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Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
[oab notícias]
Ventos justiceiros
 Agradecimentos a Roque Sponholz por ter atendido meu pedido e produzido esta charge, especialmente para ilustrar o presente texto.
Os juízes da 4ª. Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª. Região - São Paulo - julgaram em dezembro de 2007 uma reclamação trabalhista, no mínimo, inusitada: demissão por justa causa, ilustrada pela contumaz produção de flatulência da empregada no ambiente corporativo.
Cientificamente o voto do Juiz Ricardo Artur Costa e Trigueiros (relator) foi embasado por artigo do médico Dráuzio Varella.
Nele o doutor discorre que a flatulência não é uma doença. "Expelir gases é algo absolutamente natural e, ainda por cima, ocorre mais vezes em pessoas que adotam dietas mais saudáveis. Desse modo a flatulência pode estar associada à reação de organismos sadios, sendo sinal de saúde", foi argumento usado pelo juiz.
Também viajou no âmbito da literatura. Trigueiros lembrou "O Xangô de Baker Street", do Jô Soares, onde consta a revelação de comprometedora flatulência de Dom Pedro II, que é assumida incontinenti por uma espécie de "aspone", o personagem Rodrigo Modesto Tavares. Ao considerar ato de heroísmo do súdito, o imperador presenteou-lhe com o título de Visconde de Ibitaçu. Nada mais a caráter, pois Ibituaçu significa Vento Grande, em tupi-guarani.
O recurso de citar a passagem do livro tinha como objetivo mostrar que os gases nem sempre são tolerados pelas convenções sociais.
Demonstrando ter estudado o assunto, o juiz Trigueiros explicou que “a flatulência constitui uma reação orgânica natural à ingestão de ar e de determinados alimentos com alto teor de fermentação, os quais, combinados com elementos diversos, presentes no corpo humano, resultam em gases que se acumulam no tubo digestivo e necessitam ser expelidos, via oral ou anal, respectivamente sob a forma de eructação (arroto) e flatos (ventosidade, pum)”.
Mesmo tolerante, não poupou ressalva afirmando que em algumas hipóteses, flatos barulhentos e intencionais podem ensejar uma justa causa. “Sua propulsão só pode ser debitada aos responsáveis quando comprovadamente provocada, ultrapassando assim o limite do razoável. A imposição deliberada aos circunstantes, dos ardores da flora intestinal, pode configurar, no limite, incontinência de conduta, passível de punição pelo empregador”, ensina o juiz.
Trigueiros também foi zeloso. Advertiu para o caráter irrelevante da questão ao comentar, no preâmbulo do voto, que não cabe à Justiça se ocupar do que chamou de "miuçalhas" (de minimis non curat pretor). Porém, justificou o empenho na causa dizendo que, nas relações trabalhistas, podem se criar precedentes perigosos a partir das arbitrariedades, mesmo quando são consideradas pequenas.
Fiquei imaginando o que podem exalar grandes arbitrariedades quando, a partir deste exemplo, todos são levados a concluir que as pequenas podem estar ligadas a cheiro tão ruim.
No bojo do voto do relator foi também possível saber que a flatulência não era o único problema nas relações da funcionária com a empresa. Ela foi acusada de conversar assuntos imorais com uma colega. “A prova oral colhida demonstrou que a reclamante conversava sobre problemas pessoais da colega com a filha e o namorado desta, estando a autora a aconselhá-la”, escreveu o juiz.
A ação foi concluída exarando uma sentença condenatória à empresa por danos morais. A empregada receberá R$ 10 mil.
Sou sempre levado a pensar no custo das coisas. Neste caso, não quanto ao tempo gasto pela justiça, pois as ações trabalhistas normalmente visam resgatar direitos, na maioria, dos trabalhadores. Ao lembrar que o aspecto de zelo citado na conduta do juiz tem sua razão absoluta de ser, por lógica configurou-se advertência.
Tirando da pauta a última questão, já que a tese foi derrubada pelas declarações de prestimosas testemunhas, intriga-me o fato de não poder calcular com o único dado matemático conhecido (o da sentença), o preço decomposto que essa empresa terá de pagar pelos gases. Para tanto seria preciso conhecer outras incógnitas, como tempo de serviço, duração da jornada de trabalho e freqüência das emanações. Seria sair do sério.
Mas, voltando ao sério: "Habemus a jurisprudência do pum".
Fonte: OAB - Foz do Iguaçu
Gostei deste termo "emanações". Em tudo pode haver poesia: "Todo eflúvio brando e ardente / No tenro peito resumes: / Sopre o vento levemente / E corram os teus perfumes." [José Albano, Rimas, p. 57.]. "Eflúvio" é sinônimo de emanação.
Por Ery Roberto Corrêa |
9:03 AM - Link deste post
Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
[destempero]
Vítimas das próprias farpas
Se Lula, por seu caráter ignóbil, segundo o pensamento de FHC, costuma "cuspir no próprio prato que come", na circunstância da situação, mesmo tucanos "simpáticos" podem se comportar como petralhas quando contrariados, para usar uma expressão de Gedimar Passos.
Há que se considerar que a bravataria que nasce como chuchu na serra no "discurço" do grande-chefe é típica de um ente visivelmente despreparado, principalmente quando há a expectativa maior da nobreza de pensamento que deveria estar no padrão elevado de sabedoria e consistência de argumentação do verdadeiro Chefe de Estado. É de conhecimento público, inclusive do próprio FHC, que tais capacidades não se podem exigir do senhor Luiz Inácio.
O que surpreende, no entanto, é que apesar da reconhecida superioridade de formação intelectual, ao responder na imprensa da forma como fez, FHC se igualou ao seu algoz de farpas verbais, na mais evidente prova que a formação, no seu caso, não serve de rédeas ao destempero. Iguala-se e desqualifica, ao menos no comportamento, o propalado sangue azul político e o elitismo intelectual de que se orgulha.
Depois, o comentário feito por Lula que os ex-presidentes eram pés-frios só denota primaridade, falta de seriedade e se resume a mais uma propaganda vazia. É sabido que ele não "resolveu" sozinho os problemas econômicos. As fundações da tranqüilidade econômica, que se propaga hoje aos quatro ventos, foram trabalhadas pelo seu antecessor na implantação da política econômica gestora do real. A avaliar pela realidade das coisas, mantê-la e dela herdar os frutos sem nenhuma contestação ou mudança e ainda se orgulhar, é a maior evidência do reconhecimento que seu governo é a continuação. Tanto do bom, quanto do ruim. Nesta seara do ruim, que se ouçam os escândalos dos cartões e tantos outros, afinal, FHC não sai da cabeça de Lula.
A verdade é que não se faz mais presidentes como eles deveriam ser. De um lado um "ex-nunca-foi-trabalhador" que arrota e cospe segundo o outro que "fala-em-hora-errada", quando deveria, pelo sustentado da sua estirpe julgada superior, saber, há muito tempo, algo que certamente suas escolas ensinaram e cuja memória lhe trai: não é de bom alvitre um ex-presidente se exaltar em fórum indevido, ante às picuínhas da provocação de um presidente em exercício. Vivessem hoje, ambos, como figuras de um parlamento respeitável, estariam enquadrados, igualmente, por falta de decôro.
Isto é ruim para o país. Possível projetar a testemperança que ainda é latente e por certo, ante o envolvimento deste e do governo anterior, haverá de desabrochar com a exumação dos cadáveres envoltos na mortalha dos cartões corporativos. Os senhores da CPI mista que trabalhem com protetores no nariz.
Ainda teve mais uma pérola durante o programa semanal de rádio Café com o Presidente. Lula afirmou que "precisou uma ajudazinha de Deus para que as coisas pudessem dar certo". "Eu não conheço quem vença na vida se não tiver sorte; e eu espero que o nosso governo continue com sorte e muita sorte".
FHC é ateu e azarado. Lula nunca gostou de trabalhar e é perdulário.
Experimente você também: esqueça o trampo, gaste por conta e fique esperando a sorte chegar. De vez em quando, entre o gole e a tragada, dê uma rezadinha...
Enquanto isto, a indústria cosmética pirou. Se pintar uma versão brasileira não faltará um bom nome alternativo.
Por Ery Roberto Corrêa |
6:56 PM - Link deste post
Terça-feira, Fevereiro 26, 2008
[arte digital]
PhotoShop User Awards
Scott Kelby é um guru do Adobe Photoshop. Juntamente com a Associação de Profissionais do Photoshop, promove o concurso “Photoshop User Awards”, onde os trabalhos são divididos em diversas categorias.
As imagens selecionadas são verdadeiras obras de arte. Desta última edição destaca-se o trabalho acima reproduzido, cujo autor foi contemplado com uma viagem para Maui, nas Ilhas do Havai, com a incumbência de criar uma imagem para a capa do próximo número da revista “Photoshop Users”.
Impressiona neste trabalho o nível de criatividade de Gregory Carter. Há os detalhes magníficos de textura, no gramado, luzes e sombras, rachaduras no asfalto, contrastes de cores, expressividade conferida ao céu com nuvens carregadas e o mais importante: a tridimensionalidade no resultado final.
Esta composição só confirma a infinita capacidade deste software, cada vez mais usado por quem aprecia esta arte fantástica.
Os últimos ganhadores podem ser conferidos no site oficial do concurso.
Ontem, motivado por essa visão "photoshopiana", fiz um exercício (pra matar a vontade), usando o meu preferido - Fireworks 8. Relevem o amadorismo, por favor. Com este software também se chega a bons resultados. É possível trabalhar a iluminação da cena, recortar com razoável precisão, aplicar inúmeros efeitos e incluir detalhes. Não foi nada difícil alterar a aparência da calçada, plantar um jardim no meio da rua, povoar o ambiente e mudar a religião da pequena Morretes (70 km de Curitiba). Ainda acho que a natureza é mais poderosa do que a Igreja.
Bebida minha cachaça, resta-me desejar uma ótima terça.
Por Ery Roberto Corrêa |
12:26 PM - Link deste post
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
[fotografia]
EDDIE ADAMS - "Saigon Execution"
"O general matou um Vietcong com a pistola. Eu matei o general com minha câmera fotográfica. A fotografia é a arma mais poderosa do mundo. As pessoas acreditam, mas as fotos mentem, inclusive sem ser manipuladas. São meias verdades somente".
Está claro que esta imagem terrível é um dos ícones da Guerra do Vietnã (1959-1975), merecedora do "Pulitzer" em 1969. Faz pouco mais de 40 anos que foi tomada por Eddie Adams, fotógrafo americano da AP, em 1 de fevereiro de 1968.
O homem que tem a pistola na mão é o general Nguyen Ngoc Loan, da polícia sulvietnamita. O que tem a arma apontada para si é um prisioneiro Vietcong, recém capturado pelo general, a ponto de ser executado.
Tudo aconteceu durante o segundo dia após o que entrou para a História como Ofensiva do Tet. O vietcong acabava de matar 34 pessoas, em sua maioria agentes da polícia nacional e seus familiares.
Esta imagem se converteu em ícone porque representava tudo que existia de pior no Vietnã. O exército americano não era capaz de controlar seus aliados do Vietnã do Sul, tão sanguinários como seu inimigo, Vietnã do Norte. Uma completa situação política contida em uma foto. Em duas pessoas, um executor e uma vítima.
Movimentos pacifistas tomaram a imagem como representação da brutalidade de uma guerra sem sentido, como arma contra o governo. Dizem que esta e muitas imagens similares que chegavam do Vietnã fizeram com que Lyndon Johnson não permanecesse duas legislaturas no poder.
O que, porém, não é totalmente conhecido sobre esta foto é a história que existe por trás dela. Era o que fazia Adams não ficar de acordo com a interpretação óbvia da sua fotografia e isto lhe tornou vítima da fama da sua obra mais conhecida pelo resto da sua vida.
Adams dizia: "O general matou um Vietcong com a pistola. Eu matei o general com minha câmera fotográfica. A fotografia é a arma mais poderosa do mundo. As pessoas acreditam, mas as fotos mentem, inclusive sem ser manipuladas. São meias verdades somente". O que a fotografia não perguntava era "O quê você faria se tivesse sido o general naquele momento e de saber ter sido você quem capturou o suposto mau elemento depois que houvera feito voar pelos ares um, dois ou três soldados americanos?"
Atrás da difusão da foto a AP mandou que Adams acompanhasse o general Loan, o que lhe fez mudar de opinião sobre ele.
Este tipo era um herói.
Combatia na guerra, por seu povo. Havia ajudado a construir um hospital em Saigon. Acabava de assistir ao massacre de vários companheiros. Durante o restante da sua vida, Adams pediu perdão ao general Loan e sua família pelos danos causados. Loan acabou se mudando para os Estados Unidos, mas sempre foi vítima daquela imagem e não teve êxito nos negócios que empreendeu, pois sempre era relacionado com o fatídico momento.
Quando o general morreu, em 1998, Adams enviou flores à sua família e escreveu uma nota: "Peço desculpas, meus olhos estão cheios de lágrimas".
Adams morreu em 2004.
[Tradução do texto original de David Cabezon, publicado em Xataca Foto - Fotografia Digital.]
Por Ery Roberto Corrêa |
7:38 PM - Link deste post
Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008
[mal traçadas linhas]
TEU CORPO
Por vezes é preciso esquecer o terreno pantanoso da política ou a aridez de outras convivências cotidianas e buscar terra firme com ar puro em nova paisagem. Onde preferencialmente seja possível plantar jardins de sentimentos que fazem florescer a poesia, mesmo sem rima, sem métrica, mal traçadas linhas de certa prosa concebida no desejo.
O texto que segue, já publicado em meu blog anterior, considero pétala de uma dessas flores que o milagre da inspiração faz nascer em climas amenos.
"Este meu ato de reverência ao admirar teu corpo é um silencioso desejo de adentrar em teu átrio. Se disserem que profano o templo te amando, é porque desconhecem os milagres que provêm do entrelaço na solenidade do teu abraço e no suor-batismo da tua pele, na plenitude do acolhimento. É natural a idéia de devoção quando em teu seio me recebes feito pecador em confissão. E se me conservo único fiel à doutrina do teu encanto, é porque cumpres o rito-jura de não converteres mais ninguém. Meu cântico é teu prazer e a pregação dos nossos sonhos não tem cópias distribuídas. Se eu pecar por outras obras, já não serás mais tu a me absolveres..."
Por Ery Roberto Corrêa |
11:04 AM - Link deste post
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
[criatividade]
OS ALOPRADOS
O tema é manjado, mas o texto adaptado ficou interessante. Usando imagens do filme alemão "A Queda", sobre os últimos dias de Hitler no bunker em Berlim, o autor deste vídeo (infelizmente não identifiquei) aproveita a seqüência para ironizar o episódio do escândalo dos Cartões Corporativos no Planalto. A critividade ainda consegue se sobrepor aos desenganos e sofrimentos.
Por Ery Roberto Corrêa |
1:47 PM - Link deste post
Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
[revolução cubana]
TODA GLÓRIA CABE NUM GRÃO DE MILHO
 Imagem: Portal UOL - Especial Cuba | "Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: Como é possível que Cuba em trinta anos tenha feito o que a América-Latina não fez em 200 anos?"
"Eu digo que se alguém não faz, o tempo todo, tudo aquilo que pode e até mais do que pode, é exactamente como se não fizesse absolutamente nada."
"Jesus foi o primeiro comunista. Repartiu o pão e transformou a água em vinho." |
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Por Ery Roberto Corrêa |
10:37 PM - Link deste post
Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
[semântica]
ORDEM E PROGRESSO SEM AMOR?
Qual expressão seria capaz de representar hoje os maiores anseios da nossa população?
Entender a sentença ostentada em nossa bandeira e perceber com exatidão o quanto o enlace das suas palavras foram frutos do autoritarismo, passividade e até de esmolas, exige recorrer ao conhecimento histórico das fases políticas do Brasil.
Este exercício foi ilustrado pelo admirável Prof. Cristovam Buarque, docente da UnB e Senador da República (PDT/DF), em artigo publicado este mês na Revista Língua Portuguesa, Editora Segmento – São Paulo.
O "lindo pendão da esperança" já estava concebido pelos líderes republicanos antes mesmo da queda da monarquia — fato que por si só explica o autoritarismo daquele período e que, feito sangue a correr pelas veias, continuou dando vida ao espírito político até aos nossos dias, independente da alcunha democrática do nosso regime.
Se era para seguir o pensamento de Augusto Conte, para o qual cada sociedade deveria ter por divisa "o amor por princípio, a ordem por base e o progresso como objetivo", a supressão do maior sentimento é um gesto injustificável na filosofia positivista. Pela sua extensão de valor que também se materializa através de outros sentimentos, renegar o amor é construir a cortina que visa esconder torpes intenções. Nessa esteira traz a necessária explicação para muitas das nossas mazelas.
Importaram um emblema para a República, ignoraram nossos poetas e assim riscaram a palavra soberania. A nova república, esquecendo a realidade do analfabetismo, descartou a solidariedade, primando por manter os filhos da pátria sem acesso à educação que permitiria aos analfabetos lerem a bandeira. A despreocupação com projetos de reforma agrária, mesmo com 90% da população instalada na área rural, sem escola nem terra, feriu os princípios de liberdade representando a falta de interesse em completar a Abolição da Escravatura. Ao derrubar a monarquia também derrubaram a Lei Áurea.
Ao preservar no país a estrutura de castas que separa pobres de ricos, negros de brancos, incluídos de excluídos, a república desprezou a igualdade. Como resultado deste grave erro passou a tratar os afortunados com prestígio, concedendo-lhes as benesses decorrentes do "status" pelas vias das negociatas, isolando a pobreza nos guetos. Ó Têmis, deusa da justiça!
Sem querer a justiça nossa cúpula deu um pontapé na ética. Não por acaso, os escândalos da corrupção se perpetuaram até os nossos dias, não poupando nem alguns soldados do exército estrelado que foi tão combatente contra a improbidade, a falta de decoro e as farras custeadas com o erário público. O discurso passou a não ser identidade. A nossa democracia, bem olhada, sempre pareceu aquele caldo espesso de água e barro de purgar, usado sobre a tampa da panela em que se fabrica o açúcar. Um engodo. Quem conhece o poema "Na festa da casa-grande", de João Cabral de Melo Neto, que trata justamente da figura do cassaco de engenho, conclui que "onde não há perspectiva, a voz assume o papel de doador de sentido".
Em pleno regime não foi preciso muito tempo para um dito Marechal de Ferro inaugurar a primeira sucessão fora do prazo. Embora legais, os governos foram de aristocráticos, latifundiários e de juristas que se arrepiavam com o cheiro de povo. Mais tarde ditaduras civis e o cancro da ditadura militar com suas intermináveis seqüelas. As cicatrizes deste período estão visíveis até hoje e por paradoxo há quem goste de exibi-las, como se fossem tatuagens da moda.
A vida pregressa da república se fez em total desrespeito à natureza tomada dos índios. Queimou a mata para plantar espigões de concreto e cimento armado. Mesmo contra a ordem natural era preciso perseguir o progresso.
Riscando palavras do compêndio vivo da nossa língua ao formatar o lema da bandeira, a república sentenciou o desuso de todo conjunto de signos delas decorrentes e que poderiam ter mudado a nossa história através da educação. Ficou inconcebível lutar contra a criminalidade e tudo que resulta das injustiças sociais, para que se estabeleça a ordem e se alcance o verdadeiro progresso pelas vias do respeito e da humanidade. O desamor tem profunda relação com a ignorância. O ato de submeter o povo aos castigos da manipulação política para que se consagrem os objetivos que só interessam à elite, conservando-o tolhido do sagrado direito à educação, é a maior tirania de qualquer regime que seja.
Nossa divisa sempre foi incompleta e doente. Nunca foi um preceito, já que este determina um ensinamento. Embora tudo, lida sob a ótica do poder, quando ordem significa simples obediência, submissão ou jugo, é certo que o progresso dos mandantes mal intencionados está garantido.
Esta minha interpretação do pensamento de Cristovam Buarque é provida de significativa dualidade: de um lado me proporciona alegria imensurável. Sinto orgulho de ser brasileiro tendo um compatriota da sua estirpe, com singular inteligência e declarado compromisso com as soluções dos problemas do Brasil pela prioridade da Educação; de outro, me causa uma tristeza infinita ao lembrar que nosso povo perdeu a grande oportunidade de começar sua redenção, preterindo-o em benefício da permanência de grupo político sem o preparo suficiente para gerir o país.
Continuamos sem escolas de verdade, mas o povo tem pão de graça, a água ainda não acabou e o circo tem função todo dia. A nobreza se resolve com o crédito dos cartões, como se fosse a justa troca pelo "cala-boca" dos programas sociais. Quem não quiser se alinhar o governo compra com dinheiro ou distribuição de cargos. E quando o delito é grave basta alegar nada saber.
É preciso lembrar que em semântica "nada saber" é uma perfeita expressão para que se conclua o diagnóstico da "grave carência", em cujo tratamento a fórmula medicamentosa da educação continua sendo o principal remédio.
Por Ery Roberto Corrêa |
1:40 PM - Link deste post
Sábado, Fevereiro 09, 2008
[leminskianas]
RECONSTRUÇÃO
Especialmente dedicado à Bailarina, uma amiga que me ajuda a "pensar ampliado" com seus belíssimos textos.
Paulo Leminski foi um artesão. Fabricou momentos de poesia a partir de uma elaboradíssima reciclagem de sentidos.
Quem tem a rara oportunidade de mergulhar no contexto da sua obra não só aprende a reconhecer e admirar os recursos que utilizava com invejável domínio, como também passa a respirar diferente como forma de lhe entender com mais clareza.
A expressão "Unidos venceremos", utilizada para derivar o título do livro Distraídos venceremos, é exemplo clássico de uma refinada técnica que não envolve apenas a "reconstrução do anexim", mas insere aprofundada interpretação do convencional.
Este "desmonte-remonte" do dito é provido de um anseio de ampliação de possibilidades. Partiu do conteúdo convergente de "unidos venceremos", reconhecida como locução solidificada e como formação etimológica que transporta para unificação. Ao escolher o verbo distrair, que foi trazido do latim "distrahere" e significa 'puxar para diversas partes', Leminski começou a desmontar a idéia de convergência. Com este update vocabular liberou a expressão de eventual cárcere etimológico.
O alvará de soltura deu ao "possível prisioneiro" um novo e ampliado nível de concepção. São conotações decorrentes e até desencontradas de distraídos: alheios, desatentos, descuidados, divertidos, abstraídos, desviados, desencaminhados, inadvertidos, extraviados, esquecidos, entre outras. Considerado este conjunto seria óbvio questionar: será possível vencermos com tais qualificações?
A resposta do poeta seria afirmativa. A poesia só tem sentido quando nos atinge de múltiplas formas, pois ela não existe para apontar o norte, estabelecer a regra. Viesse para isto seria lei. O entusiasmo criador não é ditatorial, sistemático, professoral, mas agente multiplicador de possibilidades. Isto se torna especial quando aplicamos um olhar filosófico no âmbito da lógica, pois neste o possível não implica em contradição.
Na reconstrução do anexim, Leminski completou seus anseios poéticos optando pela pluralidade em "venceremos" como forma de justificar seu pensamento. "... poeta não é só quem faz poesia. É também quem tem sensibilidade para entender e curtir poesia. Mesmo que nunca tenha arriscado um verso. Quem não tem senso de humor, nunca vai entender a piada".
No título, convenhamos, uma peça inestimável de transformação lingüística, se contém uma agradável convocação aos poetas transmissores e receptores: "divirtam-se na maior discórdia e de tudo absorvam o melhor".
Estão em "Distraídos venceremos" versos como:
Por mais prosas que eu perverta,
não permita Deus que eu perca
meu jeito de versejar.
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Nunca houve isso,
uma página em branco.
No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.
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Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército
para conquistar um império extinto.
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problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas
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Esta pequena leitura do ofício de Leminski enseja-me a lembrança do seu pensamento sobre o Amor: "É tudo o que é a poesia e a vida: incertezas, mudanças constantes, desencontros, relacionamentos instáveis".
[UPDATE | 13.02.08 - 21:39] - Direto dos Comentários:
Ery,
esse seu post me emocionou muito, por várias razões.
Extremamente bem escrito, em um primeiro momento ele me levou de volta ao Leminski, autor inesquecível.
Como vários já afirmaram aqui, o alcance literário e filosófico de sua obra ainda não foi - nem é - reconhecido, mas nós, leitores fiéis, não podemos nem devemos perder a esperança.
Em um segundo momento, Alice Ruiz. Um lembra o outro, é inevitável, os dois nos fazem bem ao coração e a alm. Pena que a nós só restem as releituras inconformadas do inconformado universo que eles retrataram.
Em um terceiro momento, sabe quem você me trouxe de volta? Caio Fernando Abreu, que adorava os dois, principalmente Alice, e que foi, também, um escritor de incrível talento.
Fomos amigos, de verdade. Tenho uma carta -linda - dele, escrita em seus últimos dias de Porto Alegre, antes de vir para o Hospital Emílio Ribas. Ele morava com os pais, sabia do fim, cuidava do jardim da casa, no bairro Menino Deus. De lá, disse:
"Escrevo muito, levo uma vida de monge, com horários para acordar, almoçar, dormir. Tem que ser. Escolhi a vida. E não sinto falta de nenhuma mundanidade. De certa forma, é como se vivesse no campo. Tem até pátio, onde fiz canteiro de ervas e plantei um pé de araçá. (estou atrás de muda de pitangueira, que adoro).Virei um pouco pai & mãe do pai e da mãe, às vezes é cansativo, mas também é bonito. Estamos muito amigos e em harmonia, os três, lutando pela vida entre isquemias, colesteróis, vírus, pressão alta. Oh Deus. Manter-me vilvo é uma conquista diária, e isso eu não sabia. Duro aprender. E fundamental".
Pra terminar, Ery, preciso lhe dizer que enviei ao meu amigo a muda de pitangueira, que chegou tarde.
Beijo comovido.
Vivina de Assis Viana | 02.13.08 - 4:44 pm |
Se Vivina tivesse blog eu faria como Milton Ribeiro. Como ela não tem (não é por falta de incentivo), tive que postar este update. A explicação está na minha resposta ao comentário no sistema Haloscan, abaixo.
Por Ery Roberto Corrêa |
4:03 PM - Link deste post
Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008
[poetas vivos]
BÁLSAMO
Um belo clamor poético da paranaense Roseli Busmair, autodidata que escreve poemas desde menina. Belos versos que bem se adaptam aos sentimentos coletivos, principalmente aqueles que envolvem verdade e transparência.
Nada melhor do que a poesia para certas dores, mesmo que se tenha a certeza que a cura de alguns males somente existe com cirurgias.
[Manipulação gráfica sobre imagem de Ricardo Tavares] | Não ao Não!
Não à própria prisão!
Aspiro a liberdade
ao libertar a emoção
sufocada em mim...
Não à solidão!
Aspiro a serenidade
ao andar de pé no chão
desleixada, enfim...
Não calar o coração!
Aspiro com ansiedade
divulgar toda a expressão,
escrita assim...
Não a não sensação!
Aspiro a sonoridade
de vozes numa canção
composta por mim...
Não a tudo que é não!
Aspiro a felicidade
calada em meu coração
a clamar pelo sim...
[saiba mais sobre Roseli Busmair e leia outros poemas no Sociedade dos Poetas Vivos. Este também foi publicado ontem no Blog do Noblat.] |
Por Ery Roberto Corrêa |
12:36 PM - Link deste post
Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008
[cinzas]
NOSSA REALIDADE BEM CARNAVALESCA
 O carnaval virou uma mesmice. Lá no Nordeste, em Salvador e Recife, a febre dos trios elétricos puxando uma multidão que se acotovela pelas ruas pulando quase uma semana sem parar. A impressão que fica é que todas as estatísticas são mentirosas: o povo é feliz e nada lhe falta, seja emprego, dinheiro, casa, comida, educação, saúde e futuro. A miséria é só uma questão semântica utilizada por espertos para preenchimento dos seus discursos.
No Rio de Janeiro, o tradicional desfile das Escolas de Samba na Sapucaí se tornou um "espetáculo" tão previsível, a ponto da mesmice não perdoar nem o resultado: antes de começar já se sabe quem vai ganhar.
Grudo na TV durante as duas noites deste desfile porque gosto daquele espetáculo, mas nos últimos anos a decepção tem sido tão progressiva que chego a sentir considerável involução da minha insônia.
Alguns carnavalescos inventaram o tal "desfile técnico". Nele, é proibido criar. Começa por um enredo convencional, passa pelo tradicionalismo de alas e alegorias e termina na certeza da nota máxima da maioria dos jurados.
É comparável a certo fenômeno que se vê no futebol: um time escalado com meia dúzia de defensores, três volantes e um Romário brigando com a "banheira" lá na frente. Bem Parreira. O importante é não perder, não interessa dar espetáculo, se não sair nenhum gol e for decisão, decide-se nos pênaltis.
Os jurados de carnaval são iguais a juízes e bandeirinhas. Quando alguém executa um passe primoroso construindo uma jogada de estilo, uma pintura, colocando o companheiro legalmente em ponto estratégico para enganar o goleiro com uma "letrada" ou um drible magistral, anulam tudo alegando impedimento inexistente para total frustração de quem foi torcer pelo espetáculo.
Parecido também com a política, onde mentir para dar sempre as mesmas desculpas é certeza de não perder o corporativo cartão, alcançar perdão e depois outro mandato.
No Sambódromo algumas agremiações desenvolveram movimentos inéditos para alas e alegorias específicas. Criaram, com primor, a coreografia humana. O recurso, quando bem ensaiado, devidamente adaptado ao tema da escola e auxiliado por elementos materiais que resultem em efeitos extraordinários, para os senhores jurados representa o oitavo pecado capital. Não há perdão nem mesmo quando a toda esta dinâmica é acrescentado um samba-enredo com refrão forte, que levanta o público e faz a interação se transformar no momento mágico do espetáculo.
Tenho saudade da ousadia de enredos políticos, questionadores, intrigantes, como já fizeram poucas escolas na década de 80 (se é que a memória ainda não falha). Neste ano foi proibida uma alegoria da Viradouro. Ela levaria à Avenida um carro com a figura de Hitler postado sobre o produto da sua loucura de extermínio humano, para fechar o impacto do tema "É de Arrepiar". O carnavalesco fechou o desfile substituindo o carro por outro, onde seus integrantes se apresentavam amordaçados, como protesto, sentados sob uma frase de efeito tratando o esquecimento do passado como comportamento comprometedor do futuro.
A nova alegoria pareceu-me uma fantástica representação daquilo que estamos realmente: seres inertes, calados, sem movimento, submissos a toda e qualquer desculpa da “bandalha do Planalto”, incapazes de mudarmos as coisas a partir das próprias cicatrizes que cada vez mais marcam a dignidade do trabalhador.
É o carnaval a maior prova que estamos vazios e sem nada de novo a dizer. E como a arte imita a vida, em certas condições quando não se evita o vazio o resultado é "rebaixamento da cidadania". Igualzinho a São Clemente, que já começou a apuração perdendo ponto pelo tamanho do tapa-sexo da passista, quebrou o carro e no fim “passou pro Segundo Grupo”.
Com a ousadia carnavalesca da modelo goiana Viviane Castro também fica fácil concluir que nosso conformismo com a falsidade da vida real tem sido mensurado pela métrica da hipocrisia. Assim como se a verdadeira nudez pudesse ser graduada pelos centímetros do tapa-sexo ou a falta dele. A fantasia da moda no desfile da vida é fingir moralismos para não cair no incômodo de ser diferente e passar tranquilamente o carnaval do ano inteiro.
PODRIDÃO, VERGONHA, INDECÊNCIA
A farra dos cartões de crédito corporativos chegou ao "bloco" da Presidência. E não se trata apenas de irregularidades com pagamento de despesas relativas à segurança do presidente e sua família, fato que já rendeu esclarecimento público por parte de Ministro. Agora a mídia descobriu que, desde há muito, o dinheiro público vem sendo assaltado com as viagens de Lula. Há muito mais cheiro ruim do que se imagina. São hospedagens de comitivas pagas além da data de permanência, diárias para pessoas que não constavam da lista, indícios de superfaturamento em hotéis, locadoras de veículos e outros estabelecimentos, notas "calçadas", documentos falsificados, empresas fantasmas e até o absurdo de se constatar que uma nota de padaria, no valor de R$ 9,44, foi alterada para R$ 99,44. Tem ladrão formado e ladrão pé-de-chinelo. São elementos deste tipo que assessoram o homem e tem matrícula de servidor público.
Pior: a sangria não é de hoje. Documentos revelam ocorrências do início do primeiro mandato. Como é possível um Presidente continuar a "não saber de nada" durante tanto tempo, mesmo depois do "grande desfile do Mensalão"? Ou ele é sujo ou incompetente. Eu já começo a pensar seriamente que não seja apenas uma das duas alternativas. Porque depois de tudo que está vindo à tona, alguém de lá mandar dizer ao povo que isto está acontecendo pelo ocorrido de alguns cartões terem sido perdidos, é carimbar o diploma de inconseqüente.
Mas, no fim de tudo, o maior culpado acabará sendo a "mídia golpista".
Esta reportagem é leitura obrigatória para quem já se indignou e para quem precisa se indignar. O governo petista vai deixando sobre a avenida da história um rastro de cheiro ruim que se espalha ao som do samba-enredo da cara-de-pau. Vergonha!
Por Ery Roberto Corrêa |
12:50 PM - Link deste post
Terça-feira, Fevereiro 05, 2008
[post antigo]
O URINOL DA MADAME NO SITE OFICIAL DE RESENDE
Meu amigo blogueiro Norival R. Duarte levou para seu Ó Pá Qui Ó o meu post de 02.10.2007 - O Urinol de Madame Pompadour (linkado em RELEITURAS, coluna ao lado). Colaborador do Site Oficial de Resende-RJ, também o reproduziu naquele sítio, com belíssimo destaque.
Agradeço o gesto do amigo. Expresso meu imenso prazer e admiração pelo cuidado dedicado na fidelidade destas reproduções, a preservação dos links e outros detalhes, bem como empolgada apresentação. Fiquei lisonjeado. Muito obrigado.
Por Ery Roberto Corrêa |
1:08 AM - Link deste post
Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
[carnaval]
QUEM TEM, TEM MEDO
 A história registra a importância dos "conselheiros políticos" dos governantes. Na maioria das vezes permanecem atuando nos bastidores nas situações menores, mas suas habilidades e experiências tornam-se visíveis exatamente nos momentos em que um Presidente consegue evitar uma loucura política.
No entanto, em ponto exato da decisão, é aquela resultante da consciência do governante que produz maior repercussão.
Foi o caso do Lula nestes dias que antecederam o carnaval. Ele havia sido convidado pelo Sérgio Cabral, governador do Rio, para assistir aos desfiles das Escolas de Samba.
Nas razões divulgadas para que não aceitasse constam reflexões pessoais movidas a pensamentos de José Sarney, dentre eles a necessidade de se preservar certa ortodoxia no exercício do cargo. É inevitável a lembrança do escândalo protagonizado na última vez que um presidente ocupou o camarote do Sambódromo, quando Itamar Franco foi fotografado ao lado da modelo que exibia a "jóia" sem se preocupar com o "estojo".
Mas é provável que na decisão de não ir à Sapucaí também esteve a lembrança das vaias do Pan.
Depois, o mar atualmente não anda dando peixe. Ondas teimam em provocar certo prejuízo da segurança na costa. Os movimentos ainda estão um tanto violentos pelas recentes surfadas com as pranchas de Cartão de Créditos Coorporativos de auxiliares diretos.
Viajou para o Guarujá e evitou o frevo da Mangueira.
Cabral ficou a ver navios.
Por Ery Roberto Corrêa |
4:02 AM - Link deste post
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
[carnaval]
ALA-LA-LÁ E ALA-LA-QUI
A quarta-feira de cinzas da Ministra foi antes. Mas ela também antecipou a "farra"! Justíssimo.
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Quer saber o tamanho da farra carnavalesca em Curitiba? A secretaria de Saúde vai distribuir 30 camisinhas. Parece que este ano houve uma previsão superestimada da campanha. Dizem que vai sobrar bastante.
As imagens acima (vista do Largo da Ordem, centro histórico da capital) e abaixo (início da Avenida Batel, uma das mais movimentadas em todos os dias da semana) transmitem a temperatura reinante.
Período excelente para sair às ruas, praças, parques, levar o cãozinho passear, andar de bicicleta sem ser atropelado ou assaltado (os delinqüentes preferem a periferia ou as praias - a 80 km, onde está a maioria dos curitibanos que adora uma agitação momesca).
Por Ery Roberto Corrêa |
8:40 PM - Link deste post
[sexo além do sexo]
O TANTRA DO CONSULTOR - Capítulo VII (final)
Capítulo VI
Capítulo V
Capítulo IV
Capítulo III
Capítulo II
Capítulo I
Nosso desjejum foi servido no apartamento. Atendeu-nos o mesmo serviçal que quase me esbarrou na noite anterior.
Usamos toda a manhã em nossos próprios aposentos e conversamos quase tudo que devíamos. Fiquei arrasada. Dentro daquele círculo eu era a pessoa que menos sabia das coisas. Refleti sobre ter vivido mais para o trabalho do que propriamente para mim mesma. Estarreci-me ao ser apresentada ao lado obscuro da vida daquele casal. Intrigava-me Romildo saber mais do que eu que convivia com Sérgio diariamente.
Foi difícil admitir que por pouco não me transformasse em vítima de mim mesma, desgraça que teria feito me separar do Romildo. De todos, surpreendia-me reconhecer, pelo menos aparentemente e apesar dos seus grilos, que o menos louco era Flavinho. Ele tinha agido para o plano não me atingir da forma estúpida que havia sido desenhado.
Eva, ardilosa, tramou tudo. Sabia da atração que Sérgio nutria por mim. Elogiar-me fazia parte do seu jogo. Com isto, consciente da habilidade do marido com ambos os sexos, despertava-lhe ainda mais o interesse. Seu intento era aumentar nossa aproximação para que tivesse o caminho livre na direção do Romildo. O que dela sempre pensei estava errado. Era falsa e doentia como Sérgio, a quem traia e pretendia se livrar sem que saísse culpada.
O MSN era seu elo com Romildo. Usava os ensinamentos do Tantra para conquistar sua confiança e tentava seduzi-lo a aprendizado prático. Induziu o marido a fazer o mesmo comigo. Não sei se teria caído na armadilha, possivelmente raciocinaria pela própria filosofia do discurso. Repetia que o Tantra era a forma mais ampla de viver o amor e nunca a carência. Talvez o peixe tivesse morrido pela boca.
A reação tranqüila do Romildo me refez. Concluí que eu não conhecia nem o meu marido. Contar-me que os "elogios" de Eva, mesmo falsos, o haviam despertado para uma nova forma de me ver foi um presente. Pesquisar sobre esta nova forma de relacionamento sexual o fez compreender o quanto éramos imaturos. Aceitar uma retomada com positividade reacendeu-nos a paixão.
Tudo se encaixava, menos um detalhe que roia meus neurônios. Como Romildo foi parar no quarto do consultor minutos antes de eu chegar?
Flavinho devia favores a Romildo. Era um sujeito esquisito, mas demonstrava sempre reconhecer ajudas. Foi meu marido quem o apresentou e mais tarde intercedeu junto a um figurão do Paraná. Aquela amizade mudou a vida dele. Foi convidado a trabalhar na política e depois acompanhou o patrão quando este se elegeu deputado federal. Respeitava-nos por isto.
Era um coringa. Sua lábia era mortal e tinha um jogo de cintura próprio dos bons políticos. Visitava o casal quando estava em Curitiba. Era tarado por Eva e através do marido aproximou-se dela de forma matreira. Conseguiu tudo que quis e teve o mérito de preservar a discrição. Roia dos dois lados.
Antes da nossa viagem esteve sozinho com ela. A intimidade da conversa o fez captar detalhes do plano. Contou tudo a Romildo e no dia seguinte ao do nosso vôo o trouxe à Brasília com tudo armado para me salvar.
Interrompi a conversa para ir ao trabalho. O encerramento da nossa reunião foi rápido e Sérgio veio me perguntar como estava. Sorriu amarelo e foi chamado a se despedir dos amigos, enquanto tomei o táxi e voltei ao hotel. Romildo me esperava no hall. Rapidamente resolvi a bagagem e sentamos para terminar a conversa sobre a "aventura". Até ali apenas a impossibilidade de alguém atender minhas ligações para casa havia se tornado explicável.
A última peça do quebra-cabeça ainda me martirizava, mas a revelação de Romildo me estremeceu. Flavinho havia virado um especialista em "arapongagem". Justificava que seu cargo exigia. Tinha Eva sob controle e há meses fazia escuta do casal.
— E tem mais, meu amor. Flavinho conhece todos os hotéis de Brasília. Tem amigos por todos os cantos. É figurinha carimbada. Aquele serviçal que nos serviu o café da manhã, você lembra de tê-lo visto outras vezes?
— Não havia pensado nisto! O cara era esquisito. Consegui lembrar de tê-lo visto nos fitando de longe. Na primeira noite estava no Bar. Finalmente acordei para detalhe esquecido que poderia ter sido o momento de Flavinho: depois que chegamos ao hotel, antes do banho, liguei ao Sérgio e perguntei se estava certo que lá em seu apartamento seria o melhor lugar para ficarmos. Devo ter gasto uns quarenta minutos para me aprontar.
— Flavinho me colocou no hotel e fez o serviço. Ainda não sei como e quem usou, mas prometeu me contar. Só sei que foi aquele serviçal que bateu à minha porta e me disse que já poderia ir ao apartamento do Sérgio. Dez anos juntos, minha querida! Será que agora vamos aprender?
— Eu te amo. Era tudo que eu poderia garantir.
Resolvemos passar o final de semana em São Paulo. Eu precisava de um clima diferente para que Romildo me ensinasse na prática o que havia aprendido. Estava curiosa do que era feita a tal "preparação".
Tínhamos tempo antes do nosso vôo. Fomos a um shopping e Romildo comprou incensos, velas, essências, cristais, vendas, cremes de massagem, afrodisíacos, livros e alguns vídeos. Excitei-me com aquele aparato e confessei que tinha despertado minha sede consumista. Resolvi fazê-lo participar com alguma sugestão e perguntei o que gostaria que eu comprasse. Quase sem me deixar terminar, gargalhou e disse:
— Troque o veneno e compre calcinhas!
Dentro do táxi, na ida para o Aeroporto, eu folheava um dos livros. Lia um pedaço e, sem me conter com tanta novidade, soltei uma gargalhada para dizer a Romildo que precisaríamos nos acostumar com novos nomes: "Lingam" e "Yoni", por exemplo. Eram bem mais simpáticos dos que usávamos para chamar nossos "brinquedinhos" até aquele dia. O taxista, até então calado, deu um sorriso maroto e perguntou:
— Estão indo fazer lua-de-mel no Oriente?!
Eram quase nove da noite. Depois da decolagem, da janela do avião, eu tive certeza que todas as luzes de Brasília piscavam pra mim. Se falassem, alguém já as teria apagado pra sempre.
Na semana seguinte separei-me profissionalmente do Sérgio, a pedido, e fui trabalhar em outro Departamento. Em seguida ele aceitou uma transferência para Porto Alegre. Mudou-se imediatamente. Havia separado da Eva que sumiu de Curitiba. Flavinho ainda não pagou a visita que nos deve. Faz tempo que não aparece...
Por Ery Roberto Corrêa |
10:40 AM - Link deste post
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