Ainda em estado de choque cumprimentei Flavinho, a quem conhecia de longa data por ser um ex-sindicalista ligado à nossa categoria e que agora, assessor parlamentar, vivia voando entre Brasília e Curitiba. Custava-me acreditar em qualquer motivo que justificasse estar ali entre nós. Dadas as circunstâncias era um estranho. Parecia assustado e nervoso.
Passada a tensão daqueles momentos recentes, embora precisasse saber da versão de Romildo para aquela confusão, resolveram ir ao restaurante. Romildo já havia deixado sua bagagem no outro apartamento de casal. Minhas coisas eu as mudaria na seqüência, em minutos.
Perguntei-lhes quem havia decidido tudo aquilo sem minha participação e imediatamente percebi que certo constrangimento pairou no ar. Romildo tratou de se antecipar e responder que não me preocupasse porque tudo estava resolvido e fazia parte da “bela surpresa que haviam me programado”. A temperatura parecia se alterar e calei-me momentaneamente. Romildo ainda fez um discreto sinal para me dizer que explicaria depois.
Lá no restaurante acomodamo-nos e fiquei na esperança que a qualquer momento iríamos esclarecer aquela produção surpreendente. A ação parecia o cumprimento de um script preparado com requintes de provocação para sugerir algo que eu ainda não havia entendido. Quando Romildo, sentado à minha frente, pediu a carta de vinhos e apoiou seus braços sobre os meus e pareceu descrever com os dedos os mesmos caminhos percorridos por Sérgio naquela outra conversa, pareci me sentir atingida. Pedi a Flavinho que estava ao meu lado para que trocasse de lugar com meu marido e fui gentilmente atendida na correção estratégica daquele posicionamento equivocado. Eu teria Romildo mais próximo e também poderia analisar frontalmente as reações do "casal".
Brindamos à chegada do meu marido, saboreamos uma refeição leve e ficamos ouvindo algumas histórias contadas por Sérgio e Flavinho. Minhas preocupações e constrangimento iam e vinham, mas não posso negar que sentia felicidade. Romildo parecia diferente. Esteve sempre segurando minha mão e o braço esquerdo constantemente por sobre meus ombros como que me protegendo. A todos que por ali estavam podia parecer uma posição normal, mas eu sabia que era uma novidade.
Mirando-me, Flavinho perguntou se Romildo tinha matado a saudade, mas ele próprio respondeu dizendo que seria preciso mais tempo.
Sérgio aproveitou da situação e com ares que eu já experimentara antes, fazendo piadas quis introduzir o Tantra na conversa. Eu estava ficando cansada e tinha dois compromissos. Mesmo que o profissional no outro dia fosse somente após o almoço e por apenas duas horas, ainda que tivéssemos de decidir sobre nosso vôo de retorno, o prioritário era conversar muito com Romildo antes de dormir. Para que o consultor não disparasse suas teorias, sugeri ao meu marido que fossemos "matar as saudades". Ele concordou. Em outras épocas me mandaria dormir e permaneceria na conversa. Ou eu estava diante de um sonho ou algo muito estranho havia acontecido. Eu precisava saber, mas somente a dois.
Despedimo-nos e os dois resolveram por lá permanecer. Entre eles certamente havia bastante a ser conversado.
Enquanto caminhávamos ao novo ninho, Romildo ia calado. Senti vontade de chorar e uma enorme culpa se apoderou de mim. Olhava nos olhos do meu marido e também percebia um rosto melancólico. Estava claro que ambos esperávamos uma palavra nova, mas buscávamos o momento certo. Tive certeza da minha culpa.
A situação abriu minhas torneiras de lágrimas. Em nenhum outro momento havia me atinado ao fardo das minhas falhas. Quando entramos no apartamento ele me segurou pelas mãos olhando dentro de mim e depois que seu polegar enxugou a lágrima que rolava, me abraçou cheio de ternura. Senti meu homem diferente, mais autêntico em sua forma de me tocar, provido de uma desconhecida tranqüilidade e com nova capacidade de mergulhar pelo meu íntimo através de outro olhar que não era acusador. Apesar daquelas sensações eu tinha um peso na consciência.
Ele deveria ter um motivo forte para estar comigo depois de uma chegada tão repentina e eu já começava a remoer arrependimento, apesar da incerteza que tinha quanto às chances de permitir um caso com Sérgio. Pediu que por ora silenciássemos quanto às razões que lhe haviam trazido até mim, que apenas fizéssemos nossos corpos falarem e comemorássemos ardentemente o conhecimento da verdade mais importante de todas: o prazer infinito de estar juntos em dia de fortes razões para ser diferente.
Aquelas palavras causaram-me trégua nos pensamentos e me entreguei de vez em seus braços. Desabotoei suas roupas e desabamos sobre a cama. Normalmente em momentos semelhantes travávamos uma luta contra o tempo. Ali, daquela vez, calmo, ele me orientava as mãos para seu sexo enquanto me beijava intensamente e me tocava os seios. Libertou-os abaixando as alças do vestido. Puxou-me para o lado com extrema delicadeza, segurando minha perna entre as suas para apalpar-me as coxas já expostas. Sua mão viajava pela geografia da minha cintura até descer pelas nádegas e perceber a ausência da calcinha que tantas vezes arrancou freneticamente, como se ela fosse o objetivo maior do seu prazer – um troféu.
Cumpriu o combinado e nada me perguntou. Erguendo-me, puxou o vestido e o retirou com elegância. Eu não acreditava na maneira como estava sendo preparada para uma noite de sexo tão inesperada e com o homem que sempre tive. Sentada, terminei de lhe despir e as duas horas seguintes foram de uma magia que jamais eu tinha experimentado. Por quase todo o tempo ficamos nos amando em posição inédita para nós, sentados frontalmente, com as pernas entrelaçadas, o que nos proporcionava uma distribuição indescritível de energia através dos movimentos de quadris divididos em seqüências e intervalados por suaves toques das mãos nos peitos. Havia um diálogo fantástico dos nossos olhares. Explorou-me por inteira com toques suaves de mãos e língua, despertando-me para inusitado conhecimento de mim mesma.
Estávamos imersos no mais completo ato sexual de nossas vidas. Era uma troca sem precedentes. Vibrávamos com a temperatura dos nossos desejos e quando eu reiniciava meus movimentos bombeava mais energias. Parava e lhe acariciava as costas, ombros e rosto, repetindo toques iguais aos que recebia. Nossos olhares contínuos faziam esta energia circular e eu estava falando outro idioma sem palavras. Tinha consciência que o êxtase tão próximo não seria um orgasmo comum, seria cerebral. E quando chegava bem perto fechava os olhos e empurrava minha língua para o céu da boca. Era preciso prolongar aquela experiência única, inesperada, cheia de renascidos motivos.
Quando já não existiam mais forças, depois de sucessivos adiamentos, tivemos o orgasmo mais prolongado de nossas vidas naqueles dez anos meio conturbados e pouco entendidos. Ainda ficamos longo tempo conversando através dos nossos olhares, pois descobri que sabia muito da gramática daquele idioma, que ele era o meu e eu não o tinha usado nunca. Senti-me inteiramente feliz, pois, mesmo o rejeitando por tanto tempo, acabei compondo com seus abstratos vocábulos a mais perfeita poesia do meu silencioso dizer.
Depois levantamos e fomos beber água. Terminamos juntos debaixo da mesma ducha. Coloquei Romildo contra a parede pois eu queria conversar e saber de tudo, mas ao evocar outra vez o combinado e se dizer mais cansado do que eu por reconhecidos motivos, acatei sua promessa de tudo contar no dia seguinte na primeira oportunidade possível. Foi melhor assim.
Antes de deitar ficamos nos acariciando no sofá em um relaxado "depois" que poucas vezes tive. Beijamo-nos longamente. Ainda insisti que pelo menos me fizesse uma declaração de amor, para ser lembrada sempre, como um presente para aquela noite. Romildo sentenciou:
— Em certos momentos, só um homem inexperiente faz uma declaração formal. Uma mulher convence-se de que é amada muito melhor pelo que adivinha do olhar do que pelo que se lhe diz com palavras gastas.
Eu queria que a cidade inteira ouvisse aquilo. Por uma nova janela vi as luzes de Brasília. Eram mais autênticas. Algumas piscavam alegres na madrugada. Havia uma brisa de verdade. Aquele dia que ainda não amanhecera deveria ser feriado.
Que estaria se passando lá naquela outra fronteira?
Neste final de semana eu vi Paulinho da Viola na televisão. Tenho enorme respeito por este artista pelo que ele significa para a cultura do samba.
Estava acompanhado das filhas que trouxeram do pai o gosto e talento musical. Durante sua apresentação, quando também respondeu perguntas da platéia, Paulinho falou da sua relação com Cartola, de quem é considerado herdeiro, as influências de Pixinguinha e Nelson Cavaquinho, sua convivência com Zé Kéti e Hélton Medeiros e cantou músicas antigas e do último show, algumas feitas com novas parcerias.
Paulinho tem uma marca que é visível até para quem o vê e ouve cantar e contar sobre sua vida pela primeira vez. Ele transmite uma energia diferente vinda do seu modo simples de ser, na palavra pensada para ser dita, justificando o respeito que conseguiu com seu raríssimo talento de artista completo (compõe, executa a instrumentação e interpreta) e principalmente porque demonstra caminhar fiel às tradições e influências tão fortes, ou seja, se renova e produz sem abandonar seus princípios e valores estéticos.
Confessou ter aceitado participar de um trabalho com Marcelo D2 por considerar a proposta válida no sentido de apresentar o samba dentro do contexto funk, sem qualquer preconceito, porque acha válido levar o samba para próximo de outras vertentes. No entanto, deixou claro que fez o ritmo à sua maneira, da mesma forma como D2 fez o que gosta de fazer sem qualquer interferência da sua parte.
Sua obra é vasta. Nos anos 70 gravou praticamente um disco por ano e trouxe o choro de volta à moda em seu espetáculo "Sarau". Nos 80, mais quatro e só na década de 90 que a crítica passou a considerá-lo um músico sofisticado e maduro.
O que impressiona em Paulinho, com toda sua história de contribuição à música brasileira, é ser um artista que não se acostumou a se servir excessivamente da mídia através de uma superexposição para ser o que é, ou melhor dizendo, continuar a ser o que sempre foi.
Há em artistas deste naipe a virtude da luz própria. Pode ficar anos sem gravar um disco ou produzir um show importante, como foi "Bebadosamba" recentemente e o belo CD "Meu tempo é hoje", em 2003, mas cada vez que retorna ao palco ou a um auditório de TV, percebe-se que é o vinho mais nobre que a casta da velha guarda do samba produziu. Aparenta certo isolamento que é uma característica decorrente de ser dos únicos que produziram samba com poesia na MPB. Representa um universo particular dentro da cultura musical brasileira.
Perguntaram-lhe a respeito da manifestação de Cartola, quando disse que seria seu verdadeiro herdeiro e ele afirmou que sente imenso orgulho deste gesto. Eu gostaria de vê-lo responder, igualmente, quem considera hoje o principal candidato a ser o "seu herdeiro". Posso estar enganado, mas acredito que este questionamento o deixaria na maior "saia justa". Não acredito nem que mencionasse sua própria filha Eliane Faria, que é cantora e compositora, integrante da ala de compositores da Portela e já puxou samba para a Escola Paraíso do Tuiuti, justo pela humildade e constatável timidez.
A valorosa história de Paulinho da Viola é prova suficiente para nos mostrar o motivo da mídia, principalmente a televisiva, ter optado pela superexposição de mediocridades. Há no verdadeiro artista um compromisso com as raízes da cultura e zelo pela qualidade, virtude que obriga seus fãs a criar um vínculo com o conhecimento do que se passa no ambiente e no tempo da construção das suas mensagens, o que certamente é capaz de produzir o fenômeno da não-alienação cultural. E isto obviamente se estende para outros campos, como a consciência política, sendo capaz de criar referências e personalidade do pensamento. Depois, sendo poesia não é comercial. "Pra se entender / Tem que se achar / Que a vida não é só isso que se vê / É um pouco mais". O "apenas comercial" não tira da mídia seu poder de patrocinar a manipulação dos costumes, nem que isto custe a depreciação absoluta de valores ligados à tradição cultural em todos os sentidos.
Fica fácil entender porque será muito difícil um herdeiro à altura para ícones como Paulinho da Viola.
E fica mais fácil compreender que os gênios sozinhos são capazes de predizer. E até dar receitas.
Acreditei na razão
E a razão se mostrou
Uma grande ilusão
[...]
E por isso eu lhe digo
Que não é preciso
Buscar solução para a vida
Ela não é uma equação
Não tem que ser resolvida
A vida, portanto, meu caro,
Não tem solução
[Solução de vida - Paulinho da Viola/Ferreira Gullar]
Quando o poeta se encontra
Sozinho num canto qualquer do seu mundo
Vibram acordes, surgem imagens
Soam palavras, formam-se frases
Mágoas
Tudo passa com o tempo
Lágrimas
São as pedras preciosas da ilusão
Quando surge a luz da criação no pensamento
Ele trata com ternura o sofrimento
E afasta a solidão
Dentro do elevador, colocado em funcionamento automático, sozinha, tive vontade de ir encontrar Sérgio na recepção. Estalara estranho aos meus ouvidos aquele tal "detalhe surpresa" usado ao telefone e que agora parecia promover um efeito retardado, causando-me uma descarga de adrenalina que fazia aumentar a curiosidade.
Sérgio gostava de promover brincadeiras inesperadas aos mais próximos. A última tinha sido sensacional. Quando um colega foi coincidentemente promovido no dia do aniversário, mobilizou um grupo e levou para dentro da empresa uma caixa enorme que chegou carregada por cinco dos nossos amigos. Um super laço de fita vermelha contornava aquela big surpresa. Com todos reunidos em círculo, nosso gerente felicitou o colega e lhe autorizou abrir a grande caixa que supostamente "continha" um belo presente material de aniversário, oferecido por todos do nosso Departamento. Tímido e desconfiado, provavelmente desacreditando que aquilo fosse sério, o colega desatou o laço e levou o maior susto da vida quando viu o volume se abrir e dele sair sua noiva, com um cartaz nas mãos: "Agora podemos casar, você foi promovido a gerente operacional. Parabéns". O rapaz quase teve uma síncope. Ao se recuperar, recebeu do Sérgio nossa lembrança pelo aniversário.
O que estaria aprontando lá embaixo para me oferecer? Caramba! Eu estava ficando confusa. Por outro lado tinha que deixar de pensar apenas em mim. Também poderia ser um problema que diretamente lhe dissesse respeito. Mas ali, longe de Curitiba, em menos de 48 horas, o que lhe causaria um embaraço? Era impossível já ter um caso em Brasília e estar passando por alguma "saia-justa". Não havia comentado absolutamente nada, nem dera motivos para desconfianças. Se ao menos aquela colega de Porto Alegre, flerte antigo, estivesse por aqui, a coisa seria mais lógica. Mesmo assim, resolvi que não deveria aparecer. Afinal se precisasse de ajuda teria pedido.
O apartamento não era longe do elevador. Quando parou, antes da porta se abrir tive um calafrio. Eu suava e certas lembranças do nosso convívio e sua personalidade passaram a me produzir um misto de ansiedade e medo. Imaginei ter ouvido uma voz me dizer que seria melhor voltar e dar um tempo.
Estava desequilibrada e por tempo que não sei precisar fiquei ali parada naquele corredor. Senti vontade de fumar depois de ter largado o vício lá se iam três anos. Algumas vozes reais agora se fizeram ouvir de verdade quando a porta do elevador se abriu outra vez. Tive vontade de correr do quarteto de hóspedes que chegava ao andar e ato contínuo me virei e acelerei os passos na direção do retorno. Ainda consegui segurar o elevador e entrei imediatamente.
Comandei meu andar e me descobri a criatura mais atrapalhada e confusa do mundo. Uma sensação de ridículo se introjetou em mim. Estava tão próxima de tudo e decididamente nada sabia nem conseguia imaginar o que estaria por acontecer. Corri para meu apartamento parecendo uma vítima que fugia do seu algoz. Senti ardida vontade de urinar e minhas mãos trêmulas sofriam para resolver a introdução da chave na fechadura do meu esconderijo.
Entrei, joguei a bolsa sobre a cama e corri para o banheiro. Ergui o vestido e prova da minha confusão foi querer abaixar uma calcinha que não existia. Sentei e devo ter jorrado urina, adrenalina, suores de todos os tipos e lágrimas junto com toda e qualquer gama líquida acumulada para ser libertada em situação de prazer e que ali se perdia sob um signo de susto e medo absoluto.
Respirei fundo, enxuguei-me delicadamente como se fosse um carinho calmante de alguém que me amasse, recompus-me já andando e como se fosse uma arma empunhei o celular e disparei o número do Romildo. Embora a incerteza de encontrá-lo, o último número teclado pareceu-me um tiro mortal no inimigo. Uma repentina e inesperada calma se apossou de mim, como uma fagulha de esperança em ouvir a voz do meu marido. Meu Santo! Ainda não sei se pensei ou se falei, "onde andará este homem?" Desta vez teria que lhe encontrar pois a falta de comunicação além daquela noite certamente me descarregaria o pânico.
Enquanto ouvia o repetido tom de chamada, sentada aos pés da cama, olhando de frente para o espelho do aparador, eu vivia uma cena construída rápida e propositadamente em minha cabeça e que era, certamente, a simbologia total da minha carência. Fazia do espelho uma enorme tela para reproduzir a imagem do Romildo ajoelhado sobre a cama, atrás de mim, massageando-me os ombros e às vezes descendo as mãos macias para os meus seios. Fechava os olhos, pendia minha cabeça exercitando um relaxamento duvidoso, mas que me causava tanto bem que não queria mais abri-los. Aquilo era de uma só vez fictício e real pela força do meu pensamento, mas se interrompia abruptamente pela formação de outra tela dentro das minhas retinas fechadas, onde a presença do Romildo teimava em ser substituída pela do Sérgio.
Desliguei o celular, Romildo tinha virado uma incógnita. À janela, com um tanto das luzes de Brasília me espiando vestida — incrível até elas parecem tão falsas e mais artificiais do que as de quaisquer outros lugares —, eu teclei o número de casa com renovada esperança que, segundos depois, se desfez feito bolha de sabão.
Liguei a TV. Pedro Bial ainda teima em chamar aquela turma boba de "meus heróis"? Eu não sabia mais o que fazer, mas, em incrível paradoxo, não encontrar Romildo outra vez me trouxe estranho equilíbrio. Eu não estava sozinha, Sérgio estava ali e afinal, onde deixei minhas qualidades de mulher que me faziam independente, corajosa e auto-suficiente para tantas coisas mais complexas? Eu não era Chapeuzinho Vermelho, meu consultor não era lobo, embora certamente quisesse me comer, vovó já tinha morrido e aquele hotel não era uma floresta. Decidi-me.
Acertei os longos cachos, retoquei o veneno do Romildo, ajeitei os seios no decote daquele vestido vermelho que já me incomodava e fui para a recepção. Novamente no elevador levei outro susto quando a porta se abriu no andar do Sérgio. Eu havia comandado inconscientemente. Percebi-me a Tônia de sempre, decidida e com os reflexos em dia. Segurei a porta que se fechava, sai e caminhei para o apartamento dele, repetindo cena que deveria ter se completado há quinze minutos.
Caminhei firme e quando me dei conta estava girando a maçaneta da porta de destino. Antes um serviçal passou com carrinho de serviço e nem me cumprimentou. Achei ótimo. Ainda sem abrir a porta o suficiente, chamei pelo Sérgio. Nenhuma resposta. Tudo estava como combinado, com única diferença: agora eu me sentia mais detetive do que futura amante.
Entrei. Havia um homem deitado na cama com os pés calçados levemente fora dela e com o rosto encoberto pela última Veja. Minhas pernas eram bambus no vendaval do susto. Eu estava passada, boquiaberta, muda, novamente vertida em suores. Larguei a bolsa ao chão no mesmo instante em que, num ímpeto que não era meu, corri na direção da cama, já com aquele homem em pé e com seu verdadeiro rosto revelado.
Abracei-o, agarrei nos seus cabelos, mordi seu pescoço, pendurei-me pelos seus ombros, sufoquei-lhe com um beijo que jamais havia dado em alguém, destrancei minhas pernas do seu corpo, tornei-me outra vez apoiada ao chão e dei-lhe um empurrão, atirando-o feito uma presa fácil sobre a cama.
Ainda não era hora do meu espírito predador. Antes, Romildo teria muito a me explicar sobre o que estaria fazendo ali.
Fitávamos-nos, sem pronunciar qualquer palavra, quando explodimos numa gargalhada interrompida pela chegada do Sérgio com um buquê de rosas nas mãos.
Antes que minha confusão se tornasse ainda maior vendo-o ali parado, tenso e sério, ele pronunciou com voz rouca e nervosa:
O quinto e "não mais último capítulo" do meu feuilleton, O TANTRA DO CONSULTOR, que venho apresentando aqui (quem o classificou como folhetim foi o querido amigo jornalista Jens), entra amanhã (25.01.08) na fase mais interessante da trama. Posso adiantar que chegará à história seu quinto e derradeiro personagem, aquele que provocará a reviravolta que talvez meus leitores não imaginassem. Será uma presença que considero a chave das portas que protegem dois outros personagens contra uma maior exposição até o atual estágio, o capítulo IV. Já decidi pelos argumentos e hoje interrompo a publicação porque preciso falar de um assunto muito importante.
Há quase dois anos conheci um garoto muito inteligente, empreendedor, mente arejadíssima, respeitável caráter e detentor de invejável consciência de cidadania. À época estava prestes a concluir seu curso superior. Vi no Ítalo de Paula Pinto, através do entusiasmo pela profissão que abraçaria mais adiante, um expoente – raridade, diria – desta geração jovem que ainda, infelizmente, carrega a triste marca do desinteresse pela contribuição social e participação ativa na vida do país.
Como não admirar um jovem que hoje em dia, colocado diante de um leque de escolhas profissionais infinitamente mais rentáveis financeiramente, opta pelo magistério? No caso do Ítalo ficou muito fácil, desde o início, reconhecer que a atitude decorreu de verdadeira vocação, motivado que foi pela família na figura exemplar da sua mãe, honorável mestra de outros tempos menos poluídos.
Quando penso na drástica situação do país quanto à Educação, costumo remeter-me à estranha metáfora de uma "enorme carreta" (seja aqui um pleonasmo perdoável), que transitava ao seu destino carregada pelos anseios de uma revolução capaz de transformar o Brasil pelas vias da formação e das oportunidades, as quais, em última instância, consolidam o sentimento de liberdade.
Hoje a carreta se encontra "encalhada" no lamaçal dos escândalos promovidos por nossa "educada elite política". Aqueles que disseram ter ido buscar o trator da solução para tentar desencalhar a carreta, foram e não voltaram mais. Devem estar sentados por aí, lustrando os cabrestos para a próxima eleição. Enquanto isto, alguns abnegados cidadãos, romanticamente ainda conhecidos por professores, tentam unir forças e estratégias, verdadeiras de guerra, para tentar desatolar o caminhão.
Pois bem, sempre considerei o amigo Ítalo um nobre sonhador, desses altruístas que apóiam seus ombros na traseira da carroçaria dessa combalida realidade, para somar suas forças até o limite da exaustão, tentando empurrá-la adiante e libertá-la definitivamente do inexorabile obstaculu.
Pelas circunstâncias é normal compreender que em determinado momento alguns soldados desse louvável batalhão se sintam determinados a desistir de ser parcela desta soma que é elemento notável na solução de complexa equação. Eles não buscam glórias para si mesmos no rumo do heroísmo, mas objetivam a retomada da dinâmica necessária ao resgate da educação por amarem sua missão. Todavia é um amor suscetível a diferentes limites, mensuráveis pelo teor de desencantos que cresce como intensas nuvens negras e inviabilizam a visão do horizonte.
O insumo principal para realizar um sonho é a persistência. E quando esta começa a faltar, não podendo vestir a mesma farda, pelo menos devemos todos doar a estes soldados abalados um tanto da matéria prima disponível em nós, conhecida como "incentivo".
Ítalo passa por um momento de desilusão em seu trabalho, na cidade em que atua. É um tempo difícil e que quando não administrado da melhor maneira atinge negativamente o estado emocional, levando as pessoas a desistir de outras coisas que tão bem sabem fazer.
Ele também havia decidido abandonar seus textos no Críticas e Reflexões, instrumento importante onde faz seu trabalho e pensamentos serem notados. Lá naquele excelente blog, é possível sentir sua esperança transformando essa metáfora que aqui desenhei e, na transcendência da classificação de figura de linguagem, se abrir na possibilidade de revelar glorioso substantivo concreto de realização mais que necessária.
Convido a todos vocês que aqui me prestigiam com a leitura a clicar neste link e lá deixarem um pouquinho do seu incentivo. Um jovem tão visionário e importante nessa luta que é nossa, não pode despir sua farda e abandonar a guarnição.
Resolvi surpreender para virar o jogo. A aventura principia quando um fato perturbador da rotina nos faz encarar um desafio que, de outra maneira, não o faríamos. O tratamento não usual do Sérgio comigo poderia ter uma ligação com a impossibilidade da minha comunicação com Romildo.
Diante da nossa lógica relacional a certos vestígios cabe antes a reflexão, para que se busque, depois, por mecanismos práticos, o integral conhecimento da circunstância. Tanto tempo passado e ainda conseguia lembrar deste conceito, tema de umas das aulas do meu abandonado curso de Direito.
Quando por conta própria se busca certezas na condição de estarmos envolvidos no suposto fato, associam-se obrigatoriamente fatores emocionais a qualquer investigação. Em se tratando do campo passional os riscos destas influências são significativos para distorção da verdade. Eu precisava agir isenta, mas me encontrava em situação delicada.
Jamais suspeitei do Romildo quanto à sua convicção sexual e fidelidade conjugal, embora fosse visível sua insatisfação comigo nos últimos tempos. Tudo que tinha ouvido do Sérgio nesta viagem, contado sem reservas, o "Favoritos" do PC lá de casa e a possível saída da cidade, chancelada pela dispensa do trabalho, acenderam-me uma luz amarela que iluminava uma ligação de fatos.
Se Romildo tanto usava a rede para pesquisar sexo tântrico, uma prática de natureza envolvente transformada em meio de se atingir autodomínio em todos os planos, parte de uma filosofia que, por óbvio, requer uma mudança profunda no modo de vida e na forma de encarar o sexo, a quem estaria dedicando todo aquele acúmulo de conhecimentos? Sérgio havia me ensinado que o Tantra é prática.
Tendo um círculo pequeníssimo de amigos, apenas dedicada à sua casa e sem trabalhar fora, embora quando necessário circulasse com desenvoltura por diversos ambientes, mesmo assim, quem teria iniciado Eva nestas práticas? Romildo a tinha como contato do MSN!
Sérgio, história de casamento aberto, um solteirão de aliança, sonhador inveterado, um tanto inconseqüente e juvenil, jamais escondeu o pouco valor que dera até então ao seu relacionamento conjugal.
Pensei em tudo isto enquanto organizava minhas coisas no apartamento antes do banho. Deduzi que tentar outras ligações ao Romildo não seria o melhor naquele clima, mas espiei o MSN. Incrível como aquele status offline que antes me seria a glória agora era uma espada a me lamber as costas. Conscientizei-me que estava mudada.
Contar a melhor amiga que mais conhecesse meus sentimentos e ainda abrir que apesar de tudo meu tesão por Sérgio aumentava a cada minuto, como um desejo repentino que viajava por estrada paralela, seria para enlouquecer quem quer que fosse.
Quando terminava de me arrumar, decidida por repetir a agora consciente provocação do meu corpo nu sob apenas aquele vestido justo e de decote arrasador, peça comprada à véspera da viagem, o telefone tocou.
A voz trêmula e meio ofegante do Sérgio disparou minha libido. Senti-me energizada e ato contínuo, inconsciente, apertei a língua no céu da boca como se tivesse segurando um orgasmo. Eu estava possuída por tudo que aquele homem me contara. Se minha excitação fosse a bolsa de valores teria causado o maior corre-corre do planeta.
Aquela era hora para lembrar da profissão? Puta que pariu! Foi o que pensei ouvir todo meu corpo pronunciar.
— Tonia, querida, estou na recepção resolvendo um detalhe surpresa, mas deixei a porta aberta. Vá até lá e me espere. Seja boazinha, retorno em minutos. Fique à vontade e vá pensando na bebida que quiser. Hoje é especial, acompanho. Estou desejoso de te ver feliz e resolvida como sempre. Temos muito a conversar.
Concordei movida pelo pensamento imediatamente aflorado, que aquela pequena mudança no combinado era uma provocação a mais e já tinha sido anteriormente mentalizada e aceita sem qualquer restrição de minha parte.
Ao sair e fechar a porta lembrei que ao viajar esquecera de trazer meus melhores perfumes. É intrigante quando penso que até neles uma mulher se refugia dos seus medos. E uns parecem mais poderosos do que outros. Voltei para corrigir o tom do "escudo". Nunca tinha feito aquilo, mas resolvi borrifar meu ventre com o único que havia na bolsa, justo um vidrinho que Romildo detestava e apelidara de veneno mortal. Mas em outra ocasião, ao senti-lo de longe, Sérgio me elogiara. Tudo certo. A noite era dele.
Com passos lentos e medidos iniciei minha caminhada ao calabouço. Ou seria ao Nirvana?
Em dezembro passado criei o Prêmio "Post de Ouro". A singela láurea representa reconhecimento pessoal por um texto de qualidade marcante, apresentado em blogs por onde circulo e que tenha de forma especial deixado uma marca importante. O convívio blogueiro significa hoje muito mais que apenas a já comum aproximação virtual, pois acima de tudo proporciona a troca de experiências, informações, prática do debate, novos conhecimentos, elementos que, agregados, consolidam amizade verdadeira que chega a se transformar em realidade.
O primeiro foi concedido à querida escritora Adelaide Amorim, do blog Umbigo do Sonho, pelo texto exuberante, postado em 06.12.07, "Ego Malhado" - que deve ser relido por quem já teve a oportunidade e lido por quem ainda não o conhece. É uma primeira tentativa de incentivo que faço ao comentário de posts passados, pois como bem disse o Peri, "se não fosse para ser comentado [a qualquer tempo] post passado deveria ser deletado".
Este 2º. prêmio concedo à Professora Maria Elisa Guimarães, do blog FLABBERGASTED2, pelo texto "Escritora, feminista, SIMONE DE BEAUVOIR, mulher e mulher-militante, de 12.01.08, não apenas pelo brilhantismo do seu conteúdo, que é resultado de vasto conhecimento temático, admirável trabalho de pesquisa e contribuição magnífica para a disseminação da arte literária. É também concedido para que produza uma lembrança da excelente condução do debate e principalmente pela emocionante conclusão em "Comentários", proporcionada por sua insigne autora. O texto foi tema de post aqui no Infinito Positivo, em 18.01.08, com o título "A POLÊMICA CONSTRUTIVA", sob a tag blogs inteligentes.
Mais do que a posse desta imagem particular, que a critério da premiada poderá ser incluída em sua postagem original, a simples homenagem, a partir desta versão, ganha também a menção de todos os blogueiros e não blogueiros que ajudaram a construir o post de ouro participando do debate que o mesmo provocou. Foram eles:
Estaria mentindo se dissesse que tive uma noite tranqüila de sono. Logo que deitei tudo se misturou em minha mente. Eu não sabia atribuir prioridade de valores às minhas preocupações. Fiquei tentando dissociar as coisas que tinham acontecido, mas sempre sobrava um elo difícil de romper. Mesmo assim, continuei tentando. Parecia-me que aquele exercício, caso completado, me daria uma pista definitiva de decifração do meu estado de espírito.
Pensei na ausência do Romildo em casa, crescera a perturbação por certas lembranças do meu casamento e que já me faziam experimentar sentimento de culpa, sentia-me motivada pelas mudanças na vida do Sérgio com Eva e o desprendimento daquela criatura que agora me parecia feliz, doce e dona absoluta da relação. Por último vinha o que me parecia mais tocante em mim: estava convencida que boa parte da insatisfação sexual se devia muito aos meus comportamentos, pela falta de atenção ao meu parceiro durante bom tempo e pela rotina que ajudei a construir.
Eram situações que poderia perfeitamente resolver por minha iniciativa, mas ainda restava uma e era uma decorrência. Eu estava enfeitiçada por Sérgio. Nenhuma mulher é capaz de dominar suas paixões quando não busca domínio absoluto das carências, nem que seja por temporária sublimação. Eu tinha uma, era minha sede de sexo. Naquele momento tive a certeza que mesmo Romildo, com sua trepada quase que por obrigação, me faria a mulher mais feliz do mundo.
Minha regra imediata passou a ser "não ceder". Vi faíscas de desejos nos olhos do meu consultor, mas sabia ser apenas resquícios da sua prática de casamento aberto. Para ele a oportunidade era perfeita. Tinha longo histórico de uma amizade respeitosa por mim. Sempre havia sido o único ombro nos meus maus momentos e crises profissionais. Prestava-me valiosos favores na carreira e era o mentor dos meus melhores ganhos financeiros através de sábias orientações da sua experiência. Nunca nos desentendemos e seu interesse por mim estava resumido, todo ele ali, naquele carinhoso novo ensinamento que me passava através da animada reviravolta no casamento. Mas teve o toque, aquele beijo, o soluço na hora do abraço mais longo que já me dera, a perna trêmula e a indisfarçável ereção que levou de volta ao seu aposento.
Todavia eu não acreditava que fosse jogar com este passado para me propor um caso. Não acreditava e algo dentro de mim queria ao mesmo tempo acreditar. Eu estava tão balançada com relação à minha fidelidade como ele quanto à prática da bissexualidade.
Pela manhã, repentinamente após acordar, tive uma idéia que pensei ser o alívio que faltava caso conseguisse executar. Ora bolas, se eu tinha tanta facilidade, até certa intimidade com meu colega, por que não usar do jeitinho e confirmar o motivo de estar me contando sobre o Tantra? Nunca lhe reclamei do meu casamento e embora tenha aberto sobre minha crise atual, isto nunca seria razão para lhe despertar oportunismos. Mas, mesmo que respondesse que queria me ajudar, restaria o beijo, o abraço, o mistério daquele olhar profundo, a aura diferente que observei quando me sentiu quase nua com apenas aquele vestido e a ereção. Sim, aquela maldita ereção. Ou seria bendita?
Desencanei porque estava na hora de ir trabalhar. Sempre me resolvi rapidamente. Eu perguntaria sobre tudo quando a noite chegasse.
Tivemos uma manhã repleta de atividades onde cada participante da reunião apresentou um relatório que havia sido encomendado. A tarde haveria uma palestra de novos mercados. Antes do almoço isolei-me numa das salas e telefonei ao Romildo. Primeiro no celular. Sem resposta. Depois liguei em casa. Dez toques sem atendimento. Por último no seu emprego. Romildo havia pedido dispensa por três dias. Desabei.
Sérgio estava lá embaixo, no hall de entrada do prédio, falando ao celular. Aproximei-me e lhe fiz um gesto de estar faminta. Tínhamos combinado ir almoçar no O Gatto. Ele pediu calma com uma das mãos e afastei-me em direção à saída. Senti vontade de chorar e só me contive pela chegada de duas outras colegas de São Paulo. Enxuguei-me rapidamente com um lenço e menti estar com os olhos irritados, cobrindo-os imediatamente com óculos escuros.
Sérgio aproximou-se.
— Falei com Eva! Ontem resolveu passar estes dias na casa da praia. Esqueceu de levar o celular. Hoje iria me ligar.
— E eu não falei com Romildo, ou melhor, não o encontrei.
— Então precisamos fazer uma busca!, disse gargalhando.
Eu tive certo alívio. Afinal a atitude da Eva, a liberdade e independência para resolver fazer alguma coisa para suprir a ausência do Sérgio também eram válidas para Romildo com relação a mim. Poderia ter ido aproveitar uma oportunidade qualquer, em algum lugar, sozinho ou com amigos. Eu só precisava saber se aquela dispensa tinha sido premeditada ou pedida na última hora.
Seria outra coincidência também "esquecer o celular em casa"?!
O dia acabou e voltamos para o hotel, com Sérgio tentando levantar meu astral de preocupação. Eu já havia feito novas tentativas de contato com meu marido durante a tarde. Contei-lhe sobre a dispensa e ele a usou para continuar a brincadeira da noite anterior. Dizia que Eva gostava de mentir e bem que poderia ter levado Romildo "pegar uma cor". E repetiu que se a brincadeira fosse verdade ambos estariam em boa companhia.
Aquela frase intrigou-me ainda mais. Perguntei-lhe se sabia da verdade e estava querendo me poupar com aquela brincadeira. Ele assimilou e pareceu até ficar irritado. Encerrou o assunto perguntando-me se já não era tempo de nos conhecermos melhor.
Nosso jantar seria no próprio hotel, mas resolvemos acompanhar os colegas de reunião no happy hour. Lá ficamos bebendo e petiscando, até às vinte e uma.
Quando chegamos ao Kubitschek, Sérgio me surpreendeu. Já que havíamos decidido dispensar o jantar, convidou-me a conversar em seu apartamento depois do banho. Pediu que ligasse quando estivesse pronta, iria me buscar. Soou-me mais como uma ordenança, mas respondi concordando. Eu estava segura do que poderia acontecer. Se eu quisesse...
"... o que mais me alegra nos blogs são
as trocas possíveis que se podem fazer a partir da exposição espontânea do
que sabemos e transformá-las em partilha (partage du savoir.)"
Eu só li um livro do Paulo Francis e faz muito tempo. Acompanhei parte da sua carreira jornalística como crítico de cinema no Jornal do Brasil, colunista político, ensaísta, editorialista da Revista Senhor, além de poucas coisas no inesquecível O Pasquim. Pena, dizem que foi neste que adquiriu prestígio nacional. Nada sei dos seus propalados romances, escritos que vieram após sua ida para Nova York. Reputo que ainda seja insuficiente para dizer se gostei ou detestei suas obras e idéias.
Irritava-me sim, certa bipolaridade no seu caráter. Ora era um fanfarrão, na TV um artífice de bobagens, o que me parece explicar que a TV tem este poder de transformar o sujeito inteligente em medíocre desde os períodos mais remotos da sua existência – Jô Soares é um belo exemplo -, ora mostrava uma narrativa soberba, principalmente quando exercia seu lado ensaísta. Desta fase conheço "Opinião Pessoal", "Paulo Francis nu e cru" e "Nixon contra McGovern", que foram escalados em livros.
Digo que o título de um livro de memórias é um verdadeiro epitáfio. O de Francis foi "O afeto que se encerra" (1980). Comparem o escolhido por Neruda: "Confieso que he vivido". O verbo "encerrar" teria sido usado em qual dos seus sentidos? Guardar, esconder, conter em si ou puramente “acabar”? Tolerem-me por estas bobagens, estou apenas praticando elucubrações. Não posso discutir o conteúdo do Afeto pela falta de leitura, mas a analisar apenas o título e considerá-lo um sentimento, dependendo do sentido que se escolha, ele parecia certo de ser polêmico. Nem só de afetos vive um homem. A própria história da sua morte foi uma polêmica que os próprios médicos deixaram no ar.
Sem ser coincidência, está lá na introdução de Filhas do segundo sexo, de Francis, um dos mais importantes pensamentos de Simone de Beauvoir, registrado em sua obra Segundo Sexo:
"É sempre difícil descrever um mito; não se deixa apanhar nem cercar, habita as consciências sem cair na imobilidade. É às vezes tão fluido, tão contraditório, que não lhe percebemos, de saída, a unidade: Dalila e Judite, Aspásia e Lucrecia, Pandora e Atenas, a mulher é, ao mesmo tempo, Eva e a Virgem Maria. É um ídolo, uma serva, a fonte da vida, uma força das trevas; é silêncio básico da verdade, é artifício, tagarelice e mentira; a que cura e a que enfeitiça; é a presa do homem e a perdição do homem, é tudo que ele quer ter, a negação de si próprio e a razão de ser do homem."
Apesar da minha parca condição de crítico, confesso que na polêmica sinto certa relação entre o que foi Francis e a verdade de Simone. Não que o considere um mito, é bom que se esclareça em tempo. Nem tampouco por qualquer relevo relacional com a obra, que, por pouco que me lembre, fazia com "Mimi vai à guerra" e "Clara, Clarimunda" uma análise de duas gerações de mulheres – a boneca da década cinqüentista e a fêmea mais Beauvoir dos anos 60 em diante. Fito-me no seu entendimento sobre a condição humana.
"A imprecisão é a constante das nossas vidas", dizia Francis. Ia adiante: "O duro é conviver com a meia verdade e a meia mentira, baseadas em verdades e mentiras falsas que inventamos para fazer de conta que estamos vivos. Para fugir das imprecisões as pessoas se refugiam nas paixões, uma maneira barata de sintetizar em algo pseudo-sólido a nossa fluidez de tobogã sem medida".
Amar ou odiar Paulo Francis é um direito que todos têm.
Maria Eliza Guimarães proporcionou um momento especialíssimo em seu post que mencionei ao início. Cheguei tarde por lá. Não sei dizer se sou o único, mas não comento posts que me parecem temporiamente encerrados pela presença de um subseqüente. Tenho esta interpretação e receio de ficar sem resposta, embora devesse enviar um e-mail à autora. Ela responde a todos, diga-se em louvor. É "avis-rara"!
Neste belo post (meu santo eu preciso lembrar de lhe dar um prêmio!) ela fez uma homenagem ao centenário de Simone de Beauvoir. Nele foi possível admirar, além do belo texto, o lado mediador da MEG nos comentários. Dois outros blogueiros conhecidos, monstros das palavras no bom sentido que são – Milton Ribeiro e Lord Broken Pottery -, proporcionaram memoráveis momentos com fecunda troca de idéias a respeito de gente como Beauvoir e Francis. Mais alinhado ao pensamento da autora, Lord deu um start em grande estilo.
"O revolucionário sempre merece ser celebrado, embora nos dias de hoje, gente como Beauvoir me pareça pertencer a uma casta distante, extinta. (...) sobrou no Brasil alguma cabeça que se aproxime da que Paulo Francis tinha? Quando morreu a erudição? (...) O tempo disparou, anda rápido demais." Um 'in fine' bem à la Francis.
Após a entrada do Milton no debate, crivando de balas a "arrogância do mestre com cara de batata inglesa", com a convicção que lhe acompanha feito água quente em cuia de gaúcho, veio de sua parte uma sentença que "A erudição começou a morrer com Francis e sua inexatidão. Ele inaugurou o 'Se não sei, chuto' que agora foi transformado em 'Se não sei nada, chuto tudo' (...)".
Outros comentaristas (o post fechou com mais de 30 manifestações) recorreram à sentença com elogiáveis conhecimentos do assunto, sob a perfeita condução da querida professora, dileta filósofa e inigualável inteligência. Não sei dizer quem venceu este "paredão". Aliás, sei. Há no âmago de uma oportunidade rara como esta o prazer de sentir a força de um fecho magistral. Fiquem com ele, pois além de verdadeiro tem o poder de nos promover, pois se a blogosfera está cheia de nulidades e desqualificados candidatos a celebridades da escrita, felizmente também conta com gente capaz de nos fazer menos imprecisos e mais constantes pela via do respeito às idéias individuais. Discordar não significa digladiar ou promover os doentios estados de animosidade. Respeitar a opinião contrária é somar conhecimento, que toda vida foi sinônimo de crescimento.
O fecho da Meg é este:
"Um debate, uma discussão é uma ginástica do pensamento e só tem valor se for para obter um alvo que é: o fortalecimento da análise e da crítica. Um aumento da qualidade de ver as coisas com a mente. E todos saem ganhando, aliás, ganhando não, pois ganhando pressupõe que outros percam, o que se sai é enriquecido, com certeza sabendo mais. Ou então com mais dúvidas, que é o estado ideal para obter-se mais conhecimento: De *certezas* andamos todos, todos cheios, não é?
O ganho muitas vezes está em perdemos *todos nós* alguns de nossos *pressupostos* que nem sempre correspondem a uma realidade. A 'paixão' também é desaconselhável, tanto quanto a frieza e a indiferença - e adquirimos o necessário controle à medida que substituímos o desejo de impor uma opinião (aos outros ou a si mesmos) pela justeza da lógica. Ou dos fatos."
Aqui tem um texto ótimo - Paulo Francis no Paraíso -, da autoria de Alexandre Soares Silva, escritor e tradutor. Autor de “A Coisa Não-Deus” (Beca, 2000), “Morte e Vida Celestina” (Candide, 2004), além de dois livros de aventuras para adolescentes, “A Origem dos Irmãos Coyote” e “Na Torre do Tombo” (Global). É imperdível.
Por Ery Roberto Corrêa |
4:35 PM - Link deste post
Em outros tempos eu primeiro teria telefonado e depois ido ao chuveiro. Era uma época em que sentia saudades do Romildo quando estava fora de casa, invariavelmente cumprindo viagens de trabalho. Confesso que me excitava ao ouvir sua voz. Desta vez, ainda anestesiada com o que ouvira na conversa com Sérgio, minha cabeça pareceu entrar em órbita desconhecida. Ao tempo em que me convencia estar certa nas minhas atitudes conjugais, relevando as limitações do meu marido, questionava interiormente o fato de conhecer Eva e se tratar de uma mulher que sabia do que se passava com Sérgio e mesmo assim investir na relação.
Tirei os sapatos e minhas roupas, caí naquela cama cheirosa e ainda arrumada e vi o teto rodar. Antes, ainda pensando no que Sérgio contara, tive vontade de me masturbar, porém antecipei um sentimento de culpa que me nocauteou. Estava impressionada com a realização de um casal de amigos e quando deveria estar feliz sentia inveja e me martirizava por não buscar as mesmas sensações. Na verdade, se não conhecesse Eva teria estrutura emocional para promover Sérgio a "amigo de manutenção". Eu precisava me recompor e me preparar para uma missão profissional, era por tal motivo que estava ali.
Liguei para casa e ninguém atendeu. Insisti no celular do Romildo e senti que estava desligado. Foi a primeira vez nos últimos anos que fui tomada por uma ameaça de crise de ciúmes. Onde teria ido meu marido? Justo ele que nunca saía de casa à noite?
Sentei e liguei o notebook. Conectei ao MSN e vi Romildo offline. Aquilo não era verdade. Resolvi evitar conjecturas ao pensar que poderia ligar mais tarde. Era quarta-feira, dia de futebol, sabe lá Deus se não havia recebido um convite de algum amigo?!
Levantei e fui procurar água no frigobar. Sentia um gosto amargo e uma secura em minha boca. À janela do apartamento eu via um pedaço de Brasília e sua artificialidade. Era o pior lugar para mim naquele momento. A paisagem me acendia idéias de mentiras e traições.
A água gelada recuperou meu radiador e foi o bastante para me trazer à realidade que já fugia. Corri para o chuveiro quando dei conta que estava à janela com meus seios nus. Era, sem dúvida, um momento de total embaraço da minha cabeça.
O banho me reanimou em todos os sentidos. Enquanto relaxava debaixo daquela ducha potente eu viajei por muitos dos anos passados na companhia de Romildo. Lembrei imediatamente das ocasiões em que lhe neguei um filho e então ocorreu a idéia que sua maneira de me tratar sexualmente fosse uma vingança. O telefone tocou no momento em que me enxugava. Era Sérgio dizendo que ainda havia gente no Bar, convidando-me a continuar a conversa. Imediatamente me acendi.
Eu queria afastar a idéia maldita, mas aquele homem estava me excitando. Fazia muito calor no Planalto. Recompus-me rapidamente e inconsciente fui encontrá-lo apenas com um vestido quase transparente e sandálias.
— Hum! Que perfume provocante mulher!
— Sérgio, eu não usei perfume!
— Cheiro de mulher! In natura e com pouca embalagem. Tremi ao me sentir nua, imediatamente percebendo que em mim nada havia além daquele vestido. Disse-lhe que precisava trocar de roupa e fui saindo quando o senti me puxar pelo braço. Caminhamos em direção ao interior do Bar e até sentarmos ele continuou me segurando. Não era nada, só gentileza talvez.
— Acredita que fiz apenas um telefonema?
— Por quê?
— Eva não atendeu nem em casa nem no celular, onde quer que esteja!
— Coincidências existem, meu caro. Romildo também deve ter saído e nem no celular me atendeu. Sérgio deu uma gargalhada.
— Bem, se ele estiver com minha Eva fico tranqüilo, ambos estarão em ótima companhia e possivelmente no paraíso. Assim como nós. Que acha? Poderia ter me impressionado com aquilo, mas qualquer idéia foi abortada pela lembrança que Romildo não tinha amizade suficiente para sair com ela, embora a conhecesse bem. Bobagem!
Pedi água e Sérgio me deu um susto quando resolveu tomar cerveja. Disse que gostava de beber só um pouquinho quando estava bem, feliz, relaxado, bem acompanhado e em lugar aconchegante. Meu colega se mostrava um perfeito galanteador, abrindo um lado personal que eu ainda não conhecia. Confesso que o vi muito mais bonito naquele instante. Algumas pessoas pareceram curiosas com nossa presença e fiz questão de mudar o tom da conversa.
Queria retomar o assunto que me abalara as estruturas no restaurante e estava sem coragem. Minhas pernas pareciam trair os comandos do cérebro a que estavam submetidas por toda vida e eu transpirava debaixo de um ar condicionado. Com Sérgio começando a perceber e tentando disfarçar girando o copo sobre a mesa, tomei coragem e disse a mim mesma: se é isto que quero, é isto que vou ter.
— Então meu amigo, onde paramos?
— Ah! Pensei que você havia desistido. Arrumando-se na cadeira, olhando diretamente em meus olhos, tomou minhas duas mãos, caminhou com os dedos suaves aos meus antebraços, tocando com indescritível carinho e continuou.
— Você sente vergonha de conjugar o verbo gozar?
Foi direto ao ponto quando começou a dizer que se eu conhecesse todos os tempos, principalmente a primeira pessoa do plural presente indicativo, teria muita chance de ser feliz.
Explicou-me que quando se fala em sexo tântrico, a primeira coisa que vem à cabeça é a inevitável tortura de ficar horas e horas adiando o orgasmo. Não desista. Afinal, isso é só uma pequena parte de uma filosofia muito mais abrangente, que requer uma mudança profunda no modo de vida e no jeito de encarar o sexo. O "Tantra" significa instrumento de expansão. É preciso dar prazer para ter prazer. Para isto é preciso que se saiba explorar todo o corpo do parceiro. O objetivo é atingir a realização pessoal e espiritual. E o sexo entra aí como um ritual sagrado de troca de energia.
Percebi a força da Eva quando ele me disse que o primeiro passo para se iniciar no Tantra é esquecer o relógio. Conheço aquela mulher e sei do quanto é calma e tem autodomínio. Abortar a idéia de querer chegar logo na penetração deveria ser fácil pra ela.
Sérgio não parava de dar a longa receita. Beije, toque o corpo do parceiro, explore as zonas erógenas. Descubra outras. Se não der certo da primeira vez, não se preocupe. Tente novamente. Para os adeptos do Tantra, o sexo nunca chega ao fim.
As mulheres têm que aprender a segurar seus próprios líquidos, conhecidos no Tantra como rajas. Uma técnica simples consiste em pressionar a língua fortemente contra o céu da boca pouco antes do orgasmo.
O tempo de uma relação com sexo tântrico deixa as pessoas "comuns" de queixo caído, já que a média brasileira é de quinze minutos para se atingir o ápice. Para se iniciar na prática do prazer sem limites, não importa a idade nem as condições de saúde.
Surgida na Índia, há 5 mil anos, o Tantra é uma filosofia matriarcal, onde a mulher é considerada uma divindade. Em sânscrito, Tantra significa "o que conduz ao conhecimento". Adeptos à prática dizem ter conseguido até 24 horas de contato sexual ininterrupto. Mas é importante saber do que é necessário para a preparação.
Eu que só ouvia, que de tão concentrada lhe olhava nos olhos e já me sentia à beira de um mergulho complicado, interrompi para sugerir que continuássemos no próximo jantar. Eu queria ir à preparação, mas era preciso dormir. A quinta-feira nos aguardava para os compromissos profissionais. E começavam cedo.
Sérgio, cavalheiro, concordou e me levou até a porta do quarto. Desejou-me boa noite e foi saindo. Olhou para trás e me viu ainda no corredor. Voltou e me deu um beijo. Não resisti e lhe dei um abraço. Senti nossos suores se misturarem no rosto, braços e mãos. Dei-lhe outro beijo na fronte, entrei e fechei a porta.
Liguei outra vez e não encontrei Romildo. O notebook, ainda conectado, continuava denunciando um preocupante offline. Paciência. Aqui não é Curitiba. Nada posso fazer, estou em Brasília. Amanhã será outro dia.
No início da vida em comum Romildo e eu optamos por não ter filhos antes dos primeiros cinco anos. Queríamos aproveitar melhor nosso tempo juntos sem maiores preocupações. Planejamos muitas viagens de férias e as realizamos todas. Apenas uma vez adiamos ida à Fortaleza, atropelados por uma mudança de emprego a que me submeti.
Romildo nunca foi um desses chamados atletas sexuais. Aliás, reproduzia na cama seu caráter comedido, mas que a convivência foi se incumbindo em me deixar claro que se tratava mais de certo comodismo, até uma preguiça, que muitas vezes combati mesmo tendo de exercer relativos cuidados para não ferir.
Próximo ao décimo ano nosso casamento vivia das piores crises. Eu estava às portas do meu trigésimo quarto aniversário. Nunca liguei para o fato de estar mais bem empregada que ele, muito menos por ter que arcar financeiramente com as maiores obrigações. Afinal, sempre entendi, e sabia desde os tempos do namoro, que isto poderia acontecer.
A crise veio exatamente pelo crescente desinteresse sexual do Romildo. Individualmente me considerava no auge da minha vida em todos os sentidos, mas estava ficando carente de realização sexual e marcada pelo enfadonho daquela rotina de insatisfação. Talvez tenha errado diversas vezes no comportamento profissional ao levar para casa certos trabalhos, mas era fato que não me causava arrependimentos. Afinal, antes disto acontecer, o meu marido já tinha adquirido o vício de navegar na internet por horas a fio durante a noite.
Embora nunca houvesse acontecido de fato um assédio da parte de qualquer dos outros executivos da empresa, eu era desejada pelos colegas de trabalho. Mulher atenta conhece bem a previsão do tempo nas praias masculinas. Sérgio, um dos consultores financeiros, bissexual, tinha sido meu companheiro de viagens de negócios por três semestres. Era mais experiente do que eu e não posso negar quanto a ter me aproveitado da nossa proximidade para lhe pedir consultoria bem além dos assuntos do ramo da empresa a quem servíamos.
Certa vez resolvi lhe abrir minhas dificuldades com Romildo. Estávamos em Brasília para uma reunião de três dias com a diretoria da nossa área. Fomos ao Carpe Diem na noite em que chegamos. Meu apetite andava sem limites. Lembrei que não tinha um orgasmo desde antes da última discussão em casa, coisa ocorrida há semanas. Naquele clima eu me perdoava por transferir a ansiedade para o cardápio. Ajudava a minha propensão a não engordar e só me cuidava com a bebida. Vinho me fazia arder de tesão. Bebi sozinha, pois Sérgio era um verdadeiro equilíbrio, não trocava sucos e água nem que fosse por um Ca`Bianca Barbaresco ou um Barolo, os meus preferidos.
Pareceu-me que aquela noite seria meu limite e resolvi tentar mudar o foco. Perguntei-lhe sobre Eva, a quantas andava seu casamento e como estava conseguindo conviver com sua opção. Tínhamos amizade suficiente para questionamentos desta natureza. Ele me confidenciou que andava balançado depois de certa experiência que vinha vivendo por iniciativa da mulher.
— Tonia, você conhece sexo tântrico?
Contou-me em detalhes sobre sua iniciação. Era desses tipos a quem nunca faltam palavras, todas pronunciadas de forma tão natural que pareciam trechos de um script de peça de teatro cujo espetáculo era cartaz há décadas. Mostrava real devoção a todo aquele ritual indiano e conhecia bem as suas fases, o que o fazia parecer um profundo estudioso dos planos mental, espiritual e físico. Já sabia transportar a experiência para outros âmbitos da vida.
Sempre admirei este meu colega por sua incomparável discrição. Quando em alguns trechos da conversa sentia a aproximação do garçom, tratava de improvisar no script mudando para alguma coisa engraçada que tinha muita relação com a terminologia original. Coisas como se referir à satisfação de fazer sexo com a expressão: "o vinho era de um sabor tão magnífico que eu lambia e sugava a borda da taça como se dali esperasse tirar a própria uva". Além de tudo era espirituoso. Eu dava uma contida gargalhada tanto para ajudar na descrição da cena quanto para disfarçar a minha incontida excitação.
E continuava, depois da saída do intruso, dizendo tudo daquele processo capaz de elevar o nível sexual cujo retardamento do orgasmo, ao causar retenção das energias, acaba produzindo inigualável explosão nuclear no momento em que se resolve liberar a carga para provocar a interrupção de horas e horas da prática da união tântrica. Meu consultor era fluente.
Ainda nem havíamos terminado o prato principal e eu já não conseguia controlar meus rajas que desciam vertiginosamente para umedecer a calcinha e me causar uma boba preocupação, imaginando que alguém por ali me olhasse e fosse capaz de decifrar aquele estado. Pedi ao Sérgio que mudássemos um pouco o assunto, escolhêssemos uma sobremesa e que continuássemos, depois, em qualquer lugar no hotel.
Lembrei que havia prometido telefonar ao Romildo, mas tinha esquecido o celular quando troquei a bolsa antes de sair do Kubitschek Plaza. O fato não me abalou porque poderia telefonar quando retornasse e até porque naquela hora ele estaria, como sempre, devorando seus blogues favoritos e derretendo o Messenger com suas gargalhadas solitárias.
Apanhamos um táxi rumo à Asa Norte. Sérgio ia quieto e eu ao lado imaginando o quanto a conversa do restaurante começava a mudar minha vida.
Tínhamos mais duas noites em Brasília. Tudo estava apenas começando. Antes de qualquer coisa eu precisava do celular e de outra ducha antes do segundo ato daquela consultoria e talvez o Sérgio demorasse mais. Fora de casa ele sempre tinha duas ligações a fazer...
É inegável que as novas ferramentas oferecidas pela tecnologia já se tornaram imprescindíveis para a materialização da idéia. Este instrumental dá novas asas à criatividade. O bom gosto como aliado da mensagem a ser transmitida completa de forma exuberante um trabalho publicitário. É o que se vê neste vídeo. Apesar de um tanto pesado, vale a pena esperar o carregamento porque se trata de uma peça com visual fantástico.
Lindsay Lohan. Imagem Grosby Group - divulgada aqui.
Eu não entendo esta atenção da imprensa! Afinal, ela gosta de "não usar calcinhas". É um direito! Quanto a ser em público, e daí? Dizem que "de bêbado não tem dono", portanto, o que não é de ninguém, é público! É o público em público. Nada aborrece. Se não houvesse paparazzi, ou se ela não fosse uma "celebridade", dentro do carro seria dentro de um domicílio, daí então não seria público. Complicado, não é mesmo?
Puta hipocrisia. Ou falta de assunto. Depois, como dizia um sábio, bunda faz bem aos olhos, desde que as meninas dos olhos estejam nas mãos!. E não é o caso...
Falando em mesmice, o "Grande Bosta Tupiniquim Eight" estreou ontem com a segunda menor audiência da história. Belo sinal. Bunda por bunda, com as meninas dos olhos no lugar de sempre, prefiro uma famosa. Bom-Bom! Ai, Adriana! (procurem imagens, vocês acham!)
Acho que o índice de audiência é uma bela resposta do público a um sujeito, diretor de TV, que confessa ser um "atirador de ovos em prostitutas". Contra elas não existe a tal homofobia, ou pelo menos ninguém se dói. Continuo sem entender nada. Principalmente a presença do Pedro Bial, um profissional competente, no comando de tamanha pobreza cultural.
Aqui tem o Sr. Cassiano Santos Cabral assinando um texto em coluna dita "cultural", dizendo ser o BBB uma coisa interessante por "mostrar a vida como ela é". Paciência, a internet também aceita tudo. O problema é o texto ser apresentado com uma conotação psicológica. Bem, acho que a mesmice está com os dias contados. A psicologia já mostra indícios que está colaborando com as mudanças. Pena que é pra pior!
Que tal a gente recomeçar a falar de política? Outra mesmice né? Por isto que a Letícia Coelho vive vomitando.
[um problema brasileiro] LONGEVIDADE: UM NOVO TEMPO
"O tempo é a insônia da eternidade".
[Mário Quintana]
O aumento da longevidade humana é um assunto que merece especial atenção em nosso tempo. Há no Brasil mais de quatro mil pessoas que já atingiram a expressiva marca dos cem anos de vida.
Levado a um cálculo elementar é bem verdade que este número pouco representa em termos percentuais no universo da população brasileira, algo em torno de 0,002%. Mas é preciso lembrar que há duas décadas a média de vida girava em torno dos 60 anos. Hoje esta média já atinge 70. Na década do tri, com 90 milhões em ação, éramos considerados um país de jovens, pois representavam a maioria da população. Este quadro modificado é motivo de preocupações de alguns setores como a Previdência Social.
Levando-se em consideração apenas a média de nascimentos dos últimos 30 anos é fácil perceber que tal título não deixou de existir porque tenhamos sofrido drástica redução por fatores pertinentes ao controle de natalidade, mas sim porque efetivamente vivemos mais.
O desenvolvimento da ciência com importantes descobertas no campo da medicina, a pesquisa e produção de alimentos mais adequados ao homem de hoje e a forte promoção de mecanismos direcionados à melhoria da qualidade de vida, tornou-se um conjunto que alcança certa sobreposição sobre os causais de mortes, como algumas doenças graves e as violências urbanas e do trânsito.
Na verdade, mesmo com tudo isto sendo objeto de consideração, a longevidade ainda continua caracterizada como um fenômeno não totalmente importante. Talvez porque nos faltem elementos ou vontade para análise de grande questão, ou seja, estará a sociedade preparada para cuidar dos mais idosos?
Por questão lógica esta responsabilidade caberia aos mais jovens. Todavia, o estilo de vida e as resultantes do comportamento não permitem acreditar que herdarão o encargo com plena capacidade de bem administrá-lo.
As gerações mais remotas eram influenciadas por certa cultura que continha um pensamento de não aceitar outro lugar para o idoso que não fosse sua própria casa, paradoxalmente vivendo um estado de solidão entre tantos familiares. Entretanto é preciso refletir sobre as diferenças vertidas pelo tempo, as evoluções nos campos da atividade intelectual, profissional e principalmente da nova dinâmica social.
É nesta última que reside a maior dúvida quanto a estarmos preparados emocionalmente e com a certeza de quais estruturas sejam melhores e necessárias aos cuidados com nossos idosos, no objetivo de lhes proporcionar a dignidade que se espera tenham nos derradeiros anos da vida.
É preciso considerar o grande problema da carência, gerado por necessidades especiais em nosso contexto social. De forma clara me parece haver mais conforto ao idoso convivendo fora e se relacionando com outros idosos do que exclusivamente dentro de sua própria família, onde em alguns casos funciona como um peso.
O fenômeno desperta dia-a-dia o mercado. Pesquisas já se encarregaram de eleger certos segmentos atrativos para a velhice e um deles é o turismo. Também se registra a existência de um número significativo de pessoas na faixa dos 60 anos que, embora aposentadas, fazem questão de continuar trabalhando, fator que abre novas perspectivas quanto à leitura deste perfil específico e seu melhor aproveitamento.
Parece necessário, porém, projetar soluções ao atendimento prioritário que se chama acolhimento. Teremos um dia instituições bem estruturadas para este fim? Um idoso é mais feliz quando se relaciona com pessoas iguais, principalmente na prática de atividades em grupos. A pior solidão não é aquela que se vive numa ilha deserta, mas sim aquela que nos atinge em meio a uma multidão que não nos reconhece mais.
A levar em conta alguns episódios protagonizados pelos últimos governos ao formular exigências estúpidas contra a velhice, pouco é de se esperar do poder público. Nada mais relevante é de se aguardar a não ser apenas a preocupação com o recolhimento previdenciário que arca com o regular benefício financeiro em maior tempo. Justa seria uma política de dotação de recursos às construções e melhoramentos de instituições especializadas em qualidade de vida para idosos. Isto desmistificaria a idéia cultural de asilo como sendo um paradigma que o resume a lugar de doentes e abandonados. Asilo deveria ser um centro de assistência, de lazer e outros meios para a continuidade da vida em regime feliz.
Acredito mais na disposição da iniciativa privada e da própria população como um vetor voluntário que seja capaz de se arrolar neste tipo de trabalho.
Vivemos na contramão em todos os sentidos. Para que o recurso previdenciário se preserve em crescimento é preciso que se incentive a contribuição ativa pela via do vínculo trabalhista. Mas, no lugar disto, o emprego formal dá lugar ao informal. As empresas assim preferem em reação ao peso da carga tributária. Se já não temos tantos jovens, seria justa uma preocupação com os contingentes limites. De um lado para que a futura juventude tivesse todas as oportunidades e de outro para que os longevos não se tornassem empecilhos na visão de muitos.
O problema é que ainda nem começamos a lembrar das nossas crianças.
Em nosso continente os registros apontam apenas ações isoladas da Argentina e Cuba voltadas à velhice na década de 90. No país de Fidel foram ações mais direcionadas à saúde, mas que hoje já não existem com o nível de importância que merecem. No Brasil, os governos centralizam suas medidas no âmbito da arrecadação que visa deixar o erário no mínimo do tamanho da ganância do poder, a fim de garantir sua ostentação. O resto que se resolva por si mesmo, inclusive o que decorre das mudanças sociais e suas novas exigências.
Cheguei para aguardar o momento do Ano Novo. Na sala o casal de ex-cunhados vindos de Florianópolis e Gabriela — a minha filha —, já com cara de ouvidos cansados. Ouviam música. O programa era um show sertanejo de qualidade pra lá de duvidosa.
É preciso esclarecer que minha intolerância por este estilo não está na sucessão rítmica. Está exatamente na penúria das letras que se lê na maioria das composições. Além da repetição temática, que dá dor de cabeça e soa muito a falta de criatividade. Desculpem, é como sinto.
Depois que voltei da cozinha, para onde fui atraído pela diversidade de aromas, entre o DVD e o PC preferi o segundo e fui bisbilhotar meu Haloscan. Na passagem percebi que havia um Caio Mesquita sobre a mesa de centro. Provoquei o casal dizendo que aquilo sim era música e que poderíamos aproveitar para ouvir o menino prodígio. Não obtive êxito.
Meia hora depois o ex-cunhado me chamou. O garoto já estava lá na tela. Juntei-me ao sorriso de alívio da minha filha e notei a ausência da Dercy que, aborrecida, saíra do recinto resmungando não gostar de "música onde ninguém canta".
Lembrei da Gilda Mattoso, em Assessora de Encrenca, Ediouro, Rio de Janeiro, 2006. Neste livro a mulher de Vinícius de Moraes conta que levou a filha Marina, de oito anos, para ver Wagner Tiso reger um concerto. O programa era um tributo a George Gershwin pelo centenário, em 1998, do grande compositor norte-americano.
Levou-a porque já havia se afeiçoado à música dos seus artistas preferidos e por achar que seria boa oportunidade para iniciar a garota à música erudita.
Quando começaram a entrar os músicos Gilda ia explicando tudo à filha. Entre fagotes, violas e celos e descrições sobre o primeiro violino e o spalla, Marina repetia a mesma pergunta:
— Quem vai cantar?
Nisto entrou o maestro.
— Olha o tio Wagner.
Quando Tiso tomou a batuta e abriu os braços, o silêncio foi quebrado por Marina que, com voz impaciente, questionou:
— Tio Wagner vai cantar?
Com risos em volta e certa perda de concentração do próprio maestro, Gilda disse ao pé-de-ouvido que ela não falasse ou falasse baixinho. A menina então sussurou:
— Show sem cantor eu não gosto.
Nem mesmo a explicação que "a boa música prescinde do canto" e a recomendação que ouvisse com os olhos fechados e pensamento em boas coisas aplacou a impaciência de Marina.
Dali não muito tempo a menina insistiu que não dava, que havia pensado na melhor coisa e que não adiantava. Gilda então lhe perguntou no que havia pensado.
— Será que quando a gente sair daqui tem uma banca aberta pra comprarmos figurinhas? Eu não paro de pensar no meu álbum da Copa!
— Sim filha, vai sim. Vai, porque nós vamos embora agora mesmo!
Infelizmente, no nosso caso, quem teve que ir folhear o álbum de figurinhas foi a Dercy. Como já é bem adulta ninguém precisou levá-la pra ver se havia alguma banca aberta naquela hora, já faltando pouco para a entrada do ano novo.
Nós, que ficamos na sala, deliciamo-nos com Mesquita tocando MPB da melhor qualidade. A certa altura, nem mesmo a presença especial de Ivan Lins no show, cantando Vitoriosa e Madalena, fez a "nossa Marina crescida" largar do seu álbum fictício. Certamente faltavam-lhe algumas figurinhas carimbadas, como Teodoro e Sampaio, Sérgio Reis, Bruno e Marrone...