. Estas duas possibilidades já seriam suficientes para levantar uma legião de contraditos. Quando se analisa a arte, embora possa parecer latente a conjugação da pessoa ao seu trabalho, também é normal pensar isoladamente no produto como resultado do talento que floresceu de forma liberta dos defeitos da pessoa humana.
Além do mais, eu posso gostar da obra artística de um marginal porque a repercussão causada pelo sentido desta arte me faz perceber o mundo sob uma ótica marginal, sem necessariamente sê-lo. Conheço a realidade vista por outros olhos ou, no caso, pela inspiração fantasiosa ou realista, mesmo que na falta de uma ideologia do artista [... Ideologia / Quero uma pra viver...] . Será que versos tais referiam-se a uma necessidade voltada para a própria vida corriqueira, o ato de viver, ou especificamente para um ideal a ser curtido como sonho, uma síntese fantástica?
Na última década de vida Beethoven gastava as noites pelas tavernas, vestia-se como um maltrapilho, arranjava brigas com vizinhos, seus pulmões estavam em frangalhos e o fígado dissolvia-se no álcool. Seria justo considerar sua música desprezível, impondo sentença sumária apenas por estas circunstâncias do final de vida? Sua genialidade é facilmente dissociável de tudo, justo porque ela continha um padrão ingenitu. "O indivíduo não nasce sabendo" parece ser muito relativo ou extremamente subjetivo (ou deveria ser para a Psicologia) ao analisar gênios. O que é provável é não poder fazer em determinado tempo, todavia o que se desenvolve durante outro tempo certo já estava contido. E se esta premissa tem algum valor espiritual, aquilo que é inato não sofre interferências do que foi adquirido a posteriori em termos de caráter alheio ao dom.
É neste raciocínio, permitindo-me o não requerimento de nenhuma lógica, que prefiro me sustentar para tentar quebrar a tendência natural de se unificar negativamente a figura do artista com as mazelas da pessoa. O preconceito cega. A arte é divina e imortal, o operário humano.
Se o trabalho deriva para uma representação apologética daquilo que sendo mal reconhecível lhe sustenta, é óbvio que neste sentido o artista estará ele próprio demonstrando uma dependência, certa loucura, e assim, sendo agente da associação. Neste caso é transmitida pela origem. Não entendo que tenha sido especificamente o caso de Cazuza, que até no momento crucial da doença continuou o seu "delírio" da mesma forma como nos momentos da marginalidade, compondo ali uma temática essencialmente humana, embora vestida de compreensível radicalidade, que pode ter nascido da impotência de se auto-conceder o perdão na fatalidade da rota a que se submeteu.
Mesmo sem poder afirmar que estas coisas têm fundamento absoluto, poderia delas me utilizar para contestar o pensamento da respeitável Mestra. Entretanto a certeza que cada um deve ser livre para eleger o embasamento das suas convicções me torna prisioneiro das minhas próprias, assim incapaz de emitir crítica real.
Apenas posso discordar. Neste âmbito sinto-me liberal para expressar, com gramática consagrada, que filhos aprendem com nossos próprios exemplos de pais. Os advindos do alheio servem-lhes de elementos de referência para que consolidem os nossos e assim alcancem o necessário conhecimento e experimentação do livre arbítrio. Só assim serão homens. Se não abrirmos tempestivamente as cortinas do diálogo alimentando subsídios saudáveis, o mundo se encarregará de abrir o risco com os insumos negativos que dispõe, pois "O Tempo não Pára". Neste particular entra no jogo a responsabilidade em lhes oferecermos a assistência, administrando oportunidades na exata cadência do seu poder de discernimento.
Um filme que trata da realidade não será algo tão pior do que a própria realidade. Não será a admiração de qualquer arte a culpada por insucessos psíquicos, até porque o pré-requisito para tanto é ter domínio do nosso íntimo.
Por Ery Roberto Corrêa |
7:20 PM
Terça-feira, Setembro 04, 2007
[hq]
JORNALISMO EM QUADRINHOS
"Bom ter existido pessoas, como Didier Lefèvre, que conseguiram
perpetuar esta linguagem quase esquecida das gerações
atuais, incrementando-a com outros sentidos, mas sem nunca
lhe roubar o inefável realismo".
Devo à amabilíssima Maria Elisa Guimarães, professora do Departamento de Filosofia da Universidade do Pará, mais conhecida na blogosfera como a não menos querida MEG, uma série de respostas a respeito do valor das histórias em quadrinhos.
Sem querer fazer deste texto uma síntese das respostas, até porque ela já publicou um excelente trabalho em seu Flabby 2, onde apesar de não ter absolutamente esgotado o assunto apresentou robusto material com ajuda dos seus entrevistados (veja links ao final), ocorreu-me contar sobre uma leitura recente sobre o assunto.
Quando acompanhou uma caravana dos Médicos sem Fronteira pelo Afeganistão, em julho de 1986, o fotógrafo francês Didier Lefèvre viveu uma experiência sem precedentes. Temia não conseguir chegar ao destino naquele país cheio de conflitos. À época os guerrilheiros mujahidin — embrião do talibã —, resistiam à invasão russa.
Naquele lugar tão estigmatizado, mas cheio de lindas paisagens, Didier encontrou um povo diferente: marcado pelos conflitos e sua condição de vida, era normal entender uma natureza desconfiada, embora solidária; gentil no trato, apesar de rude nas ações. Ele ficou tão impressionado que lá retornou oito vezes. Durante estas experiências colheu centenas de fotos.
Ao analisar este material concluiu que embora um representativo acervo, naquele conjunto de imagens impressionantes ainda não cabia tudo que vivera. A guerra tinha o poder de se sobrepor a tudo e exercia força que ia além do que seria possível captar através da objetiva, ou seja, um diafragma lhe pareceu impotente para dar exatidão às formas de certas cenas.
Foi então que pensou na necessidade de contar os fatos que ficaram fora do alcance da sua câmera, como situações não registráveis, por segurança, costumes ouvidos ao acaso, cenas sem o necessário complemento visual, enfim, o real sentido desses fatos.
Em 2003, finalmente, ele descobriu a forma mais adequada para traduzir aquelas cenas. Passou então a trabalhar na obra O Fotógrafo, uma reportagem em quadrinhos, que a Conrad traz ao Brasil em trilogia, feita por ele, pelo desenhista Emmanuel Guibert e pelo diagramador Frédéric Lemercier. O primeiro volume já saiu em novembro do ano passado e o segundo está prometido ainda para este semestre.
Há um conjunto de peculiaridades na gramática utilizada para a construção deste tipo de trabalho. O jornalista Flavio Pinto Valle Belo, que defendeu este ano a monografia Quadro a Quadro: Reflexões sobre o jornalismo em quadrinhos, na UFMG, enumera estratégias como "descrição meticulosa de cenários e personagens, situações de preparo da ação principal (Pormenor Insignificante), rede de episódios isolados narrados por personagens que é inserida no relato maior, que tudo contextualiza (Teia dos Fatos) e ênfase na personalidade de entrevistados dando sensação de que se trata de personagens genuínos (Sistema de Citações)".
Já num livro-reportagem em HQ, como os de Joe Sacco, o repórter, além do seu narrador, é o protagonista dos fatos. Desta maneira o relato é encarado como autêntico porque o sujeito que o enuncia é real.
Impressionante nesta linguagem é que Didier conseguiu expor a narrativa com comovente neutralidade. Misturando fotos e desenhos ele colocou a imagem a serviço da história em quadrinhos. Os desenhos lhe deram a liberdade de construir a seqüência narrativa de forma a superar os óbices da imagem não produzida por razões tão vinculadas ao contexto humano de época no Afeganistão.
Para que se entenda melhor este particular eu invoco o "in fine" de uma explicação publicada por um grande amigo fotógrafo, meu ex-companheiro de Banco do Brasil, a quem por diversas vezes já rendi homenagens neste e no blog anterior. Ao apresentar seu Fotogramas de um Filme Virgem (2002), livro onde narra as cenas de fotografias que não clicou, Fernando Montalvão diz: "O presente trabalho é resultado das fotos que não pude fazer, seja por impossibilidade narrativa, pela baixa sensibilidade dos filmes à luz encontrada, [...] ou, algumas vezes, por pudor em invadir a privacidade da dor alheia, mesmo em espaço público".
Fernando, igualmente um ser tão íntimo da escrita, encontrou nas palavras sua forma alternativa de revelar uma fotografia. Didier inovou completando a narrativa tão específica das suas imagens com desenhos, recurso que por si só, de forma magistral e independente, nos dá a exata noção do valor da arte das HQ.
Era com este aspecto do tema que eu gostaria de ter sido mais tempestivo e contribuído com o excelente trabalho da MEG. Todavia, mesmo que à posteriori, concluo que as nossas gerações foram felizes na convivência com as HQ. Não raro ouvíamos histórias de meninos que aprenderam a ler com ajuda dos gibis. Havia uma obrigatória ligação entre HQ e cinema, já que íamos às matinés também para trocar nossas revistas. Talvez tenha sido um pouco desta simbiose da imaginação fertilizada pelas HQ e a magia do cinema contando outras histórias que tornou Mandrake um dos meus ídolos.
A infância dos tempos mais recentes foi influenciada em demasia pelos aparatos da tecnologia que fez da informática um substitutivo de tantos instrumentos lúdicos que nos ajudavam, de forma clássica, a dialogar com a própria imaginação, tornando-nos arquitetos de um mundo bem mais simples onde o importante era ser feliz.
Bom ter existido pessoas como Didier Lefèvre (faleceu subitamente no dia 29 de janeiro deste ano, em Morangis, na França, vítima de um ataque cardíaco), que conseguiram perpetuar esta linguagem quase esquecida das gerações atuais, incrementando-a com outros sentidos, mas sem nunca lhe roubar o inefável realismo.
No Flabby2:
HQ - Nona Arte e Incentivo à Leitura I
HQ e Incentivo à Leitura II - Publicando Resultados
HQ e Incentivo à Leitura - Parte Final
Na Blogosfera: E o Milton Ribeiro, um erudito, agora deu pra escrever sobre "veadagens". E ilustrado com ultra-sonografia de um testículo de veado lotado de esperma antes de ser “aliviado” e tudo mais. Quem diria! O gaúcho se especializa em cada coisa!
Por Ery Roberto Corrêa |
9:59 AM
Segunda-feira, Setembro 03, 2007
[educação]
UM BELO EXEMPLO
A Escola Padre João Cruciani foi objeto de matéria no site da Prefeitura de Curitiba
Tenho uma amiga diretora de uma Escola Municipal localizada em um bairro de Curitiba.
Lá, quem chega, pode constatar que se trata de um estabelecimento diferenciado dos demais da rede municipal de ensino. A organização, limpeza e funcionalidade das instalações são de fazer inveja. Se tudo se resumisse apenas a estes itens, já seria digna de admiração. Mas, a Escola Municipal Padre João Cruciani, no Campo Comprido, construiu uma infra-estrutura capaz de oferecer aos alunos e também à população uma série de alternativas de aprendizagem e formação.
Certa vez ao visitar esta escola fiquei emocionado com o que vi. Lá não existe somente a preocupação com a grade curricular. Sua programação não se desenvolve apenas para cumprir o calendário, mas funciona também como uma efetiva extensão da família, onde os alunos são tratados em todas as suas necessidades emocionais.
No último dia 20 de agosto a Escola inaugurou uma cidade-mirim dentro do seu terreno. Constituída de três minicasas instaladas numa área de 104m², é dotada de uma pracinha, bancos, ruas, um espaço que reproduz uma casa comercial e uma escolinha. O objetivo do empreendimento é ajudar a conscientizar as crianças sobre as primeiras noções de cidadania e direitos humanos.
Além da minicidade, localizada na parte frontal da Escola, também está sendo construído um espaço que servirá como área reservada aos pais que esperam os filhos. Esta área terá cobertura de acrílico, bancos e espaço para revistas e livros, que poderão ser usados por esses pais.
Em local especial, aproveitando móveis que foram substituídos, a escola montou uma sala de xadrez. Os tabuleiros foram construídos sobre carteiras desativadas. Este particular é outro bom exemplo de reciclagem de materiais visando à preservação ambiental.
Toda esta bela estrutura é trabalhada por 22 professores liderados pela minha amiga Selva Maria dos Santos (foto), uma profissional de educação da mais alta competência. Conhecendo-a há tanto tempo e sendo testemunha do seu trabalho é muito fácil dizer que o faz com invejável dedicação e profunda emoção. Mas o que definitivamente caracteriza a Selva é o seu poder de criatividade. Sua força interior para romper com a mesmice é fascinante. Isto tudo a faz perfeitamente identificada com as necessidades das crianças, além de ainda ter sensibilidade ímpar para com a vida da comunidade incluindo os pais dos alunos — no período noturno a escola abre suas portas para cursos de informática e outros para pessoas do mesmo bairro.
Levada ao contexto geral da educação no Brasil a Escola Padre João Cruciani é apenas um grão de areia na praia, mas é uma prova máxima que a escola é o único agente de mudança neste tempo tão carente de resgate de valores capazes de construir uma nova mentalidade. Todavia, o exemplo também nos ensina que não são suficientes apenas estruturas de primeiro nível quando não há a efetiva contribuição dos recursos humanos. Estes sim, quando engajados nos objetivos e atuando dentro da filosofia de trabalho que não se limita à obrigação, eleva a instituição ao grau máximo de excelência.
Considerado o nível econômico das crianças que a Escola atende, pelo que ela planta na formação educacional e cidadã, transformando-as em agentes de mudança que absolutamente irão repercutir na família, através de novos comportamentos promovidos pelo conhecimento e pela prática de ações individuais e coletivas, é de se concluir com facilidade que este investimento sim é verdadeira "bolsa-família". x
Por Ery Roberto Corrêa |
8:25 AM
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