Boa leitura!
A DESAFIANTE VERDADE
CONSENSO RECUPERACIONAL E...
SOLTANDO OS BICHOS
A TRAGÉDIA DE CONGONHAS
CINCO TÍTULOS INESQUECÍVEIS
DOIS NORDESTINOS EM ...
THE PERSONAL FRIEND
REDESCOBRINDO A ESPERANÇA
QUASE VIREI UM ADVENTISTA
CHICO - O QUINTO PODER
FÁBULA PARA CRIANÇA GRANDE
O BANCÁRIO E AS MENINAS
O QUE ME FAZ FELIZ
HISTÓRIA UNIVERSAL PELO...
MUITO AINDA É POUCO
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Quarta-feira, Novembro 28, 2007

[lulestionário]
O JOGO DAS POSSIBILIDADES




Arrisca alguma alternativa correta?


[ ] - Está dizendo que quer mais um mandato. E o interlocutor é Deus.

[ ] - Contando nos dedos, em número de jogos, quantos faltam para o Corinthians cair pra segunda divisão. E é hoje! Mas também podem ser duas partidas.

[ ] - Ensaiando, defronte ao espelho, como colocará o dedo na cara de FHC na próxima vez que se encontrarem.

[ ] - Dizendo: "sou o único 'neste país', nos últimos cinqüenta anos, que nunca mentiu".

[ ] - Respondendo a chamada na escola (Presente!), aproveitando que por estes dias não tem viagem pra nenhum outro país.

[ ] - Mostrando que um certo neo-ditador é o seu amigo número um.

[ ] - Pedindo pra Da. Marisa trocar a lâmpada queimada.

[ ] - Dizendo à bancada do PSDB no Senado que a CPMF é a única chance deles continuarem sendo convidados para a Festa Junina do ano que vem na Granja do Torto.

[ ] - Ilustrando com o gesto que são três problema.

[ ] - Errou de dedo ao mandar Diogo Mainardes tomar naquele lugar.

[ ] - Corrigia Paulo Coelho, na Suiça, em conversa informal, afirmando que o Brasil só tinha um estádio seguro e pronto para a Copa: a Fonte Nova.

[ ] - "Falta só um mês para me livrar do Renan".

[ ] - "Não é um milhão só. Para manter a CPMF o governo deu meio bilhão em 23 dias".

[ ] - Dirigindo-se à cúpula do partido: "Eu já lhes disse que acima de mim só um: companhêro Zé Dirceu."

Por Ery Roberto Corrêa | 12:46 PM
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[criança encontrada]
VOCÊ CONHECE ESTA CRIANÇA?


O garoto da foto se chama Tiago. Por incrível que pareça não é uma criança desaparecida, mas sim uma "criança aparecida".

Foi encontrado na rua neste mês de novembro com aparência ótima e bem vestido. Diz ter 2 anos. Foi levado ao juizado e depois encaminhado ao "Nosso Lar", em Brasília, instituição onde trabalha a Sra. Soraya Kátia Rodrigues Pereira que tem repassado e-mails a amigos e conhecidos. Fiquei sabendo através da Betty, do blog Bettyvern.

A criança, infelizmente, não foi procurada por ninguém e a prevalecer a condição será encaminhada para adoção.

O que chama atenção neste caso, além de todas as delegacias da região já terem sido notificadas e ninguém ter procurado o menino, é que até à Rede Globo foi solicitado que divulgasse a ocorrência, mas quem tentou recebeu a belíssima resposta que a emissora não permite divulgação de crianças desaparecidas. O interessante é que neste caso é uma criança recuperada. Qualquer outra situação envolvendo filhos de gente importante de lá, certamente teria outro tratamento. Inutilidade pública tem bastante e em janeiro aumenta com Pedro Bial.

Endereço da instituição:
CENTRO COMERCIAL DO CRUZEIRO, BLOCO D-20, SALA 403
Bairro: CRUZEIRO VELHO
Cidade: BRASÍLIA
Estado: DF - Cep: 70640-515


Por Ery Roberto Corrêa | 11:09 AM
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Domingo, Novembro 25, 2007

[futebol]
SAI DO CHÃO, SAI DO CHÃO, É A TORCIDA DO VERDÃO




Nossos caminhos sempre foram espinhosos, mas não absolutamente impossíveis para quem sempre acredita. Os que nos criticam por comemorar um título brasileiro da Série B são os mesmos que estariam tentando diminuir a imagem alviverde, caso não fôssemos campeões. Cícero tinha um bom conselho: "Abeamus a fabulis, propiora videamus". Deixemos de lado as lendas e nos importemos com o que está mais perto de nós. Comemora verdão!

Por Ery Roberto Corrêa | 3:48 PM
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Sexta-feira, Novembro 23, 2007

[música]
O MOMENTO DA GAITA


Na internet as coisas convergem e, em muitas ocasiões, uma busca acaba em memoráveis coincidências. Sem contar com o fato de se procurar por algo e terminar encontrando uma maravilha muito maior.

Nesta semana deliciava-me no YouTube caçando apresentações do Tony Bennett. Estava sugestionado pela lembrança de uma bela história que me foi contada há tempo pelo João Luiz, grande amigo do BB, acontecida durante viagem de férias que fez aos EUA. Acabara de ler um e-mail seu em que me recomendava um link do Zero Hora.

Era uma crônica genial da Martha Medeiros. Ela escreve tão bem que quando a gente lê tem a nítida impressão de ouvir seu sotaque gaúcho. Para melhor entender o que direi é preciso abrir um parêntese e reproduzi-la. Eis, então.

Estava ouvindo rádio no carro, iniciando uma viagem para o litoral, quando entrou uma música dos Engenheiros do Havaí gravada ao vivo em algum show. Humberto Gessinger cantava numa boa, quando, no meio da canção, ele começou a tocar gaita-de-boca. A platéia veio abaixo.

Ainda na freeway, entrou uma música do Nenhum de Nós. Mesma coisa: durante um show ao vivo, o Thedy puxou uma gaitinha e o povo delirou.

Alguns quilômetros depois, já na Estrada do Mar, foi a vez de Neil Young invadir meu carro pelo rádio numa gravação ao vivo de Hey, Hey, My, My: na hora da gaita, comoção, assovios, bateção de pés, urros. Quando eu estava quase chegando ao meu destino, a rádio mal pegando, ainda deu pra escutar Stevie Wonder com sua eletrizante Isn't She Lovely num show ao vivo em Madri e, claro, levando a galera ao êxtase na hora da gaita.

Sei que não é uma questão existencial profunda, mas fiquei me perguntando: que diabo de fascínio tem essa gaita-de-boca?

Minha primeira teoria: o "momento da gaita" emociona porque ela nos remete à infância. Todos nós já tivemos um violãozinho de plástico, um pianinho de brinquedo, mas a gaita sempre foi de verdade. Eu, ao menos, tive uma. Não sabia tocar, mas tentava, e a tentativa me fazia sentir como uma estrela pop. Eu brincava de Bob Dylan.

Depois pensei que esse delírio na hora da gaita talvez tenha a ver com sexo. O cara põe os lábios na embocadura do instrumento, tapa com as mãos em concha e fica ali fazendo sabe-se lá o que escondido.

Por fim, cheguei a uma terceira teoria: a gaita libera nosso lado caipira. Eta, trem bão. Podemos estar escutando rock, blues, jazz, qualquer coisa assim sofisticada, mas em algum momento há uma homenagem ao folclore e à música country, e ambas nos remetem ao campo, a uma vida mais simples. Soprar uma gaita seria mais ou menos como mastigar um capim com um chapéu de palha na cabeça.

Pois domingo último, logo que retornei do litoral, mas ainda "viajando" nessas idéias, fui assistir ao Magic Slim no Abbey Road, em Porto Alegre. Durante todo o show eu pensava: quando será a hora da gaita? Pô, blues sem gaita, inconcebível. Mas não teve gaita. E minha tese foi por água abaixo: o público veio abaixo foi com os solos de guitarra. Aplausos, urros, bateção de pés. Crianças, não éramos. Caipiras, tampouco. Com a guitarra gemendo, restou a teoria do sexo.


É genial não apenas porque um texto da Martha, mas pelas belezas que evoca.

Para voltar ao ponto de restart é preciso ver este achado.




FOR ONCE IN MAY LIFE - Bennett and Wonder



Quando encontrei tal jóia, que na verdade é um trecho do DVD "Tony Bennett, An American Classic", um especial gravado para a TV, produzido por Rob Marshall (diretor do filme "Chicago"), em comemoração aos 80 anos do crooner, foi possível, como disse a Martha, mesmo não sendo uma questão existencial profunda, repetir a mesma pergunta: que diabo de fascínio tem essa gaita-de-boca?

E logo Stevie Wonder, ou para usar o tratamento de Mr. Benett, Stevie Wonderfull! Claro que imediatamente fui levado também à "Isn't She Lovely". Resolvi ouvi-la não programando percorrer o sentimento do texto, com o delírio previsto do momento da gaita-de-boca de Stevie, mas como se fosse o pós-momento da teoria que restou na crônica. Optei pelo sopro mágico de Milton Guedes para esta canção, incluída em seu CD instrumental "Certas Coisas".



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Depois eu continuei a sessão jazzística com o próprio Milton (já retratado aqui outras vezes), em minha opinião um bamba dos sopros (sax, flauta e harmônica), dos melhores instrumentistas brasileiros. Acabei por repetidos orgasmos proporcionados pelas faixas do seu outro CD, "Cinema", principalmente "She" (Um Lugar Chamado Notting Hill), "Have You Ever Really Loved A Woman" (Don Juan de Marco), "When A Man Loves A Woman" (Quando um Homem Ama uma Mulher), culminando com aquele espetáculo de lamento proporcionado por "Calling You", do filme Bagdad Café [ouça aqui].

A sensação que Martha opera em seu texto fica explícita na faixa "Unchained Melody" (Ghost), onde Milton a executa começando com o virtuoso assovio e depois completa com a gaita.

Mas eu tinha que sentir o sabor desta transa com blues . Vocês já ouviram Little Walter ou Carey Bell em "Blues With a Feeling"? Ou Carey Bell em "It's so easy to love you"? E mais jazz, com Toots Thielemans, em "My Funny Valentine"? Nem é preciso falar do "rock nasalizado" de Bob Dylan, porque este, a considerar a incontestável teoria da Martha, é o Eros Dylan.

Esses caras, Stevie Wonder, Guedes, Walter, Carey, Toots, Dylan e tantos outros "põe os lábios na embocadura do instrumento, tapam com as mãos em concha e ficam ali fazendo coisas que só Deus sabe" e lhes ensinou direitinho.

Meus brothers, bom final de semana. Aproveitem. Música e literatura sempre serão melhores do que aquele futebol de quarta.




Agradeço ao amigo João Luiz por ter me dado este post de "presente".

Por Ery Roberto Corrêa | 10:40 AM
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Quinta-feira, Novembro 22, 2007

[segunda era dunga]
JOGAMOS COMO SEMPRE, JUSTIFICAMOS COMO NUNCA


Inspirei-me na principal manchete uruguaia para definir a derrota da sua Seleção, ontem, frente ao Brasil. Eles escreveram: "Jogamos como nunca e perdemos como sempre!"

Depois do jogo liguei o rádio e fiquei ouvindo as perguntas dos homens da latinha e as respostas dos homens da bolinha.

Só obviedades e papo furado, exatamente nesta ordem. A impressão que todo futebolista passa ao ser entrevistado é que quer se livrar logo do repórter, daí só dizer merdas.

Dunga, por exemplo, ao ser questionado sobre a forma da Seleção jogar respondeu que "quando as coisas estão boas, tudo bem!" (como se a lógica fosse burra) e "... agora, quero saber quando as coisas estão ruins!? Daí eu quero ver o que sai... (pensando) de dentro (sic)."

Ora, meus caros, pela lógica, de dentro só sai o que for colocado. Quando nada se deposita, não sai nem vento. E, dependendo do que se coloca, corre-se o risco de produzir gases agressivos às narinas.

O Ronaldinho esteve em São Paulo? Josué, que o substituiu no segundo tempo, disse que "o gaúcho é um fenômeno!". Este negócio de ir e não ir me faz lembrar aquela famosa frase: "fiz que fui, não fui e acabei fondo", que muitos dizem ser do Nunes (ex-atacante do Flamengo), outros do Paulo Nunes (ex-atacante do Grêmio) e até do Dadá Maravilha. Eu juro que li ter sido do Claudiomiro (ex-Inter), aquele mesmo que quando foi jogar em Belém declarou "estar feliz por jogar na terra que Jesus nasceu".

A torcida paulista foi irresponsável. Demorou demais para vaiar. Aliás, teve um locutor da CBN cunhando algo fantástico: "a torcida paga para aplaudir ou para vaiar, não se pode condená-la pois é resultado de sentimento". Tá bom, tá bom, é a mesma coisa que como resultado do espetáculo ou do anti-espetáculo.

Ontem, foi a vitória do acaso. Por acaso, quando se joga bom tempo com dois volantes ganha-se a partida ao retirar um meia de criação e colocar um terceiro volante. Por acaso entrou o Luiz Fabiano. Ufa! Finalmente livres do Wagner "Nove"! Por acaso, Fabiano marcou dois gols sendo um "espírita", fruto de passe errado do Maikon. Por acaso Julio César jogou pela defesa inteira (é que ali, debaixo daquelas traves do Morumbi, já habita definitivamente a sombra de Rogério Ceni).

E o Robinho? Por acaso... bem, conseguiu ser pior que o "Nove". Vem cá, se o Wagner for todo esse Love como "joga" futebol, coitada da mulher dele!

Mas Kaká e Gilberto Silva demonstraram como tudo está afinado. Enquanto o último disse que a culpa de jogar mal é a falta de tempo para treinamentos, que convenhamos é verdade, Kaká saiu com uma pérola: "O próximo jogo só em junho. Foi importante terminar o ano com vitória, até lá a gente tem tempo para arrumar tudo". Vou começar a contar quantos treinos acontecerão até junho para ver se acredito nisto. Há apenas um amistoso marcado para antes da retomada das eliminatórias.

Bem, fica chato fazer um texto apenas repetindo tantas baboseiras saídas dessa câmara de vácuo que é a cabeça de técnico e jogadores da seleção. Lembrarei, pelo menos, duas ou três constatações reais, produtos de fatos visíveis.

Esta Seleção não tem alma, não tem um líder e não tem nem uma idéia do jogo. Ela é tão a cara mal acabada do seu treinador que quando joga com dois volantes só ganha ao entrar o terceiro. Dunga é culpa dos colorados! Até hoje convencer mesmo só em duas partidas contra a Argentina. Uma, amistosa e outra a final da Copa América, quando jogou com apenas dois volantes. Nesta, Gilberto Silva estava suspenso e Julio Batista que joga avançado o substituiu.

Por fim, é uma Seleção bem PT. Pura mentira. Está recheada de incompetentes. Quem merece estar nem é lembrado ou conta tempo sem jogar. Alguém duvida que Daniel Alves e Kleber sejam melhores que Maikon e Gilberto? Até a camisa do técnico já avermelhou.

Fica apenas um consolo. A gente só voltará a falar do assunto em junho de 2009. Tem bastante tempo pra mudar. Kaká pode ter razão.

Prometo que amanhã falo de algo bem mais interessante: Martha Medeiros e a gaitinha de boca. É um tema lindo!


Por Ery Roberto Corrêa | 12:33 PM
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Terça-feira, Novembro 20, 2007

[cenário insólito]
ALIADOS, PERO NO MUCHO






Era uma vez um pequeno exército vermelho que conquistou um rico território, terra de ninguém, altamente cobiçada por outros exércitos. Com tropa e armas insuficientes para garantir a posse, constantemente ameaçada por outro exército que mantinha resistência em alguns pontos do território, aliou-se a antiga força cujos soldados, outrora honrados, foram comprados pelas promessas de fáceis promoções por parte da estrela rubra.

Combinaram que o comando da tropa, com a concordância interessada do general vermelho, seria concedido a um dos aliados em compensação da sua representatividade no exército unido. Com o passar do tempo o comandante cometeu delitos, como usar dinheiro indevido para sustentar um filho da amante, civis desqualificados para se fingirem sócios em negócios espúrios que fazia em benefício próprio, escutas clandestinas contra resistentes, atividade condenada pelos vermelhos que preferiam — embora seu general semi-analfabeto — escrever dossiês, facilitar quitação de dívidas de amigos perante instituição arrecadadora do território e outros.

O exército conquistador, perdulário, gastava em excesso com as mordomias da caserna e com os cargos distribuídos aos familiares e amigos dos seus soldados e aliados. Também era preciso remunerar com qualidade toda a tropa que aos poucos foi crescendo com o engajamento de milhares de outros soldados, incumbidos de ocupar postos fictícios com a finalidade precípua de devolver parte dos soldos ao comando geral da estrela rubra, decididamente disposta a se perpetuar no poder.

Teriam assim, a qualquer custo, que manter um imposto sobre a movimentação financeira dos habitantes do território, embora todos ali já fossem escorchados pela dívida fiscal, cuja arrecadação supostamente tinha como objetivo ser revertida em benefícios sociais para a população civil.

Na tentativa de salvar a cabeça delituosa do comandante da tropa, a tropa aliada comprometeu-se na união das suas forças contra sucessivos ataques da resistência, chamada "frente demonicana" (neologismo formado pelo signo 'democrático' de um exército e pelo nome da 'ave bicuda' pousada no brasão do outro) e que era apoiada por parte da população que o general vermelho sarcasticamente (ou pelo seu caráter apedeuta) chamava de elite.

Colocado entre a cruz e a espada, o exército vermelho jogava com todas as armas. Embora não quisesse, precisava salvar um comandante que efetivamente não era dos seus, porque com o ato heróico conseguiria garantir a aprovação da continuidade do imposto. O grande problema, porém, foi que as duas coisas sofreram uma convergência temporal. Para os aliados o posto deveria ser normalizado rapidamente sob pena da tropa vermelha, já investida no comando temporário através de um dos seus mais fiéis soldados, dar mostras tendenciosas de tramar um rompimento do acordo inicial e executar um golpe que lhe garantiria o comando geral.

Na trincheira oposicionista o outro exército tentava segurar a decisão do julgamento para poder derrubar o imposto, medida que lhe aumentaria o poder de fogo na retomada futura do território. Travava-se uma árdua luta, com armas equivalentes de ambos os lados, cuja munição tinha fabricação automática e cuja matéria prima era basicamente a mentira deslavada.

Próximo do julgamento do comandante delinqüente, seus fiéis subordinados de bandeira, conscientes da força vermelha para ajudar no perdão, debatiam-se na melhor estratégia para manter a data, mais propriamente no receio que, como tramavam as forças oposicionistas, caso adiada e antes decidida a questão do imposto, pudessem ser traídos pelos vermelhos ávidos do dinheiro e quiçá do comando que não lhes pertencia por acordo dos regimentos.

Ainda não se sabe quando e como terminará a guerra. Apenas é possível dizer que neste poluto cenário em quem menos se pode confiar é na tropa aliada. Eis que formada por velhos e decadentes soldados, cujas fichas de serviço estão indelevelmente manchadas pela omissão, traição, aviltamento dos princípios éticos, defecção, subserviência, corrupção e sabotagem, práticas historicamente condenadas por seu alto comando quando ainda era exército independente. Sua decadência teve início quando os mais admiráveis princípios morais desapareceram da sua prática, desde que seu mais representativo general certo dia embarcou em um helicóptero para em seguida morrer no mar em companhia da mulher.

Pobre território. Guerra vergonhosa. Povo infeliz que não fez questão de fabricar seus artefatos com o reencontro da verdade, que não se uniu e formou o próprio exército para defender o que nunca deveria ter perdido: a dignidade e seu próprio destino.




Por Ery Roberto Corrêa | 9:46 AM
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Segunda-feira, Novembro 19, 2007

[poesia brasileira]
A ROSA BRANCA


Não me inquieta se o caminho
que me coube - por secreto
desígnio - jamais floresce.
Dentro de mim, sei que existe,
oculta, uma rosa branca.
Incólume rosa. E branca.

Não pude colhê-la: mal
nascera e logo perdi-me
nos labirintos do tempo,
onde desde então pervago
apenas entressonhando
aquilo que sou - e vive
no recôncavo da rosa.

Sem conhecer-me, padeço
o mistério de existir
em amargo desencontro
comigo mesmo. No entanto,
pesar tão largo se apaga
quando pressinto: na rosa,
mistério não há. Nenhum.
Sem medo de trair-me a face,
posso morrer amanhã.
Extinto o jugo do tempo,
olhos nem boca haverá
- para a queixa e para a lágrima -
se em vez de rosa, de pétala
cinza de pétala, apenas
existir a escuridão.
O vazio. Nada mais.

[Thiago de Mello]





[orgulho brasileiro]
VAI THIAGO, VAI THIAGO...




O nadador Thiago Pereira bateu o recorde mundial dos 200 metros medley em piscina curta (25 metros), ao vencer domingo a etapa de Berlim da Copa do Mundo, com tempo de 1min53s14. A marca anterior pertencia ao norte-americano Ryan Lochte, estabelecida no Mundial de Piscina Curta de Xangai, em abril de 2006.

O brasileiro, maior nome do país no Pan-Americano do Rio de Janeiro ao conquistar seis medalhas de ouro, ainda superou o recorde da competição, que pertencia ao também americano Michael Phelps, com 1min54s85.

Thiago conquistou seis medalhas de ouro em uma semana, nas etapas de Estocolmo e Berlim da Copa do Mundo de Piscina Curta.



[vergonha nacional]
DUNGA E SUA TURMINHA DE ESTRANGEIROS


Seleção do Peru 1 x 1 Seleção de Bostas

"Todos os times que enfrentam o Brasil jogam sempre muito fechados. Isso acontece dentro do nosso país ou fora, quando jogamos como visitantes. Então não tem muita explicação por não ter vencido fora, o nosso time joga sempre para a frente. O que não podemos é repetir os erros de hoje no Morumbi", afirmou Robinho.

Bruno Freitas
Em Lima (Peru)
Portal UOL - 19.11.07


Saber de antemão que todos os times jogam muito fechados contra a Seleção e não usar um esquema que seja capaz de destruir tal marcação, por acaso não se chama burrice? O que faz Mineiro nesta Seleção? E o Wagner Love? E o Gilberto? Em resumo, e o Dunga?


Por Ery Roberto Corrêa | 8:53 AM
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Quarta-feira, Novembro 14, 2007

[conceitos urbanos]
AQUI A MEMÓRIA NÃO FALHA



Bondinho da Rua das Flores - Curitiba PR
Ilustração - Software Fireworks 8
12.nov.2007


A vocação ecológica de Curitiba é uma característica que não se observa apenas nas suas políticas ambientais desenvolvidas com maior prioridade nas últimas três décadas. De tudo que se possa reservar como um tributo ao poder público no atingimento desta invejável obra municipal, há que se sublinhar a capacidade dos primeiros governos da era Lerner em conseguir a mais importante parceria capaz de sustentar um empreendimento desta magnitude. Devemos ao conjunto dos cidadãos deste pedaço do Sul a maior parcela do sucesso por ter transformado uma idéia respeitável em cultura.

Viver nesta cidade desde 1978 fez-me uma testemunha da evolução comportamental. O curitibano sabe que para continuar tirando proveito de todas as condições diferenciadas de ambiente à sua disposição precisa pensar e agir no sentido da preservação e da educação ambiental.

A cidade com condições dignas de sobrevivência e com qualidade de vida acima da média das principais capitais não se formou com a imposição de leis, mas foi fruto da consciência coletiva. Desenvolvida com a marca da seriedade e competência administrativas da política, com a visão vanguardista de técnicos urbanistas e da adesão popular, o sentir e participar dos resultados foi uma resultante promotora do nascimento do orgulho que cada um aqui possui e trata de transmitir às gerações que se sucedem.

É importante observar o pensamento lernista. "Cidade não é problema; cidade é solução". Fazer acontecer é ter o presente e a responsabilidade de abrir caminhos, buscando não o ideal distante, mas o possível já. Na raiz da grande transformação está a pequena transformação: uma pequena mudança pode ser o começo de uma grande. A política urbana necessária é aquela capaz de gerar transformações que aconteçam agora, não as que precisem de vinte anos. O importante é fazer acontecer agora e depois levar o resto do tempo aperfeiçoando.

Neste conjunto notável, origem da realidade de ser Curitiba uma capital diferenciada da maioria das metrópoles brasileiras, podemos afirmar que outros elementos se agregaram sob o signo do respeito. Não há como divergir que além das oportunidades de viver harmoniosamente com a natureza, tão marcada pela preservação de imensas áreas verdes, é apenas uma síntese de inúmeras outras atitudes, oportunidades e serviços oferecidos.

A limpeza que se espalha pela maior parte dos logradouros e regiões, preocupações contínuas com novas formas de reaproveitamento de resíduos, da excelência do serviço de saúde pública proporcionado pela municipalidade, do funcional transporte coletivo (que se diga, pelo crescimento populacional, seus já visíveis problemas de saturação deverão ser repensados muito breve), das inúmeras oportunidades de lazer (parques, ciclovias, esportes, teatro e outros espetáculos populares proporcionados pela diversidade étnica, circuitos culturais, etc.) também se somam a outro comportamento importante: a preservação da memória histórica.

Nada mais próprio para quem tem fama de boas soluções no seu transporte coletivo guardar lembranças das épocas remotas. O Bondinho da Rua das Flores (centro de Curitiba) é um belo exemplo desta faceta. A história transmite ao cidadão o conhecimento do seu papel na construção do ambiente. Além disto, preservar a lembrança nos torna mais humanos, auxilia na educação dos jovens e na formação do caráter e do senso de respeito.

Funcionando desde sempre como local de atividades recreativas e culturais para crianças, o bondinho já estava estacionado na antiga Rua XV de Novembro, defronte ao Palácio Avenida (agência principal do HSBC, local dos concertos natalinos que atraem turistas de todo o mundo), em 1975, quando aqui nevou pela última vez. A foto ao lado é um registro daquela ocasião inédita em nosso Estado. Durante todos estes anos sempre recebeu as restaurações necessárias e se tornou ponto de referência. É estranho conceber o calçadão sem a presença do querido Bondinho.

Assim como este "monumento", Curitiba está empenhada na restauração completa do Museu Paranaense, edifício construído no ano de 1916, em estilo art-nouveau. Foi Paço Municipal. É Museu Paranaense desde 1973, com acervo de 135 mil peças que recontam a história do Estado. Tem dupla frente, para as praças Generoso Marques e Borges de Macedo. A edificação que abriga o Museu Paranaense é a única de Curitiba duplamente tombada como patrimônio histórico e artístico, através de legislações específicas do Estado e da União. Vítima do abandono em gestões anteriores, brevemente reassumirá seu valor cultural e por si só contribuirá para aliviar o estigma que já se formou para a região, poluída pela presença do tráfico de drogas e concentração da bandidagem e mendicância.

Estou falando de Curitiba porque tenho orgulho desta cidade e ela é pródiga em dar condições aos seus filhos perceberem o quanto vale investir na educação. O atingimento desta consciência faz as pessoas lutarem por ela, valorizarem o trabalho seja de políticos, dos demais experts da instância pública e privada até ao mais humilde cidadão dos bairros longínquos, desde a Lamenha Pequena até a Caximba (extremos norte e sul da cidade).

Todavia, ainda existe muita gente que precisa ser convocada para este time.

Quando tivermos um Brasil, do Arroio ao Chuí, com oportunidades semelhantes às que aqui temos e vivemos, esta será nossa maior riqueza. Mais valiosa até que jazidas petrolíferas descobertas repetidas vezes no mesmíssimo lugar e que até poderão um dia terem suas plataformas próprias de exploração, mas, imediatamente, apenas servem de plataformas cujas intenções beiram a nojeira da política de perpetuação no poder. O que é bom para Cuba e Venezuela jamais caberá em nossa vocação democrática.

O fotógrafo Luiz Bocian tem um blogue onde publica fotos de Curitiba. Para você que não conhece as belezas desta terra é uma oportunidade imperdível de comprovar muito do aqui escrevi. Espie (sei que tem gente que não gosta do outro verbo)!


Vista do Parque Barigui - Curitiba PR

Por Ery Roberto Corrêa | 12:34 PM
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Segunda-feira, Novembro 12, 2007

[contos do interior]
O DRAMA DO JUCA CANHOTEIRO


Juca Canhoteiro era supersticioso e sempre teve medo de morrer. Muçumba, o negro sapateiro, vivia lhe pregando peças com histórias e sonhos sobre o além. Benê, um mestiço de um metro e noventa era mais pacato, mas daqueles sujeitos espirituosos que quando abria a boca ninguém interrompia. Certa vez, em meio a muitas gargalhadas de Muçumba, fizeram um pacto. Combinaram que quem fosse antes se encarregaria de um dia voltar em sonho para dar notícias e contar como seriam as coisas lá em cima.

O trio vivia fazendo o que mais gostava: jogar futebol no time de veteranos na pequena vila do interior.

Eram inseparáveis. Todos os finais-de-semana iam ao Bar do Aquiles, ainda suados, calções barrentos, camisas furadas e chuteiras penduradas no ombro, para jogar conversa fora depois da animada pelada.

Naquele sábado chegaram ainda comentando o gol de calcanhar que Canhoteiro havia feito por debaixo das pernas do Muleta, o desengonçado goleiro do time da vila vizinha. Tinha sido o gol da vitória, depois de um empate sofrido até o penúltimo minuto. Na verdade a ocasião tinha um gosto especial. Benê havia ganhado uma aposta que fizera com Aquiles. A cerveja estava garantida.

Dona Neiva, esperta, sabendo do prejuízo do marido, correu fritar uns peixes para o aperitivo, carregou no sal e aumentou o preço da porção. Depois chegou a turma do Bentinho que morava do outro lado da vila e tinha a maioria deles no time do famoso trio. A festa rolou até tarde da noite.

Apesar de todo ruído, das piadas e gargalhadas estereofônicas do Muçumba, das cervejas por conta do Aquiles que pouco bebeu, Benê estava triste. Era o mais cansado dos três, parecia meio entregue e pensativo, prenunciando algo ruim. Depois da farra, na madrugada, teve um mal súbito e morreu.

Dali em diante Juca não dormiu mais. Ficou um mês sem jogar bola. Parou de beber na ansiedade que aquela brincadeira do tal pacto pudesse de uma hora pra outra vir a acontecer. Vivia ralhando com Muçumba que não parava de dizer que sonhava muito. Até quando morreu a mulher doente de Belmiro, o goleiro do time, ele não foi ao guardamento nem ao enterro.

O homem passou um tempo acovardado, pensando no pacto. Muçumba percebeu que a coisa era séria e até parou de falar no assunto. Evitava as gargalhadas e tratou de confortar ao amigo. Disse-lhe que deveria voltar a jogar e esquecer da brincadeira, que Benê não seria autorizado a sair de lá. Levou uma chuteira nova e lhe deu de presente. Era vermelha, sua cor preferida, bem costurada, com as travas na medida certa para o chão batido do campinho.

Canhoteiro, depois de muito resistir, concordou em voltar a jogar, mas não queria saber mais de ir beber no Aquiles. O comerciante, astuto, tratou de ir buscar o medroso com a desculpa que iria patrocinar um novo jogo de camisas para a próxima decisão, dali a dois domingos. Impôs, no entanto, que todos receberiam o fardamento grená no próximo sábado em seu estabelecimento, com uma rodada de bebidas por conta da casa. Até Saldanha, o vereador da várzea, resolvera colaborar com o churrasco naquela data.

Já não se falava mais no pacto nem em sonhos porque Muçumba respeitava o que havia tratado com o amigo. Mas algumas vezes, já meio mamado, soltava uma sonora gargalhada, daquelas que faziam imediatamente Canhoteiro tremer e lembrar do assunto.

Quando estavam recebendo o uniforme, depois do discurso de Saldanha, com Aquiles soltando uns rojões que acendia no cigarro de palha, Dona Neiva, muito religiosa, sem nada saber do drama do Juca, se aproximou de Muçumba e veio lhe contar um sonho.

Estava nervosa e não percebeu que Canhoteiro estava ali, de costas, atrás da mesa ao lado onde Bentinho falava do falecido Benê. Sugeria orgulhoso que aposentassem a camisa 6 em homenagem ao grande amigo. Canhoteiro, que só de ouvir a proposta do amigo já sentia a volta do embrulho no estômago, virou-se de mansinho, sem que lhe vissem, e ainda teve tempo de ouvir a mulher terminar de contar o sonho para um Muçumba perplexo e de olhos vermelhos:

— ... foi um sonho tão esquisito negão, mas tão esquisito que cheguei até a ficar preocupada. Cruz credo, levantei e fui fazer oração.

— Mas o que sonhou Dona Neiva? Conte logo o que ele disse, não mate o negão do coração.

Sem que ambos percebessem que Canhoteiro a tudo ouvia, entre boquiaberto e trêmulo, Dona Neiva completou:

— Pois não é que Benê tá bonito? Perdeu a pança, tá mais moço e me veio todo vestido de grená. Indaguei o que andava fazendo e ele respondeu que estava jogando no time do além. Que eu avisasse pra você que quarta-feira tem decisão lá e que o ponta-esquerda deles está machucado. Que era pra dizer ao Canhoteiro que ele tá escalado! E você vai ficar numa tal de regra-três. Não foi um sonho esquisito?

Muçumba teve um acesso de tosse, engasgado com o gole da cerveja e quando se virou para evitar o jorro na coitada da velha, esguichou tudo na cara de Canhoteiro ali postado, já feito uma múmia e quase transparente.

Dona Neiva se retirou, morrendo de rir da fisionomia dos dois e com aquele pano encardido nas mãos foi enxugar as outras mesas.

O negão tomou Canhoteiro pelos ombros e convidou-o a sair dali.

No caminho, depois de conversarem muito, resolveram parar de jogar futebol.

Até a quinta-feira seguinte não dormiram direito e nem saíram pela vila.

Na sexta, quando Muçumba martelava uma sola, chegou Canhoteiro e se encostou ao balcão encardido da sapataria. Os dois se entreolharam, o negão deu uma gargalhada e ouviu o amigo dizer:

— Eu to com medo que tenham adiado a decisão!

Muçumba largou o martelo, levantou-se, sacudiu o avental, bebeu um gole de café frio, acendeu um cigarro, pigarreou e soltou outra gargalhada, desferindo:

— E eu to com receio que se contundiu mais um! - já fechando a porta da baiúca sapateira ordenou ao covarde Juca que estava na hora de irem tomar uma antes do almoço.

No domingo seguinte, por vias das dúvidas e de comum acordo combinaram com Nardo, o "trenero", que Muçumba sairia jogando e Canhoteiro ficaria no banco.

Podem ter "enganado" a morte, mas o time da outra vila aplicou-lhes uma sonora goleada.




[Baseado em uma anedota que me foi contada há quase trinta anos pelo ilustre amigo Adalberto Antonio Gomes, à época meu subgerente no Banco do Brasil, a quem dedico por sentir tanta saudade e não mais tê-lo visto com a freqüência que nossa grande amizade merece. As personagens, novas situações, diálogos e conclusão foram adaptações minhas.]

Por Ery Roberto Corrêa | 12:44 PM
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Sexta-feira, Novembro 09, 2007

[exemplo positivo]
SOBRE A MORTE E AS ATITUDES DECORRENTES





Vinicius Coelho é um escritor, exímio cronista, profissional da imprensa esportiva do Paraná onde labuta por ininterruptas décadas.

Quem o vê pela primeira vez é tomado por uma simpatia transmitida de forma muito particular através da voz mansa, acessibilidade e do sorriso cativante, verdadeira química de fazer amigos. Torcedor coxa-branca [¹], transformou-se em raro exemplar de profissional que nunca faz a paixão sobrepujar o dever da razão. Por esta notoriedade é respeitado também no seio de outras torcidas, tamanha a lucidez e a imparcialidade com que trata dos assuntos diários vividos por todos os clubes.

Possivelmente já na casa dos setenta anos (idade é o que menos importa em pessoas assim) coloriu a aura com os tons mais dourados da experiência de vida, proporcionando com este fenômeno um ambiente psicológico invejável e agregador para acolhimento e convivência. Esta virtude, por tão notável, faz as pessoas perceberem seu caráter recheado de simplicidade, mesmo que apenas o conheçam pelos seus textos. Tem uma alma encantadora.

Recentemente Vinícius perdeu um filho. O garoto Bruno, 19 anos, quando supostamente grafitava um muro em Curitiba, foi vítima de assassinato cometido por empregado de uma empresa de segurança.

A dor sofrida pelo velho Vinícius, sabemos, não foi diferente daquela capaz de acometer qualquer outro pai que passa por circunstâncias tão horríveis. Embora sua condição de homem público, portador do poder de expressão que se potencializa pelos instrumentais que oferecem as mídias à sua disposição, ele nos surpreendeu com um comportamento extraordinário.

Durante as primeiras semanas após a morte de Bruno, Vinícius afastou-se das suas funções deixando-nos uma lacuna que víamos diariamente contornada pela sensação de participar das suas lágrimas. O lapso entre a última crônica e a retomada das lides jornalísticas pareceu apenas um tempo estrito que julgou necessário a nos brindar com a mais admirável das atitudes que um ser humano pode arrancar do coração, e entregar a todos, como exemplo magnífico de equilíbrio emocional e conformação.

Em nenhum momento veio a público para falar do assassinato, questionar ou clamar por justiça e destilar ódio nas lamentações. Usou a estreita ligação do garoto com a torcida alviverde e o próprio Coritiba Footbal Clube, para contar nos retomados textos as peripécias que ele foi autor, sempre grifando uma expressão interrogativa que fez parte do relacionamento entre ambos: "E o coxaço, hein pai?".

A cada nova vitória do time ou depois das inúmeras homenagens prestadas ao filho, Vinícius compunha seu agradecimento sempre ilustrando com fato ocorrido e que tinha relação direta com a possibilidade de Bruno dizer-lhe novamente "E o coxaço, hein pai?", fazendo-nos ouvir a voz do menino. Foi assim durante muitos dias.

Quando o Coritiba alcançou a pontuação suficiente para ser considerado um dos próximos quatro clubes a integrar a Série A do ano que vem, Vinícius escreveu uma crônica contando que havia rompido seu luto e retornado ao estádio, ao final do jogo, para se dirigir ao vestiário e cumprimentar a Diretoria e os jogadores responsáveis pela conquista.

Tenho a impressão que foi Bruno quem o empurrou para o Alto da Glória [²]. Na belíssima crônica ele comentou a ascensão do Coritiba e ao final, pela primeira vez, pareceu dialogar publicamente com o filho. Uma frase apenas. Apenas uma palavra diferente. Uma síntese da iluminação e da evolução espiritual tão notória nesta criatura admirável: "E o coxaço, hein Bruno?".

Todos os homens têm reações diferentes ante a realidade da morte. Penso ainda haver um sentimento íntimo que necessariamente não é o próprio que se exterioriza. Mas, no caso do grande Vinícius, chega-nos a certeza que sua invejável evolução anímica o fez tão coerente com sua respeitada imparcialidade, gesto que se impõe como força singular e capaz de nos fazer refletir com mais profundidade sobre a existência. Dentre estas reflexões, a necessidade de confiar na justiça e prioritariamente transmitir como exemplo, mesmo na dor, um pouco do amor vivido com e pela pessoa amada que partiu.

Qualquer homenagem que tenha sido prestada ao garoto pelos amigos, pela crônica esportiva, pela torcida, pelo clube, pela Igreja Presbiteriana, não terá sido maior do que a demonstração de firmeza espiritual na atitude deste fantástico pai.






[¹] – designação usual, codinome pelo qual é conhecido o Coritiba Foot Ball Clube.
[²] – nome do bairro onde se situa o estádio Couto Pereira, casa do Coritiba.

Por Ery Roberto Corrêa | 12:52 PM
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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

[anedotário]
E NEM FICA VERMELHO!



Vivo recebendo e-mails com textos ou apresentações que trazem as "tais pérolas do Enem". Engraçadas, é verdade. Apenas acho redundantes as observações que dizem ser da lavra dos professores que corrigem. Parecem explicações da piada, como se fosse difícil visualizar a falta de sentido, conhecimento e QI dos suplicantes examinados.

Uma vez comentei com um amigo, fã ardoroso das pérolas, e perguntei por que gostava tanto. Ele me respondeu que as frases lhe faziam lembrar de uma piada, mais especificamente dos colegiais americanos da turma do Suzuki. Na ocasião não conhecia e pedi que me enviasse.

O documento ficou guardado no meu banco de textos e vez ou outra eu o lia e ficava rindo sozinho com vontade de postar, mas algo me fazia adiar. Ontem, depois de ler um texto fabuloso sobre palavrões, do Jayme Serva — que, diga-se de passagem, já teria abandonado aquela agência de publicidade há séculos, caso neste país quem escrevesse bem ganhasse dinheiro pra viver sossegado —, cai na real. Ora bolas, por que não mostrar Suzuki aos meus leitores que ainda não conhecem esta boa piada?

Se o Enem produz pérolas por aqui, imaginem o que sairia em exame semelhante lá naquela turminha.

Aí está.




No primeiro dia de aulas numa escola secundária dos EUA a professora apresenta aos alunos um novo colega, Sakiro Suzuki.

A aula começa e ela pergunta:

— Vamos ver quem conhece a história americana. Quem disse: "Dê-me a liberdade ou a morte?" - silêncio total na sala. Apenas Suzuki levanta a mão e responde:

— Patrick Henry, em 1775 na Filadélfia.

— Muito bem, Suzuki. E quem disse: "O estado é o povo, e o povo não pode afundar-se?" - Suzuki levanta-se:

— Abraham Lincoln, 1863, Washington.

A professora descreve um olhar panorâmico pela sala e diz:

— Não têm vergonha? Suzuki é japonês e sabe mais sobre a história americana que vocês! Então, ouve-se uma voz baixinha, lá ao fundo:

— Vai tomar no cu, japonês de merda!

— Quem foi? - grita a professora.

Suzuki levanta a mão e sem esperar, responde:

— General McArthur, 1942, em Guadalcanal e também Lee Iacocca, em 1982, na Assembléia Geral da Chrysler.

A turma fica super silenciosa, apenas ouve-se do fundo da sala:

— Acho que vou vomitar.

— Quem foi? – diz a professora, novamente gritando.

E Suzuki:

— George Bush sênior ao primeiro-ministro Tanaka, durante um almoço em Tókio, capital do meu país, 1991.

— Chupa-me o caralho! - grita outro aluno.

— Acabou-se! Quem foi agora? - diz uma professora já irritada e perdendo a paciência.

— Bill Clinton à Monica Lewinsky, no Salão Oval da Casa Branca, Washington, em 1997! - revela um Suzuki confiante e já sem voltar a sentar.

Outro aluno se levanta e grita:

— Suzuki é um pedaço de merda!

— Valentino Rossi no Grande Prêmio de Motocicletas, Rio de Janeiro, em 2002, atira um confiante e ereto japonês.

A turma fica histérica, a professora desmaia, a porta se abre e entra o diretor.

— Que grande merda, nunca vi uma confusão destas! - ao que imediatamente inspira um super Suzuki:

— Lula para o ministro da Casa Civil José Dirceu, após as denúncias de corrupção do assessor Waldomiro Diniz, em fevereiro de 2004, em Brasília, capital do Brasil.





[+] - E já que hoje o humor está na pauta, também estou no HUMOR NO VARAL, do ilustre Eduardo Lunardelli.

Por Ery Roberto Corrêa | 10:03 AM
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Domingo, Novembro 04, 2007

[futebol]
GLORIOSO VERDÃO






oram 699 dias de agonia, mas o Coritiba está de volta à Primeira Divisão. Nenhum torcedor quer ver o seu time disputando a série B, a menos que já esteja na C.

Está certo o cronista Carneiro Neto, nosso mais respeitado jornalista esportivo, "o Coxa voltou para o seu lugar mesmo com um futebol sem brilho, pois ninguém brilha na Segunda Divisão que é, em última análise, uma competição de resultado e o que interessa é sair dela a qualquer preço".

O melhor jogador do time foi a torcida. Ontem, novamente com a força de um estádio lotado, o Coxa foi empurrado o tempo inteiro para conseguir sua antecipada redenção com o empate em 2x2 contra o Vitória-BA. Claro que a derrota do Criciúma ajudou, mas toda a nação coxa-branca esperava por este momento com uma vitória. Quem sabe ela venha nas duas próximas partidas e a alegria seja maior com o título de campeão.

Além da torcida, foi fundamental a aposta que a Comissão Técnica fez na piazada da casa. Ao contrário do ano passado, quando o time viveu sua temporada de maior tristeza por preferir contratar "pangarés", desta vez garotos como o zagueiro Henrique, os meias Pedro Ken e Marlos e o centro-avante Keirrison foram símbolos de amor à camisa e futebol produtivo. Dos que vieram de fora e foram contagiados por esses garotos, o meia Túlio (que está a caminho do Botafogo), o avante Gustavo (ex-Inter), o goleiro Edson Bastos, o zagueiro Jéci e o capitão Anderson Lima - este apesar da idade - incorporaram o espírito guerreiro.

O time cresceu na adversidade e na pressão. A torcida está feliz. E se na última partida de 2005, quando apesar do rebaixamento, 20 mil coxas cantavam entre lágrimas seu orgulho e amor pelas nossas cores, ontem mais de 35 mil fizeram o estádio tremer com sua alegria e o sorriso de quem nunca deixou de acreditar.

Valeu Verdão! E ainda não acabou, vamos que tem mais.



[+]
- Aqui a mostra de um gesto nobre vindo da diretoria do Grêmio, um dos maiores clubes do futebol brasileiro.

- Surrupiado do Globo Esporte, o vídeo abaixo apresenta os melhores momentos do jogo de ontem.

Por Ery Roberto Corrêa | 3:51 PM
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Quinta-feira, Novembro 01, 2007

[beleza]
ILUSÃO DE ÓTICA?


Daí você chega em casa, olha pra sua mulher, fica balançando a cabeça e resmungando interiormente:

- Putz! Se ela tivesse uma bunda lisinha igual a daquela artista, como é mesmo o nome da gostosa...? Putz, não consigo mais lembrar! Acho que estou com Alzheimer!

Mais tarde, já que a patroa tem sexto sentido, advinha seus pensamentos e resolve dar uma de difícil e pra se vingar vira pro lado e dorme, você levanta e vai navegar na rede. Entra nos principais portais e nas matérias de hoje descobre quão dura é a realidade. Acaba concluindo que uma celulitezinha não é assim tão grave, olhando bem é até perdoável. Afinal, até a gostosa tem. E a manchete, saltitante na sua telinha, acaba lhe dando a cura imediata do seu mal de Alzheimer:

- Putz! Como não lembrava o nome dessa gostosa: Juliana Paes, meu Deus!






Volta pra cama, interiormente arrependido, com a consciência disposta a qualquer penitência que a patroa lhe imponha. Tarde demais... ela dorme em rumosa apnéia.

Por Ery Roberto Corrêa | 7:34 PM
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[blogagem coletiva]
A PAZ É UMA CONSTRUÇÃO



Imagem do site unida.org.ar


Se existe uma iniciativa na blogosfera que me causa entusiasmo é a sugestão de blogagem coletiva quando sua temática é necessária e capaz de se tornar instrumento de reflexão.

Hoje diversos blogues estão conectados à idéia do Lino Rezende, que elaborou um belo convite à manifestação em favor da PAZ.

A paz é uma construção. Inexiste um dia específico da paz porque ela não é uma efeméride no sentido de registro de fatos sucedidos. É sim um ato contínuo, a ser vivido diariamente, para que a alcancemos de forma a considerá-la a normalidade do nosso tempo.

Mas ela é vulnerável, a qualquer momento pode ser rompida pela ignorância e maldade humanas. Por tais fraquezas temos que sempre a estar construindo. Cada um tem esta obrigação, que nasceu da convivência com seus semelhantes e com a própria natureza, esta tão agredida e levada a planos secundaríssimos hoje em dia, vítima que é da ganância e despreocupação com o próximo.

Não se atinge a paz ou a momentos de paz sem amor próprio, pois deste sentimento emana toda possibilidade de se respeitar o semelhante, dando-nos a noção mais efetiva do direito. Ela não sobrevive onde há rejeição das diferenças e o desconhecimento que amizade fortalecida é material de fraternidade.

Todavia, embora todos os conceitos úteis, a paz se constrói definitivamente através da educação, um legado sagrado que se transfere como herança para as sucessivas gerações. Assim, nenhuma delas há de estranhar as práticas de boas ações.

Com educação não há violência nem jeitinhos nem corrupção e nasce o reconhecimento, a igualdade, a valorização do bem comum, o respeito aos patrimônios individuais e coletivos. A paz não é uma causa, que atingida se completa. É uma missão, que para ter razão de ser obrigatoriamente é vivida a partir de cada ser humano com ela comprometido a partir de pequenas atitudes.

Só haverá paz aceitando-se esta primogênita preocupação. É fruto da sabedoria: "Ensina a criança no bom caminho e jamais ela se desviará dele".


Por Ery Roberto Corrêa | 1:08 PM
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